LUA, ESTRELA E REZA DE BOM FUTEBOL

28 de Julho de 2014

Adi Rais Cobos Adrien M`Bolhi. Só o nome provoca confusão, mas foi esta imensidão de guarda-redes que defendeu a baliza da Argélia dos ataques russos e, apelando ao seu Deus (como milhares de fieis argelinos o faziam com os olhos embaciados), conseguiram o histórico apuramento do Magreb para os oitavos-final. Esta Argélia já não tem quem marque golos de calcanhar (recordação do príncipe Madjer) mas, no conjunto, tem a sua melhor geração de sempre enquanto equipa.

A classe do pivot Bentaleb a começar a jogar (ia a escrever tratar a bola) desde trás; as fintas que desequilibram e o passe do criativo (a 10 ou a ala) Brahimi; as cabeçadas “picadas de abelha” e a passada larga do 9 Silmani; a inteligência a relacionar faixas com zonas interiores de Feghouli; as subidas dos laterais Ghoulam ou Mesbah; as invenções na faixa com a bola colada à bota de Mahrez ou Djabou; as rendas de técnica e táctica de Taider. Alguns traços da pintura de onze jogadores (com o “banco” sempre de caneleiras postas para entrar) que o técnico trota-mundos Halilhodzic transformou numa equipa com “E” grande, por todo campo.

M`Bolhi, 28 anos, já nasceu em França, pai congolês, mãe argelina, e como sénior, jogou quase sempre na Bulgária (está no CSKA). O seu visual recorda mesmo os grande heróis da pátria e, naqueles minutos de reza e sofrimento, tornou-se 1,90 m. de “guarda-redes montanha”, mais um para aquela galeria que há dias descrevia aqui de fantásticos guardiões que têm brilhado neste Mundial.

Segue-se agora o “jogo impossível” com a Alemanha, o duelo-vitória que os tornou mitológicos em 82. Ainda hoje revejo esse jogo. O golo em esforço de Madjer, o “football souplesse” de Belloumi, heróis de outras eras.

Alguém disse que um jogo de futebol não dura só 90 minutos. Dura esses 90 minutos mais a vida toda de quem o viu e nunca mais o esqueceu. Nunca ouvi definição mais perfeita. Quem não sente, não entende. E esta Argélia sente o futebol e entende muito do jogo. Na técnica, na táctica e até a rezar sem precisar de tapetes no chão. Bastam as cadeiras dos estádios brasileiros.

A “LANTERNA” BELGA

LUA ESTRELA E REZA DE BOM FUTEBOLÉ da equipas que, antes do jogo, cria mais expectativas de prazer, mas até agora parece que ainda não se libertou do colete de forças de expectativas de sedução que todos lhes puseram em cima antes do Mundial. Esta Bélgica tem muito bom futebol preso dentro dela e ainda não descobriu como o fazer sair para o relva.

Fellaini parece sempre à procura do melhor local para se colocar em campo. Uma busca que me faz parecer que está, quase sempre, no local errado. E, na maioria das vezes, está mesmo.

A velocidade com finta em progressão do ala Mertens acaba por ser o momento de maior perigo e impacto que a equipa provoca. Não faz sentido. Um belo conjunto brilhar só por jogadas individuais. Hazard conduz a bola com critério e qualidade mas precisa de melhores chegadas desde trás dos médios.

A indefinição entre o ponta-de-lança, Lukaku (forte com remate, mas mal servido) ou Origi (mais móvel, dando maior profundidade) acaba, na busca de espaços, por favorecer Origi. O que não quer dizer que seja melhor jogador. Quer dizer que a equipa tem problemas e busca resolvê-los. Ou, pelo menos, como é o caso, disfarça-los.