NOTAS 14/15 (3)

30 de Agosto de 2014

NANI O JOGADOR TEM TRÊS DIMENSÕES

Não me interessa a questão de ter falhado o penalty. Se até Maradona ou Zico falharam, porque não poderia Nani falhar, Isso é futebol, normal (e diga-se, foi uma grande-defesa do guarda-redes do Arouca, Goicochea). Não sei o que se passou verdadeiramente no lance para Nani agarrar a bola e querer marcar o penalty (ou melhor, imaginar-se a converte-lo em golo e festejar com os adeptos. Seria o regresso sonhado). Não foi.

Adrien, onde a braçadeira de capitão assenta sem ninguém forçar mudanças de personalidade, tirou importância ao assunto e até já apareceram (marketing a funcionar bem) junto a brincar com isso. Mas por dentro, balneário e corredores entre ele e o túnel não pode ser como se não se tivesse passado nada.

Marco Silva saltou o muro da polémica. Fez bem e ficou claro que na próxima marcava Adrien, batedor oficial, porque é isso mesmo que se coloca em causa. Saltar a hierarquia.

A ultima coisa que o Sporting precisa é de um jogador que se ache mais importante do que a equipa. Nani é um craque e ponto final. Podemos discutir se pode render mais na ala, por dentro em diagonais ou trocas posicionais. Não pode é mudar o que fez o Sporting a época passada tão forte. Todos saberem jogar e todos saberem estar no banco. O golo apareceu no fim como um grito redentor de uma equipa que a ultima coisa que necessita é de quem a desviem do caminho da sua personalidade colectiva.
Uma vitória, hierarquia-Nani e ultimo minuto. Um jogo, uma lição de futebol a três dimensões.

LOPETEGUI CIRCULANDO E VERTICALIZANDO

NOTAS 14 15 3O modelo do FC Porto, a ideologia-Lopetegui, evoluiu, claramente, dentro do “futebol circular” que é a alma-mater inspiradora do seu jogo. Objectivo: equipa estendida no relvado em largura e a bola virar constantemente de flanco em construção, fazendo o adversário dançar, bascular, atrás dela. Até abrir espaços.

O dilema é o ultimo terço. Precisa de maior verticalidade e menos circulação. Não precisa de cruzamentos, nem a escola espanhola os preconiza. Precisa de jogadas de ruptura desde trás.

Gosto muito de ver Herrera e acho que, no seu melhor, é o jogado ideal para este pensamento ser aplicado. Vejo Rubem Neves com 17 anos a tratar o jogo e bola por “tu” e só penso que é bom demais para ser verdade. Joga muito! Não vejo Casemiro a nº6 como futuro catalisador de jogo. Talvez porque lhe pedem quase sempre para circular.

Na frente, no tal momento de maior verticalização. Jackson é um tratado a jogar de costas e virar-se. Quando o seu jogo está no ritmo certo é um lição de nº9 moderno. Nas alas, a rebeldia tem dado lugar ao jogo mais interior. Funciona mas até à entrada do ultimo terço. Nessa altura mais do que bola outra vez para as alas (abrir jogo e cruzar) pede-se o último passe vertical, como Brahimi fez para Jackson no 2-0 ao Lille, com a diagonal curta de desmarcação que o ponta-de-lança com movimentos de raiz tem no sangue.

O desafio do ultimo terço de terreno. A ultima fronteira para Lopetegui modelar o seu modelo. Circulando por principio, e verticalizando como última palavra na jogada.

VITÓRIA: OS "DANÇARINOS" DE GUIMARÃES

NOTAS 14 15 3 2Rui Vitória continua a inventar equipas em Guimarães. Os jogadores aparecem (ou melhor, crescem) como cogumelos. O orçamento reduz, saem titulares, parece que vai escorregar e a eis que faz outra equipa correr, fintar, marcar golos e, sobretudo, jogar bem. Porque isto para mim, no futebol, é como vi dizer Menotti uma vez ao entrar em campo quando os repórteres correm atrás os treinadores e eles já não querem falar. Nessa altura, EL Flaco só disse rápido “já sabes, vamos tentar jogar bem. O resto, veremos...”. De mestre!.

No novo Vitória, Bernard e Hernâni estão a fazer de cada jogo um espetáculo de dança com bola. Hernâni já conhecia, claro, e destacara-o quando o via (mais rua, menos relva, se me entendem) no Atlético. Estranhei ter jogado pouco em Guimarães a nível de equipa A. Admito que estivesse a ser “trabalhado”. Agora arranca pela faixa direita, passa laterais, e cruza. Algumas vezes, ok, tem o egoísmo do extremo que inventa sempre mais qualquer coisa. Mas senão fosse assim não era extremo.

O Bernard conhecia mal. E agora conheço as primeiras impressões, aquela para a qual não existe segunda oportunidade. Joga a 10, segundo avançado, no estilo do vagabundo com sangue africano e tem o essencial num jogador para nos fazer gostar dele: ri-se para o jogo. E faz golos.

O onze é, claro, mais do que dois jogadores e o campeonato ainda está a começar. Rui Vitória sabe disso. Começar desta forma permite, porém, crescer com bases. As promessas leva-os o tempo. Nunca vi treinador tão paciente nos tempos recentes do nosso futebol.