Mas, afinal, como quer jogar Portugal?

21 de Junho de 2016

Portugal ainda pode brilhar neste Europeu, mas antes disso tem de decidir uma coisa muito simples: como quer jogar.

Após passar dois anos da sua vida a moldar taticamente o nosso jogo para poder expressar-se em 4x4x2, não faz sentido, chegar á fase final do Euro e, depois de um primeiro jogo não conseguido exibicionalmente, colocar essa identidade em causa, mudar para 4x3x3, e perder as referências que tanto tinha custado a criar.

Dirão que tudo depende sempre mais das dinâmicas e que os sistemas não têm, por si só, vida própria (o que é verdade) mas a verdade também é que é exatamente a melhor aplicação delas que fica em causa quando se muda o posicionamento (o sistema) dos jogadores nos quais se começa a jogar (a meter dinâmica o jogo).

Uma alteração que, para além da mudança de intérpretes (e suas características em diferentes posições-chave) como que colocou Portugal a certo ponto do jogo com a Áustria a jogar sem estrutura táctica totalmente definida, quase como preso entre dois sistemas (sobretudo quando saiu Quaresma e entrou João Mário, deixando indefinida a posição de André Gomes e com Nani e Ronaldo a jogarem os seus “jogos de movimentos quase particulares” à margem do coletivo).

Fernando Santos não deixou cair Moutinho da equipa, mas para juntar Quaresma no mesmo onze de Ronaldo e Nani, em vez de procurar apenas encaixar Quaresma a partir de uma ala do 4x4x2 clássico (procurando depois os necessários equilíbrios defensivos coletivos sem bola), não só tirou João Mário como passou para um 4x3x3 híbrido para o qual não temos ponta-de-lança e ainda fixou mais a posição de Ronaldo no centro a 9 (onde se sente pior, longe do lado esquerdo desde o qual, mesmo desgastado e sem poder de explosão, remata/joga melhor).

Entre os dois jogos, Fernando Santos terá pensado tanto, tanto, que após dois anos a jogar com certezas passou no espaço de quatro dias a jogar com... dúvidas (colocando em causa as bases de tudo que fizera antes). E nenhuma equipa joga melhor em cima de duvidas.

Confundido entre “dois sistemas”

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A Áustria surpreendeu claramente Portugal na sua forma de jogar sem ponta-de-lança (algo que antes nunca tinha acontecido) e quase renunciou a atacar para jogar num bloco recuado. Perante esta estratégia austríaca, o jogo português tornou-se uma “sucessão de jogadas” a partir das iniciativas dos jogadores e não consequência dum jogo, movimentação coletiva, verdadeiramente pensado.

É verdade que se criaram oportunidades e bastaria uma ou outra ter entrado para tudo ser diferente. Pura ilusão. Seria diferente o resultado, sem duvida. Não seria a encruzilhada mental de abordagem ao jogo em que Portugal se deixara cair: colocar em causa as bases de tudo o que fizera antes e passar a jogar (num sistema e dinâmicas) no qual nunca antes procurara criar raízes.

Por isso, nesta fase a questão é só uma: Portugal (isto é, Fernando Santos) tem de decidir como quer jogar. Sistema, dinâmicas e jogadores para o interpretar. Viver no meio de dois sistemas só leva a perder identidade e colocar-se na dependência da bola bater no poste ou entrar.

O futebol em vez de ser o jogo de “sorte ou azar” a que muitos gostam de resumir, é antes um jogo de pensamento táctico e estratégico. E ganha quem o pensa melhor (tem é de ter uma identidade, uma ideia clara do que quer fazer). Sem isso, nada faz sentido. Seja qual for o resultado.