NOTAS 14/15 (11)

07 de Novembro de 2014

URRETA: A LINHA OU O COMPANHEIRO?

Não procurar a baliza como primeira intenção, mas sim antes um companheiro. Existem jogadores que nos confundem qual deve ser a ordem de prioridades no jogo. Os extremos ou jogadores tipicamente de faixa são os que provocam mais esta confusão.

Urreta é um jogador que sempre transmitiu uma sensação de vertigem no jogo. Meteu sempre velocidade quando pegava na bola, mas ficava a ideia de nunca se saber muito bem para que ela iria servir no seu final da jogada. Sucedeu-lhe em clubes grandes como pequenos. Tanto pode acabar tanto num grande golo como numa opção que destrói toda a promessa anterior. Para este tipo de jogadores o futebol é isto: um jogo de arranques. Não pode ser.
O futebol de Urreta é apenas um pretexto esta reflexão, mas o golo que marcou esta semana (pelo centro, num remate com vida própria) diz como a procura da baliza raramente pode ser um caminho em linha reta. Num sistema que coloque os alas a ter de jogar por dentro isso sente-se mais. Urreta será sempre, na essência, um extremo e um jogador a gostar de viver na faixa, mas numa equipa como este Paços de Paulo Fonseca (4x4x2 clássico no papel) que pede jogo interior aos seus alas de origem no papel, ele procura mais os companheiros. Faz, assim, mais amigos na equipa.

É jogando de fora para dentro, que um jogador em zona de definição percebe melhor que uma equipa não pode atacar desde qualquer lugar. Tem de escolher locais preferenciais. Até, assim, o extremo ver a baliza e o companheiro como intenções táticas de busca simultânea.

MÉDIO: ENCAIXAR NUMA POSIÇÃO, JOGAR EM MAIS ESPAÇOS

É inevitável quando vemos um jogador no qual detetamos qualidade logo procurar encaixá-lo numa posição, num sistema que lhe favoreça mais, até quase que lhe colocar um rótulo como se fosse uma garrafa. Nos médios isso acontece muito. Se é 6, pivot, se é um 8, para construir ou conduzir, se pode ser 10, por aí fora. O meio-campo abriga a maior diversidade de espécies de jogadores que, nas divisões dum onze, uma equipa concilia. Nos outros setores, defesa e ataque, distinguimos melhor o local de cada um.

No meio-campo eles sobrepõem-se na dinâmica de ataque-defesa-ataque do jogo. Por isso, a maior necessidade criar rotinas de interligação entre eles. A origem da visão está no pivot, mas elemento mais importante para a equipa pensar várias coisas ao mesmo tempo é o n.º 8 que tem a posição menos definida (no sentido de não estar menos limitado nos movimentos).
As equipas que têm um jogador assim, jogam melhor porque têm quem percebe o jogo por diversos prismas. Esta é, para mim, a melhor forma de perceber porque o Moreirense de Miguel Leal está a fazer este bom início de campeonato (em jogos diferentes, com ritmos e, em 4x3x
3, até estratégias diferentes). O jogador vadio rotativo é André Simões.
E para tornar toda esta análise mais curiosa, fica o registo de ter sido esta época que ele se fixou mesmo nessa posição, enquanto na anterior andou por outros lugares (até lateral-direito). Por isso, comecei o texto com aquela inquietação que tantos jogadores me transmitem. André Simões é, acredito, um caso resolvido.

O BENFICA E TALISCA: APRENDER A JOGAR AO MESMO TEMPO QUE RESOLVE... JOGOS

NOTAS 14 15 11 1Os ataques rápidos de cada equipa, alternados, ameaçavam golo em qualquer baliza até que, mais uma vez, um jogador que parece tantas vezes se ir desmontar todo em peça separadas, voltou a proclamar a sua independência sobre o sistema. Ia a escrever sobre o jogo ou a equipa, mas não é disso que se trata.

Talisca ainda tem muito a aprender sobre fundamentos do jogo, em qualquer posição que jogue (segundo-avançado, 11 ou 8) mas mesmo com todos esses manuais tático-técnicos para estudar e aprender, já é o jogador mais importante (e decisivo) da sua equipa. Parece um contrassenso. E, vendo bem, até deve ser.

Mas existem jogadores assim e o exótico futebol de Talisca que nem parece ter consciência dessa necessidade na forma sedutoramente selvagem como joga provoca essa sensação.

No fim do jogo com o Mónaco e da vitória sofrida, Jesus falou dele evitando dar-lhe muita importância. Acho que fez bem. Porque não duvido que dentro do treinador - Jesus, ele sabe bem a influência neste momento de Talisca no melhor Benfica e o quanto isso pode ser estranho em função da tal necessidade de aprendizagem de fundamentos de jogo que o jogador necessita.
Pouco antes, os passes a rasgar e isolar Sálvio, os toques de calcanhar a confundir defesas, os arranques desde trás culminados com remates para grande defesa do guarda-redes adversário, e, por fim, o golo, oportuno, no espaço oco da área que descobriu para dar a vitória, já tinham criado alucinações que chegassem.

Ou seja, Talisca ser tão importante hoje com as insuficiências que o treinador (justamente) lhe aponta é, no fundo, uma forma involuntária de registar as atuais insuficiências da equipa. Um jogador a aprender e ao mesmo tempo que se resolve jogos (uns atrás dos outros). Não é normal. Para qualquer equipa ver isso acontecer. É natural, porém, para este jogador. Porque ao fundo do túnel (do jogo) está Talisca.