NOTAS 14/15 (10)

21 de Outubro de 2014

PARDO-SALVADOR; TIBA-DANILO

As duas velocidades: com pernas e cabeça

O jogo obriga um jogador sempre a tomar opções. A sua maior ou menor qualidade técnica e cultura de posicionamento permite-lhe tomá-las melhor ou pior. Esta realidade está cruzada com outras, que parecem só físicas, como a velocidade, mas que sem inseridas no conceito amplo do jogo, não têm transfer para uma movimentação eficaz.

Por isso, Pardo e Salvador foram decisivos no Braga contra o Benfica. Na estratégia, nem seguiu muito a linha base da equipa, mas soube como baixar linhas para depois buscar profundidade da forma e momento mais adequado, quando a defesa do Benfica subia demais e de repente a bola cai-lhe com passe longo nas costas para a tal velocidade dos avançados do Braga.

Para isso ser possível foi necessário, porém, adequar posicionamentos na dupla à frente da defesa, confundida o inicio de jogo. Danilo e Tiba. De principio 6 e 8. Depois, invertendo, para 8 (a posição de origem de Danilo no Brasil) e 6. Mas, mais do que isso, foi a velocidade com que os dois jogadores pensavam e alternavam a posição para equilibrar a equipa (nas marcações/coberturas) e depois lançar o ataque, missão onde Tiba tem um futebol mais completo no sentido de perceber mais coisas do jogo.

A base foi que a velocidade passou a surgir nos dois espaços do relvado de formas diferentes: A dos médios a pensar. E a dos avançados a correr. Uma ligação de velocidades sincronizada, no passe e desmarcação, que aproveitou a defesa do Benfica demasiado subida (em face do adversário que tinha).

A ideia de que uma equipa dita grande tem de jogar sempre com a defesa subida é uma armadilha em que elas próprias (seus treinadores) caem, sobretudo quando jogam contra equipas que (acham) são mais.. pequenas. Pura ilusão. Elas assim crescem logo de repente. Ganham profundidade e, no limite, ganham-lhes o jogo.

A ideia da equipa grande ter de jogar sempre com a defesa subida é uma erro em que muitas delas caem. Inteligente, o adversário pode assim crescer logo em profundidade

KLEBER: O PONTA-DE-LANÇA NUNCA É UMA “ILHA”

NOTAS 14 15 10Um ponta-de-lança é, cada vez mais, um elemento que não pode viver como um “ilha” numa equipa. Tem de ser, cada vez mais, mais um... jogador, capaz de jogar com a equipa e ela com ele, sem o ver como uma referência, quase íman a quem todos sentem atração para logo mete a bola.

Não é esse o efeito que Kleber provoca nas equipas. E não é porque é muito forte a jogar de costas (para a baliza) e passar em apoios para os colegas.
Claro que cada jogo tem a sua especificidade, mas quando ouvi Couceiro dizer que sabendo Kleber que ia jogar contra um central-monstro de 1,90, o Samba, do Dínamo Moscovo, ele estava naturalmente a preparar-se para não o enfrentar de frente pois assim seria mais difícil passar, pensei nesse lado do “saber jogar de costas” e como um jogador, neste caso um avançado-centro, tem de saber jogar de forma distintas em face de adversários distintos.

Nada disto tem a ver com mudanças de sistema mas sim de mobilidade posicional. Vai para além da dinâmica que se repete tanto ser a base de tudo. Não é, se for vista no vazio de cada posição ou sistema. Porque a dinâmica exige a interligação sincronizada das movimentações de todas as posições, sobretudo as que jogam umas mais próximas que as outras.

Kleber é dos jogadores que mais me custa não ter visto evoluir como imaginava das primeiras vezes que o vi. Continuo a achar que os problemas de recepção são o principal factor que o impediu de crescer. E para quem joga tão bem de costas essa lacuna é quase um contrassenso.

NOTAS 14 15 10 1GOLOS
7
O numero de vezes que as arrancadas de Maazou já terminaram nas redes adversárias esta época

MAAZOU: JOGADOR “TRABALHADO” COM A EQUIPA

Um avançado que continua a crescer, no sentido de dimensão de jogo, é Maazou, agora no Marítimo. Só trabalhando com ele se pode detectar muitas coisas, mas quando esta semana falava o elogiava pela sua dimensão física em passada larga e visão dos espaços por onde deve entrar, mas com limitações técnicas, Leonel Pontes, treinador do Marítimo, discordou e disse que ele “também era muito forte tecnicamente”.

Admito que possa ter feito uma análise tecnicamente simplista resultante do jeito morfológico meio desengonçado do jogador se mover. Não é um um poço de técnica, mas, ok, a bola não fica “quadrada” nos seus pés. Fica “redonda”. Quando a conduz e quando a remata.

O que acho que de facto o fez crescer é, porém, outro ponto. Foi perceber melhor a equipa antes de querer que fosse ela a percebê-lo a ele.
Sucedeu em Guimarães em que, descendo a equipa linhas, ele ficava na frente à espera da bola e quando ela lhe chegava já não podia jogar com ela, só podia... lutar por ela (e era em 4x2x3x1). Quando percebeu que tinha de ser ele também a recuar para se juntar à equipa (estrategicamente baixa posicionalmente a meio-campo) o seu jogo e impacto nele melhorou.

O Marítimo já apanhou, portanto, um Maazou já “trabalhado” no pensamento do jogo. E se começar a jogar mais vezes com outro avançado perto dele (4x4x2) que atraia marcações e dê liberdade para Maazou recuar-avançar, em largura, então ainda pode crescer mais. Aqui, no entanto, é o processo inverso. Porque já será a equipa a fazê-lo crescer. Tudo é, afinal, inseparável.