NO TRILHO DA RAPOSA….

27 de Maio de 2005

NO TRILHO DA RAPOSA....

A conquista de um campeonato é um marco que figura a letras de ouro na carreira de um treinador. Mais do que qualquer outro titulo (como os logrados em competições de Taça, a eliminar) ele traduz o trabalho realizado ao longo de toda a época, onde para além de uma solitária grande exibição, é a chamada regularidade exibicional que molda os grandes campeões. Uns com mais brilho que outros, é certo, mas todos com incontestável mérito. Por isso, quando essas conquistas saltam fronteiras de vários países, a dimensão da proeza, por ser em lograda em diferentes habitas, quer desportivo como sócio-humano, atinge maior projecção. São, digamos, os chamados treinadores de grande curso multicultural.

Ao levar o Benfica ao titulo português, Trapatonni, a velha raposa de Cusano, entrou na restrita elite dos treinadores a sagrarem-se campeões em três diferentes países europeus, onde já estavam, cada qual na sua época, Guttmann Czeizler, Merkel, Eriksson, Daum ou Boskov. Se vencer na Ucrania, com o Shaktar Dontesk, depois da Roménia e Turquia, Lucescu também entrará neste núcleo restrito. Num galáxia superior, estão outros velhos caminhantes, vencedores de títulos nacionais em quatro diferentes campeonatos do Velho Continentes, como o trota-mundos Tomislav Ivic, e o já falecido mestre Happel, de quem Trapatonni recorda ter recebido uma das maiores lições tácticas da sua carreira, quando, na final da Taça dos Campeões de 83, em vez de marcar individualmente Platini, como era usual em Itália, optou pela marcação á zona, e, assim, anulou o mago francês e toda a máquina da Juventus.

TREINADORES CAMPEÕES EM TRÊS DIFERENTES PAÍSES EUROPEUS

NO TRILHO DA RAPOSA....Giovanni Trapatonni: As diferentes «tocas da raposa»

Data de Nascimento: 17/3/39

Nacionalidade: Italiano

Italia: Juventus (76/77, 77/78, 80/81, 81/82, 83/84 e 85/86) Inter (88/89)

Alemanha: Bayern Munique (96/97) Portugal: Benfica (2004/05)

Filho do mais profundo futebol italiano, Trapattoni está na antítese do típico treinador trota-mundos. Na hora da consagração como o homem que guiou o Benfica ao titulo após longos onze anos de ausência, fala da saudade dos netos e da sua terra para justificar o regresso ao Calcio. Ao longo de mais de 30 anos de carreira como treinador, apenas quatro foram passados fora de Itália. Três na Alemanha, no Bayern Munique, onde foi campeão em 96/97, e uma em Portugal, a que agora termina como campeão no Benfica, algo que em Itália sucedera por sete vezes (seis na Juventus e um no Inter).

Comunicativo e emotivo, ver, analisar ou falar com Trapatonni é como que entrar numa outra dimensão do futebol, quando o jogo se discutia sobretudo com a paixão á flor da pele. No banco, o seu assobio, a forma como grita e dá ordens de cócoras para dentro do campo, os tiques, a água benta derramada antes e durante o jogo por pura superstição -ou algo mais?- a forma como se dirige aos suplentes com o jogo a decorrer, como que lhes demonstrando na prática aquilo que tantas vezes repete nas prelecções, as cassetes, a forma como festeja os golos ou reage aos sofridos, como no Bessa, furioso aos murro no banco após Éder ter cabeceado sozinho na área para o empate, a forma como comunica na sala de imprensa, ou até como se engana, sorri ou aborrece, fazem dele um reserva espiritual de um futebol de outras eras que se nos escapou das mãos como areia fina por entre os dedos. Tudo isso com a autoridade os seus cabelos brancos.

Empírico e defensivo ou cientifico e realista?

NO TRILHO DA RAPOSA....Apesar dessa componente iminente empírica que emerge da sua postura, Trap não fica, no entanto, nada a dever aos treinador ditos científicos do futebol moderno. Discípulo directo de Nero Rocco, profeta do cattenacio, Trapattoni começa a pensar a equipa em termos defensivos, mas isso não faz dele um defensivista puro. É tudo uma questão de equilibrios e gestão dos recursos táctico-técnicos do plantel. Quando todo o Estádio pede que meta mais um ponta de lança para tentar chegar ao golo, Trap em vez de pensar nisso, pondera sobretudo os danos que tal alteração poderá ter no equilíbrio colectivo da equipa. Por isso, já dizia a Platini que o importante não era ter mais jogadores no ataque, mas sim a bola nessas posições mais avançadas.

Ora essa construção nunca depende dos avançados clássicos ou dos pontas de lança, mas sim daqueles que actuam nas suas costas. Trapatonni pertence á classe que profetiza esquemas que começam a defender a meio campo, em frente á defesa, com a chamada primeira linha de contenção, pelo que sempre quis, nas suas equipas, trincos ou médios defensivos recuperadores de bola e marcadores natos, como são, no seu Benfica, Petit e Manuel Fernandes.

