NOTAS 14/15 (13)

22 de Novembro de 2014

ESTRANHO: MUNDO DOS LATERAIS PEQUENOS

A dimensão física do jogo ou dum jogador é um alçapão em que caem as aparências mais básicas. Raphael Guerreiro fez um golo de cabeça em que surgiu, no último minuto, sem marcação, no coração da área, numa jogada já sem relação nenhuma com o que se passara durante o jogo todo. A anarquia de posicionamentos em que este caíra (normal num particular) foi decisiva para o golo surgir desta forma estranha e por este herói improvável, mas o que provoca cada jogada em que entra este motorzinho de 1,70m e 63kg chamado Raphael Guerreiro, peso-pluma baixinho, é uma sensação de desafio aos dogmas físicos do futebol.

A velocidade que tem faz a essência da maioria das suas subidas, mas os desequilíbrios são criados pela perceção que tem do jogo (viu-se mais contra a Arménia como entrava nas costas do extremo). A resistência que faz dele aos 20 anos um jogador que nunca se cansa, corre junto com essa sensibilidade de arranque. Nunca se irá impor em choque, mas usando as armas referidas, poderá sempre impor-se pela antecipação tática. A questão atlética pura (nunca irá ganhar no jogo aéreo nas alturas, onde é muitas vezes importante um lateral, nos cruzamentos, dobrar nas costas dos centrais) é driblada pela resistência física.

Terá sempre limitações nesses territórios. Terá sempre a esperteza de fugir deles mais depressa do que outros. Nada de anormal. É um tradicional jogador português roda-baixa. O resto da equipa tem que o entender. O resto da defesa tem que o proteger. E ele furar por ente todo esse estranho mundo dos laterais pequenos.

4x4x2: NÃO PODE NASCER SÓ POR FALTAR UM N.º 9

NOTAS 14 15 13Admito que a opção pelo 4x4x2 nasça da falta dum ponta-de-lança com classe indiscutível de seleção, mas sendo assim penso que esta será das piores razões para um treinador optar por um sistema em vez de outro. Ou seja, é natural que os treinadores estejam condicionados nas suas escolhas táticas pelos jogadores que têm, mas uma posição nunca pode ser a razão para mudar todas as outras dentro do mesmo onze.

Neste caso, não ter um ponta-de-lança leva a mudar todo o posicionamento do meio-campo (de triângulo para losango) e ataque (dos alas a cruzar para movimentos vagabundos dos avançados).

Numa equipa que não tem tempo para treinar tal faz ainda menos sentido. É verdade que Portugal não tem hoje um grande n.º 9, mas essa é uma questão antiga. Tem jogadores para jogar nessa posição que até podem render mais do que parecem valer à primeira vista, se tiverem uma equipa em seu redor que se movimente de forma inteligente e imaginativa ao mesmo tempo (veja-se Postiga, dos clubes para a seleção) ocupando alternadamente espaços (trocas posicionais) em princípios (e subprincípios) de jogo em que esse n.º 9 dito normal possa render mais porque vai impulsionado pelas dinâmicas que a equipa cria (e até bolas que lhe podem meter em zona de finalização).

Procurar soluções para problemas posicionais obriga a ver a melhor forma de mexer na equipa. Não implica imediatamente abdicar dessa posição e criar outras (noutro sistema) sem mecanização. O 4x4x2 não pode nascer (só) por faltar um n.º 9. Há dezenas de variantes para criar noutro sistema como o 4x3x3.

DANNY E QUARESMA: A importância da clareza das posições

NOTAS 14 15 13 1Um jogador em quem sinto, tantas vezes, como a dinâmica, por si só, é um conceito vazio, é com Danny. Não está em causa a sua qualidade. Está em causa o seu critério de movimentação e o que quer verdadeiramente do jogo e como o busca. Depois de ter nascido mais como ala, a sua liberdade (equipas e seleção) foi crescendo a partir do momento em que também passou a jogar por dentro, quase n.º 10 ofensivo ou segundo avançado.

É importante um jogador fazer trocas posicionais para confundir marcações mas nessa permanente alteração de posição acho que perde demasiadas vezes o seu sentido de jogo.

Tem velocidade (e, sobretudo, muda bem de velocidade metendo rapidez) mas fico com a ideia que o faz por impulsos. Dependendo de onde a bola entrar, ele vai para esse local. Não se coloca ele primeiro no local certo para receber (pedir) a bola e, a partir daí, meter a dinâmica do seu bom futebol. Essa é que seria a ordem natural das coisas mais correta.

É muito por isso que Quaresma é um jogador resolvido na sua cabeça. Seja quando o assobiam ou aplaudem, sabe ao que joga. Nunca quis muito, na carreira, conhecer outros locais do terreno. Quando alguns treinadores o quiseram por a jogar por dentro, ele encolheu os ombros e como que disse que não precisava disso para o seu jogo. Ou, até, para aparecer quando quisesse nessas zonas centrais. O seu jogo teve sempre o habita da faixa, berço de trivela, centro precisos e diagonais fantásticas com remate. E continua a ter. No seu FC Porto e agora quando entra na seleção com uma missão clara. Entra com a posição e dinâmica necessária perfeitamente definidas.

Em suma: Danny precisa ter uma posição mais definida. Quaresma precisa que não lhe mexam muito nela. A parir daí eles fazem (dinamicamente) tudo o resto. É a importância da clareza das posições.