Memórias: Quim, o “Cruyff de Marvila”

04 de Setembro de 2004

Memórias Quim, o “Cruyff de Marvila”

Espaço nostálgico sobre lendárias figuras do velho futebol português. Um exercício de memória cruzada entre a realidade e a forma como, no imaginário construido pelo tempo, as gostamos de recordar, sem recurso a registos ou jornais velhos.

A visita do velho Oriental ao Estádio da Luz para a última eliminatória da Taça de Portugal representou, para muitos adeptos do futebol português, como uma nostálgica viagem no tempo. Foi como recuar vinte e nove anos e recordar a última passagem do histórico Oriental de Lisboa pelo Campeonato Nacional da I Divisão, em 74/75, época em que terminou no 13º lugar e acabou despromovido. Desde essa cada vez mais remota data, nunca mais o outrora pelado de Marvila, mais tarde transformado em relvado, voltou á elite da bola lusitana. Outros tempos, outro país, outro futebol e uma nova correlação de forças que afastou do convívio entre os grandes, velhos e históricos emblemas da chamada Grande Lisboa antiga, como o Atlético, Barreirense e, claro, o Oriental. Abrindo o baú da memória, há um jogador que, quando recordo o velho Oriental de meados dos anos 70, me vem logo á mente. Seu nome: Quim. A razão dessa súbita recordação repousa numa simples definição que acompanhava o seu nome.

Chamavam-lhe o “Cruyff de Marvila”. Jogava a extremo esquerdo e a origem dessa fabuloso rótulo derivava das incríveis semelhanças físicas, face, fisionomia e estilo de jogar que caracterizavam o seu futebol, na relva ou na terra batida. Reparem na foto, datada da época 73/74, num Oriental-Farense, e revejam, num remate com o seu elogiado pé esquerdo, o estilo e o semblante físico do “Cruyyf de Marvila”, semelhante ao mítico holandês que nesse mesmo ano explodia no Mundial da Alemanha. O nosso Cruyff, o canhoto do Oriental, Quim, destacava-se, em campo, pela técnica, astúcia de baliza e bom remate. O seu jogo pedia um clube de maior dimensão.

Memórias Quim, o “Cruyff de Marvila”

Cada jogo do Oriental era uma guerra para evitar a descida de divisão, sempre sob pressão, em ambientes de “vida ou morte” que cresciam com o aproximar do fim da época. Á medida que a “guerra” aumentava, o

talento do “Cruyff de Marvila” decrescia. Era um futebol diferente, mais combativo, jogado em pelados que queimavam, muitas vezes com lama revolta, onde para dominar uma bola quase fazia falta atá-la com uma corda

á chuteira. O nosso “Cruyff,” no entanto, conseguia, mesmo nesses terrenos “minados”, fazer da bola o que queria. Noutro espaço, noutros palcos, noutro...tempo, teria deixado outras marcas no futebol português. A estética de Cruyff no pelado de Marvila representa, porém, para quem o viu jogar, uma das mais bolas pérolas da memória lendária do velho futebol português. Sinceramente, com o decorrer dos anos, fui perdendo o rasto á sua carreira. A última vez que recordo ouvir e ver o seu nome em destaque, remonta, salvo erro, á época de 80/81, quando então o Sacavenense da II Divisão defrontou e eliminou o Vit.Guimarães (2-1) na Taça de Portugal, guiado pelo saber de um esquerdino de classe.

Era uma das últimas aparições do talento do “Cruyff Quim” num palco mais luminoso. Com o passar dos anos, ficou apenas a sua memória que o simples olhar para esta foto de há 30 anos faz renascer. São as miragens de “outro futebol”, nas quais, nos sombrios túneis da memória, acabamos por relembrar as coisas, não como elas aconteceram realmente, mas antes como as gostamos de recordar. O “Cruyff de Marvila”, porém, brilhou mesmo, com a camisola vermelha do histórico Oriental, nos pelados e relvados do nosso velho futebol. Era um esquerdino encantado, mesmo que nunca tivesse pisado nenhum relvado de Amsterdão.

Nota:

Se alguém, ao ler este pequeno exercício de recordação futebolística, quiser acrescentar outras memórias ou outros dados mais pormenorizados da carreira do "Cruyff de Marvila", não hesite em contactar o “Planeta do Futebol”. Só assim o baú de memórias da bola lusitana ganhará a dimensão merecida.

Memórias da Bola Lusitana