Foi sobretudo quando eles não jogaram que o projecto táctico de Trapattoni na Luz sentiu um abalo. Há quem defenda no limite da área e há quem o faça a meio campo, mas o certo é que quem não sabe defender nunca irá a lado nenhum no futebol actual. Na forma de comunicar, Trap tem o estilo dos treinadores do antigamente. Na abordagem do jogo, manteve-se, no entanto, sempre na vanguarda, actualizando métodos de treino e adoptando-se ás novas tendências tácticas de cada época. Mescla, por isso, o melhor de duas eras, sem cair na excessiva vertente científica do jogo, nem, pelo contrário, deixar-se guiar apenas pela intuição. Ele sabe, como poucos treinadores, qual o momento certo no futebol para a razão e a para a emoção. É esse o segredo da longevidade do seu sucesso.

Bella Guttmann

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de nascimento: 26/01/1905

Nacionalidade: Húngaro

Itália: Milan (54/55)

Hungria: Ujpest (38/39, 45/46)

Portugal: FC Porto (58/59); Benfica (59/60 e 60/61)

Mais do que um treinador, era um feiticeiro. Um professor, táctico e psicólogo, que correu mundo a ensinar futebol. Curiosamente, começou a carreira de treinador nos EUA, onde terminou como jogador, no Giants de Nova Yorke. O primeiro titulo surgiria já na sua Hungria, com o Ujpest, em 39. Tacticamente, foi um dos mestres do 4x2x4. Após a guerra, em 1950, o salto para Itália, onde conquistou o titulo, em 55, no Milan. Depois de também sagrar-se campeão no Brasil, em 57, com o São Paulo, chegaria, a Portugal, já com 54 anos. Seria campeão, primeiro, no FC Porto, mas os grandes feitos surgiriam no Benfica: Três campeonatos e duas Taça dos Campeões. Sairia, em 62, furioso, vociferando pragas, rumando ao Peñarol. Nunca mais, no entanto, voltaria ser campeão. Morreria a 29 Agosto de 1981.

Max Merkel

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de Nascimento: 12/7/1918

Nacionalidade: Austríaco

Austria: Rapid Viena (56/57)

Alemanha: TSV Munchen (65/66),

FC Nuremberga (67/68)

Espanha: Atlético Madrid (72/73)

Cresceu com o futebol maravilha da Áustria dos anos 30, mas a sua carreira como jogador foi coarctada pela guerra. Quando as bombas pararam, já tinha 28 anos,mas ainda se impôs como figura do Rapid Viena, onde iniciou a carreira como treinador. Foi campeão em 57, mas logo a seguir saiu para dez anos no futebol alemão, onde se afirmou como um dos principais treinadores dos anos 60. Venceu duas Bundesligas, com TSV Munchen (que também levou á final da Taça das Taças, em 65, perdendo com o West Ham, 0-2), e FC Nuremberga. Nos anos 70, em Espanha, sagrou-se campeão no At.Madrid, onde ganhou Liga e Taça, em 72. Regressaria, depois, á Alemanha (Schalke, Augsburg e Karlsruher) mas sem grande sucesso.

Sven Goran Eriksson

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de Nascimento: 5/2/1948

Nacionalidade: Sueco

Suécia: IFK Goteborg (80/81)

Portugal: Benfica (82/83, 83/84 e 90/91)

Itália: Lazio (99/00)

Jogador de nível modesto, emergiu, desde novo, como um dos primeiros treinadores ditos científicos que iriam marcar o moderno futebol europeu de top. Aos 34 anos, venceu, em 82, a Taça UEFA com o Goteborg, com o qual já ganhara a Liga sueca, em 81. No inicio dos anos 80, revolucionou o Benfica com dois títulos nacionais e nova final da UEFA. Para além dos métodos de treino, inovou no discurso e no plano da chamada dinâmica da táctica. Em Itália, sofreria para se impor nos labirintos do Calcio. Depois da Roma, Inter e Fiorentina, seria na Lazio que venceria o Scudetto, em 99/00, uma época depois de, na Europa, conquistar a Taça das Taças. No ano seguinte seria convidado para seleccionador inglês.

Vujadin Boskov

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de Nascimento: 9/5/931

Nacionalidade: Jugoslava

Jugoslávia: FK Vojvodina (65/66)

Espanha: Real Madrid (79/80)

Itália: Sampdoria (90/91)

Carismático treinador sérvio, que encontraria a sua consagração fora da velha Jugoslávia. Após duas épocas como jogador-treinador do Young Boys da Suíça, conquistou, no entanto, o primeiro titulo nos bancos, ainda na antiga Liga jugoslava jugoslavo, em 1966, á frente da equipa onde passou longos anos como jogador, o FK Vojvodina. Depois da selecção da Jugoslávia (71-73) e de uma fugaz passagem pela Holanda, no Den Haag, rumaria a Espanha, onde, após passar por Saragoça e Gijon, ganharia, com o Real Madrid, duas Taças e uma Liga, em 1980. Seguiu-se a aventura italiana, no qual ficaria imortalizado pela surpreendente conquista do campeonato 90/91, com a fantástica Sampdoria. Ainda andou por Ascoli, Roma e Nápoles mas nunca mais repetiria o feito.

