NOTAS 14/15 (36)

23 de Maio de 2015

FEJSA: “TITULAR” SÓ JOGANDO UM JOGO

O futebol é uma fábrica inesgotável de jogadores. Existem alguns, porém, que atravessam as épocas quase “virtualmente” (devido a lesões, sentados no banco ou com outros problemas) mas, mesmo assim, pressente-se que têm dentro deles tudo, o valor e as características, para serem titulares indiscutíveis no onze.

É o caso de Fejsa (com uma lesão que lhe corroeu mais de uma época) no Benfica. A sua cultura posicional como 6 tradicional de referência, garantindo equilíbrios atrás da linha da bola, à frente da defesa, com quem conecta primeiro, antes de olhar para os médios mais de segunda linha, tem o estilo preferido de Jesus para essa posição (sobretudo com as altas exigências no seu modelo de jogo).

Só com dois médios puros, este tipo de jogador (cuja linha sucessória começou com Javi Garcia) é indispensável para Jesus.

Foi por isso que Samaris demorou a pegar taticamente na posição como Jesus queria. Foi muitas vezes visível os “sermões táticos” que, em paragens de jogo, o treinador pregava ao jogador. Ele aprendeu, mas nunca ao ponto de ter a natureza de raiz na posição que tem Fejsa. Bastou um jogo, o primeiro a titular esta época, em Guimarães (com exigência emocional/táctica máxima, na decisão do titulo) para se ver isso.

Sereno, rápido e com técnica, Fejsa fez o que quis da posição. Deu-lhe um habitante permanente em relação ao qual Jesus não sente necessidade de berrar ordens de posicionamento durante um jogo.

Para um treinador que pede tanto, especificamente, a um jogador numa posição-chave do seu sistema, não existe sossego táctico-emocional maior.

SETÚBAL: O CLUBE E A EQUIPA. REALIDADES PARALELAS

NOTAS 14 15 36Desde um ciclo complicado com descidas de divisão, o V. Setúbal assegurou dez épocas consecutivas na I Liga. É perturbante, porém, ver como em muitas dessas épocas (tirando as de Carvalhal e Couceiro) este histórico do nosso futebol tem sofrido tanto para garantir a permanência.

É, por principio, mais um problema de clube do que de equipa, mas que depois, naturalmente, se reflete nesta. Ou seja, sinto que mais do que olhar para o valor da equipa (com deficit de qualidade em muitas posições) é necessário olhar para a forma como foi construída.

O Vitória necessita reconstruir a sua estrutura de futebol, criar um departamento de scouting astuto (indispensável num clube moderno) e demais moldura de gestão técnico-desportiva em torno do plantel, dos corredores ao relvado. A gestão e plano de crescimento financeiro é outra questão. Mas cruzam-se. Sem estas bases, não adianta pensar na equipa de futebol em profundidade.

Nas últimas épocas, o que sinto é que o Vitória fica sempre dependente da maior capacidade do próprio treinador em fazer esse trabalho de supraestrutura e tornar-se assim quase num “manager”. Tal pode até ser uma solução, mesmo que forçada, em face do vazio em seu torno.

O Vitória é um histórico do futebol português, não imagino a I Liga sem ele, mas os tempos mudam e por isso necessita de resgatar estruturalmente a modernidade futebolística na elaboração do seu plantel a cada época.
De outra forma, fica dependente de um bom “treinador manager forçado”, para fazer uma época melhor, longe do sofrimento.

TREINADOR E CLUBE: O FIM DO CICLO DO AROUCA DE PEDRO EMANUEL. E AGORA?

NOTAS 14 15 361Duas épocas depois da sua chegada a Arouca, então um clube vindo das profundezas das distritais até à elite em poucos anos, Pedro Emanuel sentiu, após consumada a segunda permanência na I Liga, que é tempo de colocar um ponto final nesta aventura.

Faz sentido que pense assim, sobretudo em termos de gestão da sua carreira, porque neste momento a questão que se coloca para o clube é que possibilidades existem para crescer mais na I Liga. Isto é, ser capaz de entrar na primeira metade da tabela e olhar para cima.

É muito difícil projetar essa realidade (para além de uma época ocasional em que isso suceda) num clube que foi literalmente inventado para esta dimensão por um projeto familiar.

O “Arouca da I Liga” é, claramente, uma criação do seu presidente. Dificilmente sobreviverá a este momento histórico, mas nesta fase, é legitimo querer fazer um onze capaz de subir alguns lugares. Financeiramente, vive melhor que muitos outros clubes. O novo treinador terá de ser capaz de dar o tal acrescento de visão competitiva. É o passo que faz sentido tentar, sobretudo num tempo em que são precisos cada vez menos pontos para garantir a permanência.

O perfil dos jogadores a contratar deve ter, pois, essa mesma ambição em termos de carreira, individualmente falando. Num transfer coletivo, pode criar essa tal equipa em busca de “dar um salto”.

Procurar jogadores já com estatuto de I Liga (mesmo que reduzido) e mesclar com outros em fase de lançamento (ou relançamento) da carrreira. Tudo, claro, com o critério da qualidade como base. Depois do que fez na primeira fase do projecto, dificilmente seria com Pedro Emanuel que teria essa visão. Porque, neste momento, mais do que pensar em fazer crecer o clube que salvou duas vezes, pensa em fazer crescer a sua carreira num outro clube que possa ter, por natureza, maiores ambições.