Nº9: A mais velha profissão com bola

17 de Junho de 2012

Planeta do Europeu (11)

É das sensações mais terríveis para um grande craque. Sabe que é capaz de ganhar qualquer jogo pelo génio, mas viver enjaulado numa equipa cujo valor não tem qualquer hipótese de competir com as melhores. Penso nisso sempre que vejo Ibrahimovic, ser irrascível por natureza, a barafustar, rematar, reclamar, tudo alternado, dentro do onze sueco. O seu drama é simples: sabe o melhor caminho para ganhar um jogo, mas o resto da equipa, por mais que queira, é incapaz de acompanhar essa sua capacidade. Então, é o mais natural é ele tentar resolver tudo sozinho.

Temperamental, genial, impulsivo. É impossível, porém, mudar sozinho o curso do destino. Mesmo para o melhor jogador do Mundo com mais de 1,85m. (Messi tem 1,69m, Ronaldo 1,85, Ibra 1,95). A forma como gritou na cara de Joe Hart, após o 2-1, foi um grito de rebeldia que dificilmente o resto da equipa conseguiria aguentar.

Antes já Carrol (membro da dupla de puros nº9 Welbeck-Carrol que, no 4x4x2 mais tradicional, Hoghdson montou na Inglaterra, tinha, numa cabeçada fulminante, reproduzido a velha imagem dos nº9 britânicos do tempo em que, dizia-se, eles tinham mais lesões nos dentes do que nas pernas, tal a força de choque do jogo aéreo britânico.

A Espanha resgatou um ponta-de-lança. Torres regressou e como disse Ronaldo, o fenómeno, "nunca se deve duvidar de um nº9". Respondeu com dois golos. A presença de umnº9 não faz a Espanha jogar melhor mas faz a equipa terminar melhor as jogadas de ataque.

Mas existem outras formas de vida para um nº9. Benzema é, na França, o ponta-de-lança mais inteligente deste Euro em termos de movimentos. É até curioso notar como ele sente que para ficar mais perto do remate (em condições de o fazer) ou de entrar no processo ofensivo global, necessita recuar alguns passos da área. Ora para ter bola, ora para descobrir entre-linhas (isto é, entre centrais e trincos adversários) espaço para o...passe. E, nesse factor (o passe) Benzema é o melhor nº9 deste Euro a executá-lo como nos dois golos que, frente á Ucrânia, deu a...marcar.

O único lugar em que o egoísmo é uma virtude é num bom nº9. Benzema não está de acordo.

Walcott e o nº9 "alicate"

N9 A mais velha profissão com bolaEnquanto Ibrahimovic gritava com toda a Inglaterra, do lado inglês, outro ponta-de-lança aparecia da forma mais imprevista mas respeitando a sua morfologia, quase nº9 homem-alicante: Welbeck. É um cruzamento de várias espécies. Parece desengonçado. Ameaçar desmontar-se todo a qualquer jogada. Mas não, acaba sempre inteiro e, ágil, tem gestos técnicos incríveis como no golo de calcanhar que fez no meio de três armários suecos.

O renascimento inglês teve, porém, outra origem: o factor velocidade Walcott. Depois de aparecer como um meteoro no inicio da careira, tornou-se um enigma nas épocas seguintes. A questão é simples: é ele apenas um velocista, corre na relva como podia correr no tartan, ou é mesmo jogador de futebol de top? Para esta segunda vida, aprender os fundamentos de jogo são fundamentais. Ou seja, o problema não está em como lança as jogadas, mas antes em como termina essas jogadas. Welbeck é um jogador para ser todo trabalhado da cabeça aos pés.

Nestes dois pontos, o jogo com a Suécia, fim das jogadas e remate, foi o melhor argumento táctico-técnico para Walcott e Welbeck seguirem no futuro.