MUNDIAL 98: O ECLIPSE DOS GÉNIOS

27 de Junho de 1998

Do Mundial-98 ficou uma inquietante sensação de vazio quanto ao valor e ao estilo de todas as selecções. Até o Brasil, outrora êxtase do futebol-arte, se converteu ao pragmatismo do futebol actual. Ronaldo falhou o encontro com o Olimpo, Zidane não tem a dimensão de um verdadeiro monstro e Baggio carece de um carácter mais forte para pensar na coroa. A ditadura do esquema táctico e a abordagem cada vez mais calculista do jogo, levam que a maioria dos treinadores optem por jogadores mais musculados, tacticamente disciplinados. Os artistas, diferentes, que fascinam as pessoas e podem mudar o curso de um jogo são cada vez menos e olhados com desconfiança pelos pragmáticos treinadores do presente.

O futebol actual encontra-se, assim, num dilema: Os treinadores e os seus esquemas tácticos são mais importantes que os jogadores, sejam eles quais forem? Será legitimo sacrificar a criatividade por imperativos do colectivo? O argentino Carlos Bianchi afirma que "jogo em função das qualidades dos meus jogadores. Gostaria muito de jogar em 4-3-3, mas para tal são necessários avançados que estejam habituados a trabalhar na recuperação de bola. Sendo assim prefiro jogar em 4-4-2, com personalidade a meio-campo e grande presença fisica".

O OLHAR DOS OUTROS

MUNDIAL 98 O ECLIPSE DOS GÉNIOSRobert de Niro numa entrevista onde fala da forma como desenha as suas personagens na película com uma mescla de anarquia e disciplina conta que “quando decido interpertar um papel tento-o entender em toda a sua existência, corpo e alma. É um processo intuitivo, emocional e comtemplativo dirigido pelo intelecto. Primeiro permite-me ser selvagem e excessivo, depois devo fazê-lo de forma precisa e controlada”. O futebol de presente glorifica os personagens duros e alimenta-se dos mitos do passado. O talento que hipoteca a disciplina táctica é visto como um elemento subversivo. Com o método De Niro, o talento seria afastado logo na primeira fase e nunca chegaria a ter oportunidade de brilhar. Catherine Deneuve, diva do cinema francês diz que continua a representar porque “preciso do olhar dos outros”.

A França foi campeã do mundo sem alinhar a sua personagem mais enigmática da década. Eric Cantona deixou o futebol porque nunca conseguiu ser feliz dentro dele “Sempre senti dentro de mim uma alma rebelde. Talvez seja demasiado inteligente para ficar satisfeito com o que consigo alcançar. As pessoas que atingem esse nível de inteligência, intelectual ou instintivamente, nunca podem ser verdadeiramente felizes porque entendem coisas que muitos jamais captariam”. Agora vive em Barcelona, quer ser actor, está a rodar um filme e continua a precisar do olhar dos outros.

ASTÉRIX ZIDANE

MUNDIAL 98 O ECLIPSE DOS GÉNIOS1Escreve Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de solidão que José Arcadio Buendia não aceitava jogar ás damas porque nunca entendera o sentido de um jogo em que os adversários estão de acordo nos princípios. Pode no rigido futebol actual um jogador ser feliz dentro do relvado? A pátria gaulesa, orgulhosa de Ásterix, quando les jours de gloire sont arrivé, logo procurou descobrir neles o seu heroi. Zidane é o novo Ásterix do futebol francês, mas o técnico Aimê Jaquet, que tem medo que o céu lhe caía em cima da cabeça em cada cinco minutos, confessou que antes da final contra o Brasil chamou-o á realidade dizendo-lhe: “Zizou, tu não és a equipa de França. Tu não representas a equipa de França. Não metas essa ídeia na cabeça.” Fez uma pausa e acrescentou: “Mas eu sei que serás tu que nos fará ganhar!” Kiko, o duende do meio campo espanhol, pensa que “a felicidade absoluta não existe, mas...yo casi la rozo”. Como? “Ninguem imagina que eu possa passar um jogo sem tentar um túnel ou um toque de calcanhar...” Valdano considera que o mago que irá marcar o futebol no inicio do Sec.XXI deverá estar neste momento a aprender a andar em qualquer rua do Rio de Janeiro ou de Buenos Aires. Locais onde o talento natural ainda pode crescer sem os pragmatismos técnicos-tácticos que marcam um jogador desde o inicio do seu processo de formação. Enzo Bearzot disse um dia que se o futebol fosse um estilo de música seria jazz, a arte do improviso.

Na lista dos génios do século predominam magos da América do Sul. Cruyff justifica o facto com o conforto da vida na europa, onde cada vez menos se joga na rua, condicionando o sentido de improvisação. Todos os grandes jogadores estiveram avançados no tempo. Hoje, todos têm relógios semelhantes.