Christoph Daum

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de Nascimento: 24/10/1953

Ñacionalidade: Alemão

Alemanha: VFB Stuttgart (91/92)

Turquia: Besiktas (94/95), Fenerbahce (2003/04, 2004/05)

Áustria: FK Áustria Viena (2002/03)

No inicio dos anos 90, era visto como um dos treinadores do futuro na Alemanha. Após uma discreta carreira de jogador, destacou-se ao conquistar a Bundesliga, em 92, com o Stuttgart. Em 94, rumou á Turquia, onde seria campeão com o Besiktas. No regresso á Alemanha, ganhou a fama de perdedor de sucesso. Por três vezes, no Bayer Leverkusen, ficou em segundo lugar, 97, 99 e 2000 (algo que já sucedera no FC Koln, em 89 e 90). A sua qualidade levou-o á selecção, mas um problema relacionado com o consumo de drogas, afastou-o do cargo, tornando-o quase uma persona «non grata» no futebol alemão. Abandonou o país e seguiu o sucesso na Áustria, onde foi campeão com o FK Austria e na Turquia, guiando o Fenerbahce á conquista dos dois últimos títulos nacionais turcos (2004 e 2005).

Lajos Czeizler

Data de Nascimento: 5/10/1893 (faleceu a 6/5/1969)

Nacionalidade: Húngaro

Suécia: IFK Norrköping (42/43, 44/45, 45/46, 46/47 e 47/48)

Itália: Milan (50/51)

Portugal: Benfica (63/64)

Produto do grande futebol centro-europeu dos anos 30/50, começou por destacar-se, como treinador, á frente da fabulosa equipa do Norrkoping, vencedor de 5 ligas suecas, com uma equipa onde brilhavam Liedholm e Nordhal. Seriam eles, junto de Gren, a formar, anos depois, no Milan, o famoso Gren-No-Li. Conquistou o Scudetto em 50/51 e, pouco anos depois, surgiria mesmo como seleccionador da Itália no Mundial 54. Chamaram-lhe, então, o «buda do futebol italiano». Viria para Portugal no inicio dos anos 60, sendo campeão no Benfica em 64. O seu ultimo marco foi a conquista da Taça, em 64, goleando, na final, o FC Porto. No fim apenas afirmou que "os rapazes tinham-me prometido isto". Era a despedida. Morreria pouco depois, em 1969, com 76 anos.

TREINADORES COM TITULOS EM QUATRO DIFERENTES PAISES EUROPEUS

NO TRILHO DA RAPOSA....Ernst Happel

Data de Nascimento: 29/11/1925

Nacionalidade: Austríaca

Holanda: Feyenoord (68/69 e 70/71)

Bélgica: FC Brugge (75/76, 76/77 e 77/78)

Alemanha: Hamburgo (81/82 e 82/83)

Áustria: Tirol Innsbruck (88/89 e 89/90)

Um dos maiores treinadores de todos os tempos. Depois de fazer carreira como jogador no Rapid Viena, explodiu como treinador em finais dos anos 60, guiando o Feyenoord á conquista da Taça dos Campeões, em 70, para além de dois títulos nacionais. Nos anos 70, foi um dos mentores da traiçoeira escola belga, levando o Brugge a três títulos nacionais e a uma final da Taça dos Campeões, em 78. O seu jogo baseava-se na defesa á zona e na atitude atlética. Nos anos 80, tornaria o Hamburgo numa máquina de jogar futebol que conquistaria a Bundesliga e, também, a Taça dos Campeões, em 83. Na ultima aparição nos bancos, já minado pela doença, levou o Innsbruck á conquista de dois títulos austríacos. Morreria pouco depois, a 28 Outubro de 1992. Em sua homenagem o Prater de Viena, foi rebatizado Estádio Errnst Happel. Nada mais justo.

Tomislav Ivic

NO TRILHO DA RAPOSA....Data de nascimento: 30/6/1933

Nacionalidade: Croata Jugoslávia: Hajduk Split (73/74, 74/75 e 78/79)

Holanda: Ajax (76/77)

Bélgica: Anderlecht (80/81)

Portugal: FC Porto (87/88)

Teve sempre o rótulo de defensivo, mas, na frieza dos resultados, é dos mais vitoriosos técnicos de todos os tempos. As primeiras conquistas surgiram na Jugoslávia, com três títulos no Hajduk Split, nos anos 70. Seguiram-se vitórias na Bélgica, com o Anderlecht, e na Holanda, com o Ajax. Chegou a Portugal para treinar o FC Porto, em 87. Era assobiado pelo futebol calculista praticado, mas, no fim, foi campeão com 12 pontos de avanço.

Renegado pelos adeptos, acabaria por sair. Também treinou em Espanha e Grécia, mas sem sucesso. Em 91/92, começou a época no Marselha, mas seria despedido após ser eliminado da Taça dos Campeões. Seria Goethals a guiar a equipa ao titulo numa época que começara a ser preparada por Ivic, por isso, diz, que um pouco desse titulo também é seu...