Mais do que um Jogo, um “Choque”!

19 de Abril de 2018

De “poder a poder”, como dizem os espanhóis para definir os jogos em que as equipas se defrontam mais pela sua força do que pelas suas armas. Parece igual, mas é diferente. Porque impera sobretudo mais uma dimensão de choque do que de duelo tal a forma como elas, ao embater uma contra a outra, como se anulam mutuamente e quase não deixam mexer-se uma à outra simultaneamente. Como aqueles combates de boxe de “pesos pesados” em que as montanhas humanas de músculos chocam e ficam encaixadas, coladas, no meio do relvado, perdão, do ringue. No futebol, colectivamente, por vezes sucede isso. Foi o que vi neste Sporting-FC Porto. Por isso, mais do que, um jogo ou um confronto, vi um choque!

Durante a primeira parte, esse choque traduziu-se numa espécie de “nó táctico” que o meio-campo do FC Porto deu no jogo pela forma como juntava os médios, linhas próximas, para se associarem (em triângulos de apoio, entenda-se ter um terceiro homem próximo para recuperara a bola) garantindo assim a posse e melhor maior ocupação de espaço no sector intermediário. Faltava, porém, baliza.

Tentou, depois, na parte final (preparando o ultimo choque promovido pelo adversário) colocar uma “pedra táctica” definitiva em cima do jogo com Reyes (para fechar à frente da defesa). Foi quando abriu-se uma fenda para o “murro-remate” de Coates numa bola solta após um canto.

 

Nesse momento, o choque que colara as equipas desvaneceu-se um pouco mas não ao ponto de as abrir para deixarem ver as balizas uma à outra. Desde esse “murro” de Coates até ao fim do prolongamento incluído, viu-se o Sporting mentalmente mais solto (e motivado). O FC Porto procurou reativar as zonas pressão a meio-campo para voltar a ter controlo do choque e assim impediu danos maiores mas o seu chamado “momento no jogo” ficara na primeira parte.

Não queria falar do cansaço, mas como a questão física foi tão debatida e os próprios treinadores (com Jesus na contabilidade máxima de jogos já disputados) a citaram, foi impossível ver jogo sem pensar nisso. Penso que se pagou essa factura mais antes do jogo (nas condicionantes das opões) do que durante, apesar das alterações forçadas que o FC Porto fez por isso e como dessa forma perdeu a força ofensiva que tinha (ver caixa ao lado).

O Sporting acabou por conseguir gerir melhor esse factor na parte final porque apanhou tacticamente o jogo a seu favor. Algo que prova como essa questão física nunca vive sozinha num jogo. Vive ligada á questão táctico-técnica que é exigível a cada momento. E quando se pede-lhe demais, sobretudo em resposta à adversidade, elas, geralmente, quando ligadas á fadiga táctica mental, “partem-se”.

 

Chave da profundidade

Sérgio Conceição explicou as substituições pelo desgaste mas de todas a que condicionou mais o jogo foi a de Soares por Aboubakar. Uma substituição que, como digo, prova como a frase “troca por troca” é absurda. A troca foi, de facto, direta, no sentido do jogador ir para o mesmo lugar e a estrutura manter-se, mas sendo Aboubakar tão diferente de Soares, tal muda a dinâmica da posição e condiciona toda equipa.

Neste caso, traduziu-se na perda de profundidade ofensiva. Presente com Soares que é um ponta-de-lança que ataca os espaços nas costas dos defesas, metendo poder de explosão em cima das marcações e travando a subida da linha defensiva adversária. Ausente com Aboubakar, mais nº9 de área, que joga em apoios, dá e vai embora para receber, mas que quase sempre á frente dos defesas, não dando a profundidade agressiva de Soares. O bloco teve de juntar-se mais atrás.

Por isso, no prolongamento, Sérgio Conceição subiu Herrera quase para segundo-avançado. Insuperável físico-tacticamente, o “orelhas mexicano” voltou a esticar a equipa (tentando reativar a profundidade). Não chegou.