MUNDIAL SUB-20/MALÁSIA /1997: O FUTURO MORANA AMÉRICA DO SUL

17 de Julho de 1997

Ao vencer, na final, o Uruguai, a Argentina de Pekerman revalidou o titulo de campeão mundial Sub-20, culminado de forma brilhante uma prova disputada sob o cenário da corrupção que envolve o futebol na Malásia. Mas a FIFA não viu inconveniente nisso e atribuiu a organização do evento aquele país asiático, que foi assim palco privilegiado de um combate entre diferentes filosofias competitivas a que faltaram as superpotências Alemanha e Itália, para além, claro, de Portugal, campeão mundial em 89 e 91 e terceiro classificado em 95, que falhou o apuramento, privando uma geração com nomes como Edgar e Luís Boa Morte, de evoluírem ao mais alto nível. Foi um Mundial dinâmico e de qualidade que coroou duas lendárias potências do futebol sul-americano: Argentina e Uruguai, representantes naquele continente de um estilo menos artístico, mais combativo, em comparação com a escola brasileira.

ARGENTINA: ARTE, CORAÇÃO E GLÓRIA

A selecção das pampas revalidou o titulo com uma equipa adulta, objectiva, formada por elementos de grande valor, orientada por um efusivo corpo técnico, comandado pelo carismático José Nestor Pekerman, mentor de um venenoso sistema táctico de 3x3x1x2, qual teia de aranha que confundia e atraiçoava os adversários. Que o diga o poderoso Brasil, eliminado nos quartos-de-final (2-0), após uma demolidora primeira fase, onde marcara 25 golos (goleadas de 10-3 e 10-0 á Coreia do Sul e Bélgica) e assumira o estatuto de grande favorito. A argentina jogou sempre com realistas cautelas defensivas, num sector comandado pelo central Placente, que nos cantos e lances de bola parada subia para cabecear muito bem, ao lado de Serrizuela, lateral direito todo-terreno, retaguarda de um aguerrido meio campo que foi o ponto forte da equipa, onde brilharam o trinco Cambiasso, num estilo muito parecido ao de Redondo, apoiado pelo capitão Riquelme, jogador do Boca Juniores, um lutador incansável, o maestro da equipa a organizar jogo, com aberturas precisas na procura de espaços vazios, remate forte e exímio nos lances de bola parada. Fixem bem este nome: Riquelme, um jogador fantástico. Outra figura a destacar é o possante Scaloni, que faz lembrar, na sua forma de jogar e correr, o antigo jogador do Real Madrid Jorge Valdano, transportador de bola que joga, geralmente, atrás os avançados, para depois aparecer no seu apoio ou a finalizar lances ofensivos, como o fez, superiormente, contra o Brasil.

Na frente, três nomes a fixar: o ponta-de-lança Romero, um homem com faro de golo, o fantasista Aimar, que com os seus zigzags estonteantes, embora algo frágil fisicamente, e o imprevisível Quintana, que será no futuro, sem dúvida, um grande jogador, tal a forma virtuosa como trata a bola e a forma inteligente como se movimenta no terreno, trocando constantemente de flanco e posição.

DA PROMESSA URUGUAIA ÁS GOLEADAS BRASILEIRAS

O Uruguai exibiu um estilo muito parecido ao da Argentina, bem mecanizado na interligação defea-ataque, esplanando o seu jogo em passes curtos, disfarçando a pouca profundidade com a atitude guerreira dos médios, como o trinco Pablo Garcia e os operários Callejas e Coelho, que surgem estrategicamente pelas alas, apoiando as dias estrelas da companhia: os avançados Zalayeta, um possante e inteligente ponta-de-lança, talvez algo lento, e o irrequieto Oliveira, jogador do Deportivo Sporting, do Uruguai, falso ponta-de-lança, que joga ora nas costas de Zalayeta, ora como flanqueador encostado á linha. Dois jogadores a ter em atenção e em quem se depositam muitas esperanças do futuro futebol uruguaio, numa altura em que a principal selecção Celeste atravessa um período de crise. As exibições deste Uruguai Sub-20 auguram que, brevemente, a lenda deste país apaixonado pelo futebol voltará a ser o que era. Com a sua tradicional mobilidade atacante, o Brasil voltou a apresentar uma forte selecção, mas algo débil defensivamente, o que a este nível se torna quase sempre fatal. A reter os nomes de Adilson, jogador do Guarani, um centro-avante ao estilo de Romário que marcou seis golos na goleada à Coreia, além do médio Sambista Alex e do ofensivo lateral-esquerdo Athirson.

