MUNDIAL SUB-20 / ARGENTINA 2001:NO MARAVILHOSO MUNDO DE PEKERMAN

10 de Julho de 2001

Buenos Aires. Estádio José Amalfintani: 40 mil pessoas, um mar alviceleste, chicas suspirando pelos seus ídolos, avôzitas de cachecol, barras bravas saltando, toda a pampa futebolística em ebulição, unida numa causa que desde 1994, ano de entrada em cena do carismático José NéstorPekerman, vem apaixonado o fútbol gaucho: a causa do belo futebol dos 3 G: Gana, Gusta e Golea, como gostam de lhe chamar os argentinos. Um pequeno milagre obra do chamado alquimista de Vila Dominguez, o homem que resgatou a imagem terna e criativa do verdadeiro futebol argentino, personificado este ano, depois da saga de Riquelme, Sorín e Aimar, em 95 e 97, nas faces cativantes, todas desenhadas com um largo sorriso, dos pibes mágicos versão-2001, levitados pela garra, drible e velocidade goleadora de El Conejo Javier Saviola, 19 anos, baixote, 1,68, ponta de lança do River Plate, onde os mais antigos, deslumbrados com a magia do seu futbol passional, já revêm nele o espirito de La Máquina dos anos 40. Delírios colectivos, espelhados numa deslumbrante selecção com identidade gestual e que Pekerman, pai e treinador, o homem que, em boa hora, recusou a selecção principal argentina para continuar a congeminar estes fantásticos onzes juvenis, escolheu um por um: a altura, a destreza, o músculo e a técnica.

As suas selecções jovens parecem ter tudo para recordar o romântico futebol dos bons velhos tempos. Aquele que marcava golos, jogava bem e mandava flores. Todos eles já jogam, na ternura dos 20 anos, nas principais equipas dos seus clubes da Primeira Divisão argentina, habituados desde o berço aos labirintos do profissionalismo, terrível para quase todos que atravessam o túnel que o separa do futebol juvenil.

DE ROMAGNOLI E COLLOCINI A D`ALESSANDRO E SAVIOLA: PIBES MÁGICOS, ANO 2001

MUNDIAL SUB20 ARGENTINA 2001NO MARAVILHOSO MUNDO DE PEKERMANAssim, ao lado de Saviola, com, diz-se, as malas feitas para Barcelona, outros pibes dourados também viveram o sonho 2001, esquematizado sempre num dinâmico sistema ofensivo de 3-5-2. Entre eles, destaque para Collocini, libero do San Lorenzo, o chefe da defesa; D`Alessandro, um pequeno médio, virtuoso e astuto, apontado como o sucessor de Aímar no River; Rodriguez, trinco, jogador do Newl`s Old Boys, onde foi descoberto por Pekerman, apesar de só ter feito 6 jogos no Campeonato; Medeina, médio defensivo do Arentinos Juniors; Herrera, avançado do Boca Juniores e Romagnoli, o homem com maior influência no jogo colectivo do onze, médio ofensivo do San Lorenzo, que se orgulha de jogar com três tatuagens no corpo: da mãe, do pai e de... Maradona. Dono de um pé direito prodigioso, é o tipo de jogador que rareia no futebol actual, por ser mestre nos chamados passes verticais que rompem pelo meio da defesa e deixam o avançado isolado, num espaço vazio, em frente da baliza. Depois de na 1ª fase, vencer a Finlândia, 2-0 e golear Jamaica e Egipto, 5-1 e 7-1!, a Argentina, bateu a China nos 1/8 final, 2-1, e teve o seu grande teste nos 1/4 final contra França, só dobrada pelos hat-trick de Saviola, que continuou a saga goleadora no passeio em que se tornou a meia-final contra o Paraguay, 5-0, culminando com mais um golo na final, como o qual se tornou no melhor marcador de sempre em fases finais do Mundial Sub-20, com 11 golos, superando o anterior líder, o brasileiro Adaílton, que marcara 10 golos em 1997.

Para o sonho ser completo, faltou a final ser contra o Brasil, mas, algo irregular, a selecção canarinha, com enorme valor técnico, nunca revelou, no entanto, grande classe, vivendo sobretudo, até cair frente ao Ghana nos 1/4 final, dos golos de Adriano, 6, jogador o Flamengo e Robert, 5, perigoso avançado do Botafogo. No fundo, falta ao futebol brasileiro um homem como Pekermen, três vezes campeão do mundo em quatro campeonatos disputados, e que desde a chegada entendeu que mais do que um futuro, o futebol argentino tinha um passado a honrar. Uma herança de futebol artístico e lutador, como o jogados pelos seus pibes mágicos.

FRANÇA: ESTRELAS ENTRE DOIS MUNDOS

Em termos de resultados, o Mundial Sub-20 Argentina 2001, reafirmou o domínio da América do Sul e África no actual cenário do futebol júnior, confirmando uma tendência que ficara da década de 90, e espelhada este ano nas meias finais disputadas apenas entre selecções desses dois continentes, Argentina, Paraguai, Ghana e Egipto. Algo despersonalizadas, as selecções europeias desiludiram em termos exibicionais e competitivos.

