No futebol, o losango tem onze lados

22 de Novembro de 2014

O futebol tem muitas linguagens e pode ser discutido desde a forma mais técnica à pura discussão de café. Fernando Santos vai procurando sentir o pulso à seleção. Criar a rutura comunicacional com o passado e descobrir a melhor forma de jogar em face das circunstâncias (lacunas) com que vivemos.

Antes de defrontar a Arménia falou do nosso jogo com “três gajos na área e um a cruzar” e desvalorizou a estrutura (que passar pelo 4x4x2, depois 4x3x3, mas o que gostaria mesmo era do 3x3x4).

O jogo passa, de facto, por diferentes momentos e cada um deles exige-se uma estrutura distinta que surge naturalmente em face daquilo que cada um pede. A defender é natural fechar e surgir um 4x4x2 com duas linhas de quatro implicando o baixar dos alas. A atacar é natural passar para 4x2x4, ou o tal 3x3x4, com os alas a surgir e outros jogadores a surgir no meio. O essencial, porém, é ligar bem esses dois grandes momentos.

É comum falar na importância da dinâmica mas ela não existe no vazio. Antes, como base, tem de existir um jogo posicional correto para decidir o melhor local para os jogadores começarem a correr (e meter a tal dinâmica) quer a atacar, quer a defender, e saberem depois para onde regressar quando a jogada acaba, voltando a desenhar a estrutura base, sem a qual nada existe.

Após quatro jogos, a equipa está presa nas teias do 4x4x2. Ficou evidente nas duas variantes utilizadas nos últimos jogos: clássico em ataque continuado contra a Arménia, losango procurando controlo, contra a Argentina.

É dos sistemas mais complexos em termos de princípios e subprincípios exigíveis para, na dinâmica de jogo, abrir e fechar espaços (o 4x3x3 tem um entendimento mais racional na ocupação dos espaços). Os jogadores parecem que entram numa casa estranha. Por isso quando Fernando Santos falava, após o jogo com a Argentina, que os jogadores chegavam sempre tarde à bola, estava a omitir o princípio de problema que era o dos jogadores... Partirem sempre tarde para a bola. Sucedia isso exatamente por o seu jogo posicional neste sistema não estar rotinado e, assim, por mais dinâmicos que sejam, não tem as referências certas de posicionamento/ movimentação.

Contra a Arménia, o pecado estrutural esteve em abdicar do pivot para começar a pensar jogo e jogar com dois médios-centro lado a lado num 4x4x2 clássico que colocava a equipa sem jogo posicional construtivo visto não ter elemento organizador/criativo no meio-campo numa linha mais subida.
Por isso, quando Fernando Santos mexeu na equipa, falou em passar Nani para o centro para jogar atrás dos avançados. A ocupação desses espaços entrelinhas é fundamental numa equipa. Num 4x4x2 clássico só é possível de forma equilibrada com o recuo de um dos avançados ou o fletir dum ala.

A seleção entrou pela estrada tática mais complexa para quem não tem tempo para a treinar e não traz essas rotinas dos clubes. Em qualquer dos jogos sofreu taticamente (por razões diferentes, contra adversários diferentes) em duas variantes do mesmo sistema. Desta forma, é natural que em ambos os casos quando Fernando Santos quis proteger a equipa ou reequilibrá-la falou nos dois jogadores capaz de o fazer: Tiago e Moutinho. No losango, pela maior cultura tática para jogar relacionando vértices laterais e obrigações no meio, e, no clássico, quando sozinhos no meio-campo aguentaram o peso da equipa com o timing certo de ficar ou sair da posição central. Mais do que Ronaldo ou Quaresma, foram eles que seguraram o onze pela superior cultura tática que têm. Em ambos os jogos.