Para mim, todos os dias são dias de Maradona.

19 de Outubro de 2016

Maradona é hoje uma utopia. Viveu num tempo em que as pessoas acreditavam em heróis que viviam noutra dimensão e eles respondiam como tal em todas as situações. Continua, omnipresente, em murais de Nápoles, mas mesmo esses também se esbatem com o tempo, neste caso porque é um passado forte demais para o presente com “memória de papel”. O futebol, porém, continua e há que disputar-se jogos todas as semanas. Vitórias, derrotas, críticas ao arbitro, treinador, jogadores, dirigentes, levaram as multidões (os adeptos) a uma espécie de resignação em relação aquele sentimento. O tal sentimento de precisar de heróis.

Até Ronaldo ou Messi são “pop-stars” dos tempos modernos. Não transportam crenças. Estão num relvado mas podiam estar numa série de ficção. Diego não. Estava na vida real e as pessoas sabiam disso. No divino e no profano. Confrontava, brilhava, tinha Che e Fidel nas palavras, desafiava poderes, vencia-os ou era castigado. Mas era humano. Por isso, depois chorava, errava, pecava, por todos os pontos da vida, como todos nós, afinal.

Todos os que o viram há poucos dias, morfologicamente no ponto ideal para ser confundido com aquilo que poderia ser se não fosse humano, uma bola!, tiveram essa imagem do passado de volta.

A imagem e a personagem real. Num jogo organizado pelo Papa Francisco pela paz, pegou-se com Verón no relvado, apontou-lhe o dedo, encostou-lhe a barriga, com a “Brujta” também de sobrolho carregado, discutiram, sem sombra de virtudes, à luz do pecado. Eram histórias antigas, de há longos anos, do tempo final de Maradona jogador e do seu curto tempo como treinador. Vinham, numa palavra, do seu tempo. Daquele tempo que falava no inicio do texto e de que sinto falta.

Maradona apaixona-me pelos erros que comete. Maradona apaixona-me pelas magias que realiza. Escrevi, intencionalmente, no presente, porque para mim aqueles golos, jogadas, polémicas, frases, drogas, mulheres, fintas, encontros com Fidel e o Papa, criticas aos dinheiros da FIFA, defesa dos jogadores, outras vezes grandes golos, tudo isso, acontece todos os dias na minha cabeça. Para mim, todos os dias são dias de Maradona. Como no quadro dele que tenho à minha frente enquanto escrevo estas linhas no escritório de minha casa.

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O mundo envelheceu muito rapidamente. Nunca vi jogadores novos tão velhos como os da atualidade. Mesmo os que ganham Bolas de Ouro. Não se consomem crenças, só imagens.

Claro que não considero saudável discutir como princípio de vida. O Papa Francisco não pensou aquele jogo para santificar ninguém. Apenas para mostrar como o mundo é, dentro de uma "cancha de futebol” (para utilizar mesmo o termo argentino, de Maradona e do “hincha” sua santidade do San Lorenzo). Gosto de filosoficamente acreditar que a história tem um objectivo. E um dia, talvez gerações futuras, vão perceber as diferenças entre estes dois tempos. Entre o herói pecador de crenças e as estrelas de imagens do presente. A diferença entre Diego e os craques atuais.

O destino quis que as coisas fossem de uma maneira. Maradona quis que as coisas fossem de outra. Continua a querer. Em qualquer lugar, em qualquer tempo. Devíamos todos ser assim. Diego é o antídoto contra a falta de esperança. Sintomas de uma época em busca de um sentido.

Um dia, ele irá abandonar este mundo. Como todos nós. O legado de Maradona não admite comparações. O ícone, o “pibe”, uma profecia que se cumpre. Num grande golo no auge da careira no Mundial-86, como na discussão já gordo num jogo organizado há dias pelo Papa.

P.S. Ao lado do Diego, na parede do escritório, também tenho quadros com Best, Garrincha, Raul, Eusébio enlameado no fim de um jogo, Ronaldinho (o melhor sorriso de futebol de sempre), Bill Shankly e Che Guevara. O mais recente que fiz? Um enorme da equipa do Torino que morreu toda num desastre de aviação nos anos 40.

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http://www.planetadofutebol.com/planeta/diego-barrilete-cosmico-planeta-viniste/