(Mais) um chá no deserto

23 de Novembro de 2012

Um país sem futebol é um pais sem alma. Há quase um ano, depois da tragédia de PortSaid, que o Egito não tem o seu campeonato. O futebol parou. Entretanto, as equipas vão-se treinado e é curioso notar que nem mesmo nesta situação os melhores jogadores abandonaram o país rumo as outras paragens. Existirão muitas razões (financeiras, desportivas, sociais...) para isso acontecer, mas a verdade é que este sensacional Al Ahly, que conquistou a sua quinta Liga dos Campeões Africanos em sete anos, é hoje um clube sem campeonato.

Na Final, teve a companhia do Esperance Tunes, símbolo do, talvez, futebol mais defensivo do continente africano, a Tunísia. Empatara na primeira mão e, por isso, no segundo jogo, em vantagem (1-1), montou uma estratégia do mais puro e rochoso catenaccio. Um 4x5x1 com defesa sempre posicional e uma colmeia de cinco médios (que impediu o craquezinho Mskani de receber a bola na frente, pois estava sempre atrás a fechar) deixando desterrado no ataque o solitário nº9 camaronês Djenge, astuto a desmarcar-se.

O atual Al Ahly está bastante diferente dos tempos de Manuel José. Abandonou os sistemas de três defesas e laterais-alas (3x4x3 ou 3x4x1x2) do faraó luso, para jogar num 4x2x3x1 ou 4x4x2 mais equilibrado na união do bloco e transições defesa-ataque-defesa. Os principais intérpretes continuam lá. Cada vez mais experientes, manejam os ritmos de jogo como querem, embora num estilo quase sempre estruturalmente lento.

Gomaa, com 37 anos, continua a mandar, com Mansour, no centro da defesa, ficando o rotativo Ashour a controlar todo o meio-campo. O onze tem avançados móveis que tanto dão mobilidade como um jogo mais apoiado.

Nesta equação trocas posicionais-jogo posicional, a surpresa do técnico El-Badry no segundo jogo foi deixar o maestro Aboutrika no banco, metendo mais um avançado em 4x4x2. Geddo é um ponta-de-lança forte e móvel teve o apoio próximo de Hamdi, segundo-avançado, mantendo nas faixas, velozes em diagonais, os alas Saeed e, sobretudo, a serpente Soliman. Entre os patriarcas, Aboutrika, 33 anos, joga cada vez mais a passo (mas...passa sempre bem) e Barakat, 35, salta do banco e entre a meia-esquerda e o centro ainda desequilibra.

Este Al Ahly é uma grande equipa africana mas passam os anos e continuo com a mesma sensação: o Egito tem jogadores de grande qualidade a quem só a falta de ritmo internacional impede a consagração além-fronteiras. Para a sua seleção crescer, muitos desses jogadores deviam jogar na Europa (e crescer com outros desafios competitivos de ritmo e táctica). Tal continua sem suceder e, assim, esta realidade de bom futebol continua fechada no seu casulo africano. Domina, empolga em muitas jogadas, adormece taticamente noutras. Como qualquer grande equipa europeia, afinal. Lá estarão, outra vez, no Mundialito de clubes. Para voltar a sentir o choque de saltar essa fronteira do seu território futebolístico?

Viagem a Marrocos

(Mais) um chá no desertoO factor que me causa mais estranheza no domínio das equipas da região norte no futebol africano, é a dificuldade dos clubes marroquinos em chegar mais longe. Voltei a sentir essa sensação vendo a Final da Taça do Rei de Marrocos entre o Raja Casablanca e o FAR Rabat. É, no ambiente, dos jogos mais emocionantes do mundo. Para um jogador marroquino não existe consagração maior de carreira do que, no fim, subir a tribuna e cumprimentar o Rei para receber a Taça.

O jogo foi aos penaltys (ganhou o FAR). Tecnicamente, a bola é muito bem tratada dentro de sistemas de 4x2x3x1. No Raja, um triângulo de médios onde estavam, no duplo-pivot, os únicos dois estrangeiros presentes em campo: Kouko (pivô marfinense) e Mabidé (da República Centro africana), a subir e descer, ambos atrás de Chedli, 36 anos, com técnica de passe. Na frente, Yajour, rápido, dá muita profundidade mas por muito que corra parece que a baliza lhe fica sempre muito longe.

O FAR tem um excelente duplo-pivot: Saidi e Bakkali (o patrão), com um criativo veloz a nº10, Kaddioui, o jogador mais virtuoso em campo. Finta toda a gente até acabar por...se fintar a ele próprio. Na ala, o canhoto Aqqal é perigoso.

Duas boas equipas, mas que se percebe terem pouca intensidade tática internacional. Marrocos é, no entanto, um grande pais de futebol que merece visitas mais atentas. Há muito talento escondido!