SUPRATERRENO E CÓSMICO

MUNDIAL 98 O ECLIPSE DOS GÉNIOS2Quando o realizador francês Luc Besson montou o seu ultimo filme de ficção cientifica, “O quinto elemento”, o anúncio de chamada para o casting dizia procurar “Mulher de beleza supraterrena e aparência cósmica”, no horizonte de encontrar o ente humano perfeito e redentor. A eleita acabou por ser uma nínfa de beleza perturbante com antepassados eslavos, nascida em Kiev da união de uma actriz russa e um pediatra jugoslavo. Durante o tempo em que durou o simples abrir e fechar dos seus hipnóticos olhos azuis, Milla Jovocvich descobriu as chaves do paraíso. Agora enquanto desfila felinamente a colecção Versace prepara o novo filme de Besson sobre a vida de Joana D’Arc, a heroína francesa que ardeu na fogueira. Com apenas duas décadas de vida, bastou outra forma de olhar para sentir o mundo a seus pés. Muitos são os que dizem que os povos apenas se limitam a construir heróis para, logo depois, os derrubar. O mundo do futebol fica mais feliz quando descobre novos talentos. A pressa de descobrir novos herois supraterrenos e de aparência cósmica é enorme. Uma obsessão. Todas as grandes competições deviam ter no momento do seu lançamento o mesmo anúncio que o filme de Besson.

No último Mundial surgiu metoricamente uma nova estrela. Dizem que o seu jogo é uma metáfora da sua própria vida: sempre a grande velocidade, ganhando tempo ao tempo: Trata-se do inglês Michael Owen, 18 anos, toda uma vida pela. frente. Não veste Versace mas enverga a camisola da selecção inglesa. Com 8 anos jogava na selecção sub-11, com 17 estreou-se na Premier League pelo Liverpool e com 18 tornou-se o mais jovem internacional inglês de todos os tempos. Fez um golo fantástico contra a Argentina e, num ápice, toda a “velha albion” julga ter descoberto um jogador perfeito e redentor. As comparações não se contêm: Ronaldo é melhor que Péle, Ortega é melhor que Maradona, Owen é melhor que Bobby Charlton? Uma exercicio enigmático. Comparar jogadores divinos com outros meramente terrenos. No futebol o casting para a remake de “ O quinto elemento” continua incompleto. A pressa é inimiga da perfeição. Mas Owen, como Ronaldo ou Ortega, são facilmente admitidos nas audições. Resta saber se conseguirão o papel principal. Têm a palavra, Sua Majestade, o futebol!

CEMITÉRIO DE ELEFANTES

MUNDIAL 98 O ECLIPSE DOS GÉNIOS3Muitos acreditam que existe algures no universo um cemitério de elefantes com dimensões planetárias. Marguerite Yourcenar escreveu que “morre jovem o que os deuses amam”. O nosso planeta chega cansado ao final do século. Com a mesmo inquietação espiritual que um jogador de futebol em final de carreira. Os Rolling Stones estão na estrada para a sua eterna tourné. A longevidade desta banda não tem uma explicação lógica. Atravessou e ultrapassou gerações. Mick Jager exultou nas bancadas durante o Inglaterra-Argentina. As camâras de televisão deliciaram-se com as suas imagens entre milhares de suporters que de braços no ar gritavam “England!England!”. Em 66 já vira, com o mesmo sentimento, Bobby More levantar a Jules Rimet das mãos da Rainha Isabel. Muitas das estrelas que agora brilharam no relvado de Lyon não tinham idade suficiente para se lembrarem dos golos de Hurst e outras nem sequer eram nascidas. Salvador Dali disse que o minimo que se pode exigir a uma escultura é que não se mova. A carreira de um futebolista assemelha-se mais com a de uma top-model. Depois dos 30 e poucos anos desfilam classe apenas nas fotografias ou nos lances de bola parada.

O segredo do elixir da juventude é tão misterioso como o de saber envelhecer conservando o culto iconoclasta. Platini escreveu no seu livro, A minha vida como um jogo, que “morri no dia 17 Maio de 1987, com 32 anos..., dia em que me retirei do futebol”. Zubizarreta abandonou as redes espaholas no final do Mundial de França. Pediu a bola do último jogo ao árbitro. Horas depois do apito final regressou ao relvado e camihou sozinho na sua subita imensidão e sentou-se pensativo junto a uma baliza. Passou parte da noite a escrever uma nostálgica missiva de despedida que leu ao amanhecer. “Por fim chegou o dia em que um futebolista nunca sabe qual será e que eu tive a sorte de decidir. Por fim chega o momento de dizer adeus ao futebol. Señores, suena el timbre. Se acabó el recreo. Sólo queda decirles adiós y hasta siempre. Se acabó!” Don Alfredo Di Stefano, mito do futebol a preto e branco, na hora do adeus olhou fixamente a bola, delicado instrumento da sua arte, e disse-lhe singelamente: Gracias, Vieja! Como descobrir o momento ideal para sair de cena? As gerações conservam apenas ícones modelo, James Dean, Marilyn Monroe, Jim Morrison... Todos eles morreram na senda da máxima viver depressa e morrer novo. Incapazes de envelhecer com discreta dignidade, como se iniciassem uma outra vida, independente da que viveram enquanto ícones.

Santillana, goleador simbolo do Real Madrid nos anos 70 não reteve a tristeza no momento do adeus: “O que ocorre com os futebolistas é incrível. Jogadores que como eu passam a vida numa única equipa, deixam-na hoje e amanhã até os teus próprios companheiros já se esqueceram de ti!” Maís dificil que aceitar o momento de colocar ponto final na careira é escolher o momento certo para o fazer. Platini foi dos poucos que soube retirar-se eternizando a sua imagem suprema: “Depois de ter sido considerado o melhor jogador da europa, o nº1, só fazia sentido continuar se mantivesse o mesmo nível. Ora isso custa muito trabalho, muito esforgo e sacrificio. Não estava mais disposto a sofrer e por isso decidi retirar-me no auge” O França-98 foi um enorme cemitério de elefantes para a geração dos 90. Encontra-se em gestação o jogador modelo do Sec.XXI