NOTAS 14/15 (14)

30 de Novembro de 2014

MUDANÇAS: OS “DUPLOS” DE HERRERA-OLIVER

É o tipo de jogador que consegue ser... Vários jogadores no mesmo jogo. Essa proeza de transformação tem a ver com a sua capacidade de queimar várias linhas do meio-campo quando em condução de bola ou, perdida a posse pela equipa, fazer o caminho inverso de recuar no terreno. Muitas vezes, porém, ativa a pressão para essa recuperação em zonas mais altas e não recua tanto. Da mesma forma, então, sem queimar linhas no sentido inverso, passa da condução para a recuperação. Este é o futebol de Herrera no triângulo do 4x3x3 do FC Porto. A cada momento do jogo parece, por isso, um jogador... Diferente.

Foi isso que fez (com um golo de remate-bomba de fora da área incluídos contra o Bate Borisov) mas, estranhamente, vendo as estatísticas no final, o jogador que tinha corrido mais no jogo era Oliver. Não é, no entanto, o mesmo tipo de jogador que se transforma. A sua maior quilometragem global é mais na procura dos melhores espaços para receber a bola, recuar ou colocar-se para pegar nela e distribuir jogo, fazendo-a circular.

Ou seja, enquanto Herrera tem um futebol vertical de avanço e recuo (condução-recuperação-condução), Oliver tem um futebol circular, partindo centro, a toda largura do terreno (construindo-circulando). A diferença de quilómetros tem a ver com a busca que Oliver faz prioritariamente pela bola e espaço, enquanto Herrera a recebe (ou recupera) no espaço onde mora e depois faz toda essa autoestrada durante o jogo. Nos dois sentidos.
É por isto que, por vezes, em certos jogos, há equipas parece ter mais jogadores em campo.

ADRIANO: SÓ GUARDA-REDES DE EQUIPA PEQUENA?

NOTAS 14 15 14A influência de um guarda-redes numa equipa varia conforme o modelo de jogo (e dimensão da equipa) mas há casos em que ele é mesmo quase a um verdadeiro jogador, para entrar no sistema (1x4x3x3). Fala-se muito do guarda-redes de equipa grande que tem de jogar quase como líbero improvisado, para ocupar o maior espaço vazio nas costas da defesa mais subida e, atento, sair em antecipação, com os pés, para matar a profundidade de ataques adversários que metam a bola nesses espaços.

O guarda-redes da equipa pequena, tem, em geral, a defesa em bloco baixo e a sua zona de intervenção é mais reduzida, mas embora com menor amplitude periférica para sair, tem um número de intervenções muito superior.
É natural, muitas vezes, desconfiar se essas grandes exibições na dita equipa pequena se liguem à capacidade/visão de jogar como guarda-redes de equipa grande.

Penso nisso vendo as sucessivas grandes exibições de Adriano no Gil Vicente. Continua igual (até defendendo penáltis na Taça) mesmo com a equipa em último. Está com 31 anos e custa-me vê-lo definido como o tipo de grande guarda-redes de equipa pequena. Penso que, até pela passada larga que tem, podia subir mais degraus nas exigências táticas de modelo na sua posição. Não sei se terá essa oportunidade. Seja como for, as suas defesas preenchem os jogos em que entra época após época. O que lhe faltou para chegar a um grande são coisas que se imaginam ele não faça a esse nível. Uma avaliação imaginária que Adriano merecia ter oportunidade de desmentir.

VITÓRIA POR ENTRE A ESTRATÉGIA E A IDENTIDADE

NOTAS 14 15 14 1O Braga ganhou em Guimarães num jogo muito disputado e no fim ficou a dúvida: ganhou com a sua identidade ou com a sua estratégia?
Sérgio Conceição falou no fim que a equipa fizera um jogo diferente ao baixar mais as linhas do que habitual. Vendo jogar o Braga neste início da época, não se deteta, porém, uma vocação clara para um modelo de equipa de posse clássica. Ou seja, não procura, sobretudo quando em vantagem, circular a bola (controlando o jogo dessa forma). Prefere baixar mais as linhas e aproveitar o adiantar natural do adversário para logo ganhar profundidade nas suas costas.

A dúvida que fica no crescimento/solidificação de modelo de jogo da equipa é se o baixar linhas de Guimarães foi motivado por incapacidade de fazer a tal posse (face à pressão vimaranense) ou se foi por estratégia específica para este jogo (baixar mais as linhas e sair em transições para o contra-ataque) ou se o modelo pretendido contempla mesmo mais este princípio na saída para o ataque e sua organização em contra-ataque. O jogo de Guimarães teve essa visão estratégica e ganhou dimensão vencedora na velocidade de Pardo e Rafa (este com criatividade técnica fantástica aliada).

Os momentos em que se sente a equipa com maior personalidade é mais atrás, quando a tal cultura de posse emerge de individualidades como Danilo e, sobretudo, Tiba, que ao baixar para pegar na bola no início de construção como pivot, é hoje o jogador que mais estabiliza e personaliza o jogo do onze.

Imaginando por onde a equipa deveria crescer, penso mais na cultura posse de Tiba do que nos rasgos velozes ou criativos de Pardo e Rafa. As duas coisas são, claro, compatíveis, mas o que deve ser origem da ideia do modelo para este Braga crescer estará mais nos jogar de Tiba do que nas linhas baixas e contra-ataque. Crescer com identidade e não com a estratégia.