NOTAS 14/15 (1)

22 de Agosto de 2014

SPORTING
Marco Silva: Construir sem deitar nada abaixo

Marco Silva entrou no Sporting e teve a primeira sensibilidade que deve ter um treinador que pega uma equipa, no seu jogo, num novo clube. Não mexer no que está bem. Este Sporting tem princípios decalcados da época passada (os que saem naturalmente) e outros que estão a ser construidos (que ainda não saem naturalmente).

O debate é antigo. Um treinador que vem de brilhar numa equipa “pequena” e que fazia a diferença no contra-ataque (ou no aproveitamento dos momentos de contra-ataque) tem obrigatoriamente, de fazer um upgrade de estilo ao saltar para um grande. Porque esses momentos vão naturalmente existir menos. Por isso, até o estilo dos avançados muda. Os rápidos, a fazer da velocidade um estilo, tem menos espaço. Quer-se, agora, avançados para essencialmente ataque continuado. Nos jogos em casa, então, isso sente-se mais.

Marco Silva busca esse novo rumo sem perder o anterior (da equipa e da sua ideia). Adapta ambos. Mais do que reforçar o onze, reforça o plantel.

Há o receio que saia a âncora William. E, sim, ele está a verticalizar mais jogo e a circular menos por tendência como fazia excessivamente no inicio. Um pivot de top garante primeiro equilíbrios e nisso o William é perfeito, física-tacticamente. Depois tem de por a equipa a jogar. E nisso William evoluiu no decorrer da época. O factor mais importante do seu jogo resume-se, porém, a outro traço que acho fez o melhor da equipa no passado e Marco Silva tem de melhorar sobretudo a velocidade com que ela faz : sair da zona de pressão.

E arrancar para outro momento do jogo. Com a bola no pé, ou no espaço. Isso depende do tamanho do relvado que o adversário dá.

VOLTAR ONDE SONHARAM SER FELIZES

NOTAS 14 15 1Nunca é fácil na vida quando sentimos que temos de voltar para trás. Não o gostamos de admitir. Achamos que nos olham de forma diferente. Com condescendência. Quando antes nos atacavam. Na altura, isso revoltava. Agora sente-se falta. Quando Kipling disse que o êxito e o fracasso são dois grandes impostores não pensava em futebol mas eu penso quando reproduzo agora.

Paulo Fonseca, Domingos e Paulo Sérgio. Estiveram em “bancos” a que custa chegar. Dos grandes. FC Porto e Sporting (em dois dos casos). Agora voltam a locais onde, na orihgem sonharam ser felizes. Penso na dimensão dos clube e o que podem fazer com eles. Paços Ferreira, Vitória Setúbal, Académica.

Para mim, e isto ainda não começou, são os três grandes treinadores da época. Voltar atrás para provar (voltar a provar) do que são feitos. E provar como o nosso futebol (a avaliação resultadista sem substância) é uma fogueira de competências (sem metáfora). Os três procuram jogadores quase de lanterna em punho no breu do mercado onde estarão jogadores que os possam ajudar a isso.

Mais do que essa ambição de mostrar resultados, a prioridade de cada um deles terá, porém, de ser outra: mostrar a identidade do seu futebol. As suas equipas terem uma boa ideia de jogo. Eu sei que estou a ser romântico. No fim (ou no meio) serão julgados pelos resultados. Mas antes há o jogo. E ai é que não podem falhar.

Eu tenho de ir comentar um jogo do Paços, do Vitória ou da Académica e dizer bem do que estão a fazer (ou tentar fazer). O resultado é outra coisa.

SAMI E DERLEY. COMO FAZER COISAS DIFERENTES?

Gosto muito de Derley e Sami. Durante a época, elogiei-os muito no Marítimo. Ao Sami, então, os elogios já vinham de épocas anteriores. O Sami é jogador de arranques, diagonais, espaços, e aparecer no meio. O Derley é jogador de área mas que tem um sentido de oportunidade que nasce da mobilidade. Saíram para Benfica e FC Porto. Continuo a gostar deles, mas as coisas não são assim tão simples. Tudo depende do futebol que agora a nova equipa quer fazer. E um grande quer sempre fazer coisas diferentes dos mais pequenos.

Se tens Sami e não lhe dás liberdade par sair a toda a largura do ataque... Se tens Derley e o metes nas costas do avançado a jogar ele por trás sem largura.... Nos dois casos, essa equipa praticamente jogará com dez.

Esta é só uma primeira impressão mas que já diz muito. Ambas as equipas são grandes e querem atacar. Só isso poderia bastar para eles. Mas não é assim tão simples. As formas de atacar tem diferentes meios (e espaços). As equipas grandes, por natureza, não atacam melhor do que as outras (as médias ou pequenas). Atacam é com mais jogadores. Não vejo que isso ajude muito Sami e Derley. Manejam os seus ritmos e custa-lhes encontrar o ritmo da equipa.

Vi Sami a falso 9 na apresentação contra o St. Etienne e pensei que ele estava atacado por uma corda. Derley vejo-o o jogar mais recuado, ou com outros avançados à frente (e Lima tem valor e estatuto) e parece que deixou de ver o terreno que pode pisar melhor. O jogo está cheio de alçapões. Se um bom jogador não tem cuidado, pisa num, cai por ele abaixo e desaparece.