A Holanda de Van Gaal pareceu sempre demasiado presa tacticamente, com os seus jogadores receosos dos duros olhares lançados do banco pelo seu intransigente treinador, enquanto a selecção alemã, talvez o melhor onze júnior produzido pelo futebol germânico nos últimos 10/15 anos, dinamizada pelo perigoso goleador Benjamin Auer, jogador do Borussia Monchengladbach, caiu nos ¼ final frente ao actual campeão europeu, a França do talentoso Philippe Mexés, o jovem líbero do Auxerre de 19 anos que confirmou nas pampas as qualidades, -técnica, sentido posicional e perfil de líder- que nos últimos tempos tem colocado na sua orbitra um vasto grupo de grandes clubes europeus, também cativados pelo estilo diabólico do ponta de lança de origem senegalesa, Djibril Cissé, rápido, inventivo e com sentido de baliza, outro produto da escola de artes de Guy Roux. Assim, com as suas principais figuras integradas durante a época em tão diferentes habitats competitivos, a selecção gaulesa acusa depois uma clara falta de coesão táctica e mental, indispensável para solidificar os princípios de jogo dum grupo que será a base para atacar os Jogos Olímpicos 2004, já no horizonte de Domenech, o escultor de talentos gaulês, há xx anos no sector juvenil da Federação francesa. Dona dos melhores centros de formação do mundo a França, que antes, na categoria Sub-20, apenas estivera presente em dois Mundiais, 77 e 97, exibiu um futebol solto, adulto e criativo, que só não foi mais longe que os ¼ final, porque teve ai de defrontar a imparavel Argentina.

Apesar da vocação formadora, esta selecção francesa Sub-20 revelou no entanto, alguns desiquilibrios individuais, produto dum sério problema competitivo que afecta o futebol gaulês. Enquanto Mexés, Danic –grande revelação como regente do meio campo, jogador do Rennes- Ahamada, Cheyrou, Vignal -titular do Liverpool- e Cissé já jogam ao mais alto nível nos seus clubes, a maioria, com os seus postos na primeira equipa ocupados por estrangeiros, evolui, ao contrário do que sucede com a Argentina, em divisões secundárias, desde a Division I á CFA 2, a 4º divisão do futebol gaulês, como é o caso do médio Berenguer, a jogar nas reservas do Bastia. Outros, jogam na 3ª Divisão, como Guivet e Bugnet, nos satélites no Mónaco e Bordeaux, respectivamente, enquanto Fabiano está emprestado pelo PSG ao modesto Swansea do País de Galles.

OS DIAMANTES DO GHANA

Fala-se em Árica e logo se pensa no futebol do futuro. Ao lado dos Camarões e da Nigéria, há outro país que, embora nunca tenha se apurado para um Mundial sénior, continua a ser uma fonte inesgotável de magos da bola: o Ghana, de Abedi Pelé, fantástico jogador que seduziu a Europa nos anos 80/90, definido pelos olheiros que o descobriram nos pelados de Acra, como o jovem frágil da camisa grande. Esta é uma engraçada definição que se aplica a muitos talentos do futebol ganês de inspiração sul americana. Depois de ter conquistado em 1995 o Mundial Sub-17, e ter chegado, em 1997, a meia-final do Mundial Sub-20, revelando então artistas como Appiah e Ofori-Quaye, atinge agora, pela segunda vez na história, a outra foi em 93, a final do principal torneio júnior.

Observar o futebol júnior do Ghana é descobrir os encantos do puro futebol africano de vocação atacante, desenhado por dribles e rasgos técnicos só possíveis de encontrar na África negra, expressos nos seus dois melhores jogadores: o médio centro Ibrahim, jogador do Empoli, Itália, e o nº10 Boateng, do Panathinaikos, Grécia, os principais astros de um onze onde também moram Paintsil, Muntari ou Pappoe, ainda a jogarem no Ghana, treinando todos os dias num rudimentar pelado, espelho dos baldios onde começaram a jogar, os diamantes negros ganeses dificilmente poderão lapidar o seu talento e aperfeiçoar os gestos técnicos e tácticos, pelo que em breve serão aprisionados pelo frio futebol europeu. Emmanuel Afraine, o imponente seleccionador júnior ganês, sabe que este é um destino que só poder ser evitado com acções como as de Abedi Pelé, mito do futebol ganês, que quando regressou a Acra, criou um clube com o nome do seu pai, o FC Nania, do qual é treinador e presidente, e que compete na IIª Divisão. Ao mesmo tempo, fundou um Centro de Formação, com o seu nome, de 50 hectares, a 20 Kms. de Acra, onde acolhe cerca de 20 jogadores entre 12 a 15 anos e 30 entre os 15 e 21, orientados por cinco professores e quatro treinadores, regentes da filosofia de Pelé, segundo a qual um jogador para evoluir, deve ficar o maior tempo possível no seu meio futebolístico natural.

ANGOLA E EGIPTO: OUTROS ESTILOS AFRICANOS

Após ter criado, antes do inicio do Mundial, grandes esperanças, a selecção de Angola acabou claramente traída pela ansiedade que todos esses olhares sobre ela provocaram. Um sentimento confirmado, nas palavras e no jogo pouco consistente, da sua grande estrela: Mantorras, que só apareceu ao seu verdadeiro nível em curtos espaços, como no golo marcado, á sua maneira, contra o Japão. Numa altura em que a equipa estava a crescer de confiança, acabou eliminada pela Holanda nos ¼ final, num jogo onde nunca foi inferior, vencida pela maior frieza competitiva laranja. Embaixador do outro futebol africano, a chamada África branca, o Egipto, após ser goleado na 1º fase pela Argentina (7-1!), reequilibrou o seu jogo e exibindo um estilo menos criativo que o ganês e angolano, mas mais realista e apoiado, fruto de uma cultura de jogo diferente, atingiu o 3º lugar, destacando-se no seu onze o activo Reyad, médio do Al-Ahly, e o avançado El Yamany, jogador do Standard Liege belga.