Mantorras, balada por um futebolista

23 de Janeiro de 2007

Pense um pouco e responda. Que palavra domina hoje uma equipa ao entrar em campo: medo ou esperança? Pois bem, o futebol é técnica e táctica.

Mas também é instinto e sentimento. Há várias formas de procurar definir a união destes vários factores. Eu sei que, como diria Cruyff, o futebol é um jogo para ser jogado para cabeça, inteligência em movimento, mas a raiz da atracção fatal entre o homem e a bola tem outra essência. Eu acho que Mantorras personifica hoje esse lado selvagem, excessivo até, que faz a nossa primeira aproximação ao futebol. E isso, ironia das ironias, é nos transmitido por um jogador que está condenado a…não jogar. Talvez por isso, tem alegria até no aquecimento. Faz lembrar uma bela prosa de Drumond de Andrade para quem se existisse um Deus que regulasse o futebol ele seria irónico e farsante, pelo que, confidencialmente, ia colocando pelos campos alguns dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e todos. Mantorras é um pouco isso. Só que, como também é um Deus cruel apenas lhe deu possibilidade de jogar vinte e poucos minutos por jogo. Custa ver como um jogador que transmite esse sentimento, a adeptos, colegas ou simples vendedores de queijadas de Sintra, esteja condenado, por questões físicas, a jogar tão pouco tempo. Mas, se calhar é mesmo essa sua história de sofrimento que torna o seu futebol mais romanceado e sedutor.

A táctica e o instinto.

Mantorras, balada por um futebolistaUma equipa de futebol é um ecossistema onde cabem personagens de vários tipos. Os calmos, os temperamentais, os que sabem esperar e os que por cada vez que pegam na bola querem resolver um jogo. Pensem nos jogadores que jogam à frente da defesa a marcar os ritmos de jogo. Mais do que meros recuperadores, são também as primeiras referências na construção de jogo. Trincos reciclados, tipo Paulo Assunção. A sua importância é enorme, mas quando se fala dela, o comum é dizer-se como está agora a equipa a jogar melhor com ele. O seu trabalho dilui-se no colectivo e raramente o que ele faz aparece nos resumos. Se, noutra perspectiva, falarmos em Quaresma, nos seus raids e trivelas, logo dizemos, «meu Deus!», como joga este jogador e exaltamos as suas capacidades individuais. Pressente-se aqui como que uma luta entre o pensamento racional e o instinto. Claro que, pensando no jogo como gosto de fazer, pegando na equipa como numa balança, colocando um peso de um lado, e depois outro no lado oposto, e assim sucessivamente, até encontrar o equilíbrio perfeito que permita dominar os movimentos defensivo e ofensivo, o ideal seria usar os dois estados de espírito para criar uma ideia racional de jogo. Se a ordem serve para o empatar, só o talento serve para o ganhar.

A diferença nota-se quando a esperança de ganhar supera o medo de perder. Ora ai está um bom pretexto para voltar à pergunta inicial. Medo ou esperança? Pois, sejamos honestos. Vemos jogar a maioria das equipas, as ordens dos treinadores, a pressão (sempre a pressão) que os domina, e não custa dar a primeira resposta. Há, porém, jogadores que nos mostram outro caminho. Mantorras é um pouco isso. Um símbolo das causas perdidas. Vinte minutos para ver o futebol a partir de outro sentimento. Já é melhor do que nada. Talvez na playstation ele possa jogar os noventa minutos, não sei…