EUROPA BRITANIZADA E DESILUDIDA COM A FRANÇA

A nível europeu, a honra foi defendida, sobretudo, pelo directo, eficaz e primitivo estilo britânico, interpretado pela Inglaterra e pela Republica da Irlanda (esta afastada na meia-final pela Argentina, após afastar a Espanha). Os irlandeses foram a surpresa do torneio, com uma equipa onde apenas três jogadores actuam no país, entre eles o goleador Trevor Molloy, que, em breve, deverá ingressar no futebol inglês, onde já actua o médio Cummings, outra figura desta equipa, forte no jogo aéreo e com grande capacidade de pressing no miolo do terreno. Afinal, os atributos que caracterizam o futebol britânico.

A França, com uma forte equipa, foi a grande decepção. Depois de perder claramente com o Brasil (3-0), caiu, nos pénaltis, diante do Uriguai, num jogo em que, apesar de tudo, foi superior, mas a forma displicente como a estrela do AS Mónaco Thierry Henry concluiu alguns lances ofensivos, comprometeu todo um conjunto, muito dependente daquela que será, num futuro próximo, a grande figura do renovado futebol gaulês, patrão de uma equipa que voltou a revelar as enormes potencialidades dos elegantes médios de origem africana, produto dos seus magníficos centros de formação: Anelka, raptado á luz da Lei-Bosman, no final da época, pelo Arsenal ao PSG, o expedito Luccin, e o ponta de lança de origem argentina Trezeguet, que, depois de limados alguns aspectos técnicos, poderá tornar-se um grande avançado.

A EMERGENTE AUSTRÁLIA E A ETERNA ÁFRICA

Uma referência positiva para a progressão do futebol australiano que, apesar de não passar dos oitavos-de-final, foi o único a vencer a Argentina (4-3 na primeira fase), revelando, através da boa compleição física dos seus jogadores, fidelidade ao estilo britânico, a base da sua escola, inspirador da forma veloz e agressiva como actua em 4x3x3, com passes longos e olhos postos na baliza contrária, filosofia de jogo bem interpretada por Salapasidis, o melhor marcador da equipa. Por último, referência ao continente africano que voltou a deixar o sedutor perfume do seu atractivo e empolgante futebol, expresso na forma vibrante de abordagem ao jogo. O Ghana chegou às meias-finais (perdeu como o Uruguai por 3-2), com uma selecção baseada na equipa que dois anos atrás, em 1995 conquistara o titulo mundial de Sub-17, de onde transitaram valores como Sule, Ansah, Appiah e, sobretudo, Gambo. No ataque, o Ghana revelou um promissor ponta de lança chamado Ofori-Quaye, jogador do Kalamata da Grécia, dono de um estilo muito parecido ao de Weah, bom tecnicamente e forte fisicamente. O aproveitamento do enorme talento do futebol africano depende da existência, no futuro, de sólidas estruturas que aproveitem o seu potencial enorme, fruto de várias influências europeias e sul-americanas.

Um escola feita na rua por meninos descalços e habilidosos aos pontapés a uma bola muitas vezes feita de trapos velhos. Uma característica inata. Está-lhes no sangue.
MUNDIAL SUB20MALÁSIA 1997 O FUTURO MORANA AMÉRICA DO SULAimar, 19 anos, um pibe mágico em gestação