NOTAS 14/15 (29)

07 de Abril de 2015

POSSE: QUANDO FICA LENTA: ESTRATÉGIA OU INCAPACIDADE?

Durante muito tempo, a seleção deixou o jogo ficar lento, sem imprimir velocidade na saída de bola. Nessa altura, duvidava-se se era intencional, como estratégia de gestão de diferentes ritmos de jogo, ou se era incapacidade em acelerar o jogo.

O facto de estar a manejar os diferentes ritmos do jogo (tornando-o mais rápido ou lento) seria um dos seus maiores sinais de maturidade.

No fim, porém, Fernando Santos assumiu que não era bem assim. A equipa teve mesmo dificuldade em meter velocidade nas transições ofensivas. Tal refletia pois incapacidade da equipa em acelerar.

Se algo que o nosso jogo não pode perder é a rotação e entradas desde trás dos seus médios nº8, criando rupturas nas defesas adversárias.

Jogando em 4x4x2, tal torna-se mais difícil se for na variante clássica pois Tiago-Moutinho sabiam que sem o pivot-defensivo atrás (como no losango ou em 4x3x3) não podiam subir muito sob o risco de perder depois o posicionamento a defender. Por isso nesta variante a equipa fica mais equilibrada a defender do que no losango, mais exigente nas basculações defensivas dos médios. Perde, porém, no inicio de construção ofensiva devido ao tal condicionamento defensivo do duplo-pivot.

É uma equação colectivamente difícil de resolver mas individualmente disfarçada pela rotação permanente de um jogador que vive acima dos sistemas: Moutinho. Com a bola (ou sem ela, mas sua trajetória) acelera ou abranda sempre quando é preciso e, depois, sai e faz as tais rupturas que marcam a diferença.
Como no golo da vitória. Uma invenção (ruptura e passe) além-sistema de Moutinho.

SELECÇÃO SUB-21: ENTRE CRIATIVOS E/OU ORGANIZADORES

NOTAS 14 15 29Ao contrário da seleção principal que jogou sempre em 4x3x3, o onze sub-21 de Rui Jorge já entrava pelas vias do 4x4x2. As diferentes duplas de ataque que foram sendo formadas, mesmo às vezes puxando alas para o meio, revelaram sempre mobilidade cruzada para essa missão na frente.

Os particulares contra Dinamarca (em 4x3x3) e República Checa (em 4x4x2) mostraram que o onze pode jogar nas duas estruturas, só que mesmo jogando bem em ambos mas... não marcou em nenhum.

Em termos de nº9, a evolução de Gonçalo Paciência é o principal factor para sustentar a opção 4x3x3, mas olhando as características do nosso atual grupo-sub-21, o 4x4x2 parece arranjar mais lugares para tantos talentos. Isto é, comparando-o com o grupo da seleção principal, este tem mais versatilidade para interpretar os dois sistemas. A sua formação tática no plano do entendimento/interpretação dos fundamentos do jogo é, portanto, decisiva nesta fase. O talento, esse, é evidente. Faltará, por vezes, quem pense melhor o jogo no centro da segunda linha do meio-campo.

O reaparecimento de Bruma fez pensar. Idolatrado quando apareceu, foi depois para o Galatasaray, lesionou-se e regressa agora. É tempo de encontrar o local certo para fazer o seu talento ganhar consistência e bases de jogo (campo e mente). Não me parece que a Turquia seja o local ideal para isso. Necessita de outro enquadramento, outro futebol.

Enquanto não o tem, a seleção tem de ter com ele um trabalho-extra de “maturação da formação” para que o seu talento encontre as referências que a sua gestão de carreira claramente não lhe deu.

COMO PODE UM JOGADOR CRIAR O ESTATUTO DE SELECÇÃO?

A invenção de uma espécie de “seleção B” para jogar com Cabo Verde tinha a boa ideia de ver como alguns jogadores e seu jogo sentiriam o peso da camisola. Desde o inicio, porém, sentiu-se que tudo podia ser ilusório. Todos aqueles jogadores valem mais integrados numa verdadeira equipa do que formando um... grupo de onze jogadores sem entrosamento.

André Gomes e João Mário são valores de futuro firmes. Antunes, Adrien ou, pressente-se, André André, são alternativas válidas para as suas posições. Mais difícil é projetar a evolução da tal dimensão de alguns jogadores - como Ukra, André Pinto ou até Pizzi – para poder chegar a um estatuto de seleção. Uma avaliação dessas só integrado numa verdadeira seleção principal. Custa entender, neste contexto, porque não jogaram “novos” pontas-de-lança. Em vez de Rui Fonte ou Lucas João, foram “desentranhados” Hugo Almeida e Éder da equipa principal. Não faz sentido, nem para a cabeça deles.

A intenção de toda esta convocatória em série de “aspirantes à seleção” acabou diluída na indefinição do coletivo em que, no jogo, se inseriram.
Quase a planar sobre todo este puzzle de peças diferentes, Bernardo Silva. Cumprindo o destino dos médios-centro tecnicistas ofensivos do presente, jogou desde uma faixa, a direita, puxando com o pé esquerdo o jogo para dentro.
A inteligência que tem sobrepõe-se, no jogo, à sua técnica. Ao ver isso, penso que, por vezes, tem de ser mais organizador do que criativo. O ideal seria, claro, juntar as duas. Não precisa correr tanto para, com a visão de jogo que tem, criar desequilíbrios. Nem precisa ser mais rápido do que a bola, como muitas vezes parece querer.

O segredo? Basta gerir melhor a pausa por entre as suas arrancadas sempre em velocidade.

É dos casos em que se sente que o estatuto de seleção irá ter com ele naturalmente.