LIGA 2004/05: TÁCTICA E EMOÇÕES

19 de Outubro de 2004

LIGA 2004 05 TÁCTICA E EMOÇÕES

Benny McCarthy: A magia do futebol

Quando, em 1998, há seis anos e meio, o vi jogar pela primeira vez, no Burkina Faso, pela selecção sul africana na Fase Final da Taça das Nações Africanas, ainda era um miúdo de 19 anos, mas o seu talento já brilhava como um diamante do futebol africano: Benny McCarthy. Nessa altura (escrito na “Mundial”, Abril de 98) o seu estilo truculento, imagem de África pura, soltava magia, vocação atacante e técnica em velocidade, aliada a uma atitude vibrante como só se encontra no “continente negro”. Nos anos seguintes, da “escola de artes do Ajax” ao Celta de Vigo, a sua carreira não coincidiu, muitas vezes, com a dimensão do seu talento e a truculência dos seus dribles cruzou-se com o temperamento rebelde.

Questões tácticas e técnicas, levaram-no a vaguear por varias zonas da frente de ataque. Não nasceu ponta de lança. Nos primeiros tempos, o seu estilo veloz e imaginativo pedia maior amplitude de movimentos, arrancando de zonas mais recuadas, com liberdade para criar. A forma como se adaptou ao rigor táctico-posicional exigido por Mourinho no FC Porto, ao mesmo tempo o habitat perfeito para domar o seu carácter, provou que, no futebol, um das maiores qualidades de um treinador reside na capacidade de “entrar” na cabeça dos jogadores. Como avançado centro marcou golos de encantar, pontapés de bicicleta, cabeceamentos fabulosos e remates telecomandados por uma chuteira mágica. Soube entender a diferença entre a criatividade objectiva, a chamada “desordem organizada”, como lhe chama Mourinho, aplicando uma tese do colectivo á individualidade, da simples anarquia umas vezes genial outras vezes errante. Por isso, quando Victor Fernandez o reencontrou após os deslizes de Vigo, não reconheceu o mesmo McCarthy que dois anos antes dispensara. Pensou nos seus tempos futebolisticamente anárquicos e, com isso, reacendeu a chama rebelde do seu temperamento. No banco, assistiu aos labirintos tácticos do inicio de época portista. Revoltado, o seu olhar tranquilo expressava a certeza de saber qual o caminho certo.

Esperou nova oportunidade e quando voltou ao seu habitat, na área adversária, dançando em frente aos adversários, provou, ao treinador e ao mundo, como o talento descobre sempre uma saída. Os dois golos felinos que fez ao Belenenses foram como um grito de revolta. Devolvido á liberdade, no supremo palco do Estádio da Luz, o seu fabuloso golo, num pontapé vindo de outra galáxia, a forma como o festejou, a atitude revelada durante os noventa minutos, foram a moldura perfeita para a classe do seu futebol a que, por fim, também Victor Fernandez parece rendido. Perto de fazer 27 anos, Benny é hoje uma estrela na elite do firmamento futebolístico internacional. As aventuras do “géniozinho” sul africano que despontara nos relvados do Burkina há quase sete anos passeiam-se agora pelos estádios portugueses. Ao lado das maravilhas cada vez mais objectivas e de rosto europeizado de Diego, como antes foram companheiras dos poemas de Deco, o futebol de McCarthy é um dos mais fortes aromas da essência de bom futebol que se podem ver e sentir no actual futebol português.

Tácticas: O controle táctico e emocional

LIGA 2004 05 TÁCTICA E EMOÇÕESEmbora pertencendo a gerações diferentes, Victor Fernandez e Giovani Trapattoni são dois grandes senhores do futebol europeu. Defendem diferentes escolas de futebol, diferentes filosofias, mas ambos sabem que é nas quatro linhas que se “fala” de futebol. Rotulado de profeta do futebol bonito e ofensivo, resgatando os extremos em 4x3x3, Fernandez chega, por fim, a um grande clube com dimensão para ganhar títulos. É a oportunidade para desmistificar a imagem da insustentável leveza competitiva das suas equipas. Trapattoni é uma velha raposa, defensivista, calculista, para quem nada existe sem uma defesa segura.

Com esse estilo ganhou títulos, sofreu duras criticas e, na vitória ou na derrota, manteve sempre no mesmo estilo altivo dos velhos caminhantes. Outra fronteira entre estas duas filosofias, pode residir no chamado controle emocional de um jogo. Trapattoni falou que a sua equipa sentiu a pressão do grande jogo na hora de entrar em campo para defrontar o FC Porto. Perdeu consistência emocional e, consequentemente, táctica e, nessa encruzilhada, o onze de Fernandez soltou a magia sul americana de Carlos Alberto e Diego, a garra de Derlei (tacticamente desenquadrado á esquerda), e o instinto goleador de McCarthy. Quando tinha o controle e o domínio do jogo, sucedeu-lhe, porem, um pouco o que já tinha sucedido na jornada inaugural em Braga, também em vantagem no marcador (0-1) desde muito cedo. Recuou linhas, oscilou nas marcações a meio campo, e, depois, perdeu o controle emocional do jogo.

A pressão mudara de campo, numa altura em que o Benfica, tacticamente, já abandonara o 4x2x3x1 e passara a jogar, sem nº10 clássico, em 4x4x2, num sistema que precisa de ordem na circulação de bola de forma a transformar a maior posse de bola num correspondente modelo que, em triângulos, permita ao onze de criar desiqulibrios nas marcações adversárias, quer no homens, quer nos espaços. Neste contexto, há um jogador no Benfica que continua subaproveitado em termos de capacidade de organização de jogo ofensivo: Manuel Fernandes, não será um 10 clássico, mas está longe de ser um mero volante central ou um "box to box", será antes um 8, que, mais adiantado, nas costas dos avançados, pode, muitas vezes, descobrir o tal clic! para acender as luzes da equipa.

Dizem os livros, que se deve alargar o campo para defender e encurtá-lo para atacar. Reduzido a dez jogadores, Fernandez puxou Ricardo Costa para o seu lugar natural, defesa-central, e colocou Areias na lateral direita, retirando Carlos Alberto. Neste momento, o campo alargou-se para o FC Porto, enquanto, no Benfica, com a entrada de Zahovic e a saída do recuado Manuel Fernandes, o campo encurtou-se.

Neste contexto, Diego perdeu o controle posicional do seu espaço central e, sem a bola, o onze perdeu o controle emocional que só poderia ser recuperado com a reunião das linhas, missão para a qual, só Quaresma, com a sua velocidade, partindo desde o meio campo, poderia relançar. Entraria só a sete minutos do fim e foi o suficiente para se perceber que seria essa a solução que Fernandez teria de utilizar para voltar a ter o controle emocional da equipa e, tacticamente, do jogo, mantendo, ao mesmo tempo, o campo longo.