Mister, reforcei a equipa!

02 de Fevereiro de 2007

Mister, reforcei a equipa!

Arrigo Sacchi era um treinador que entendia o futebol muito para além das quatro linhas. Olho de cientista louco, quase parecia ter visão «raio x». Conta ele que, certo dia, um treinador, nervoso e pressionado, se aproximou dele quando o viu num restaurante e pediu para lhe falar.

“Mister – disse -estou tramado. Decidi tirar da equipa um jogador que era intocável para o público e até a imprensa. Agora, se perder domingo, perco duas vezes. No campo e fora dele!”. Sacchi olhou-o, sentiu a sua ansiedade e disse-lhe: “É verdade. Tens razão. Mas se fizeres o contrário do que pensas, ainda perdes três vezes: perdes também antes de jogar!” Não sei qual teria sido depois o resultado, mas, se seguiu este conselho, o treinador sufocado «ganhou» o jogo seja qual tenha sido o resultado. Mais do que a profissão, acredito que é a própria vida do treinador que é de desgaste rápido. Este mês de transferências é um bom teste a esse desgaste. Não é que passar horas a ver DVDS enviados por empresários com montagens mirabolantes de jogadores de todo o mundo seja desagradável, mas o problema é que, ao fim do dia, um homem já nem sabe bem o que viu. Os nomes sucedem-se. Todos, no mínimo, «raçados» de Pele ou Maradona.

O treinador entusiasma-se, telefona a amigos, pergunta se os conhece, se são mesmo bons, se podem jogar noutra posição, se são altos ou magros, se tem cão ou gato (bem, aqui talvez esteja a exagerar…) e no fim, ok, é este que eu quero. A direcção fica a saber. O homem vai dormir descansado e quando acorda… tem lá um jogador contratado completamente diferente. Não, isto não é ficção. Acontece num clube perto de si. Daqueles que se dizem modelos de profissionalismo. O empresário que trabalha preferencialmente com eles também acha o mesmo.

Era só o que faltava trazer aquele outro jogador, só por já ser um craque feito e até ser internacional. Não, não, está aqui um fenómeno muito mais barato, que ninguém conhece, mas que garanto ir virar o jogo de pernas para o ar. Se depois não virar – e o mais provável é não virar mesmo – os olhares de todos, adeptos, directores e jornalistas, vão se virar para o tal homem no centro do vulcão: o treinador. É difícil descobrir talento. É mais difícil, ainda, comprar talento. O jogo mais importante para um treinador é o que se joga durante a semana antes do apito inicial. É nesses dias que afirma a sua personalidade e luta pela garantia de ir ganhar, empatar ou perder com as suas ideias. Os adeptos continuam a preferir ganhar no último minuto com um penalty inventado.

Segundos que podem devorar uma época inteira. Esquecem-se facilmente de quem ganha dinheiro com as suas próprias emoções. Dizem que o futebol mudou? Não, o que mudou foram as pessoas que se apropriaram dele.