NOTAS 14/15 (37)

30 de Junho de 2015

VITOR OLIVEIRA: EXISTE SEGREDO ALÉM DOS JOGADORES

Enquanto caminhava para o balneário, Vítor Oliveira, após oito subidas (a do Moreirense também é dele) respondia á clássica questão de “onde está o segredo?” da forma mais imprevista e óbvia: “o segredo é ter bons jogadores!”.

Conheço-o bem de longas tertúlias de futebol pela noite dentro e sei que esta sua resposta é a mesma que usa nessas mesas privadas para por fim às maiores discussões sobre transições. Antes, porém, já falara muito das tácticas mais eficazes que nascem do conhecer bem o interior dos jogadores. Por isso o segredo é ter bons jogadores mas com mais uma palavra. Bons jogadores... inteligentes!

Vítor Oliveira é um treinador nascido das entranhas do futebol do balneário mas sem nunca menorizar, ao longos dos tempos, novas análises ditas mais académicas. Destrói o mito dos novos ou velhos treinadores. O que existe é treinadores parados no tempo ou treinadores sempre a par do tempo. Vítor Oliveira é um treinador intemporal. As suas equipas tem essa sua cara.

E o segredo está em saber como, durante a época, gerir o esforço, forma e motivação dos jogadores.

Enquanto outras equipas “se matam” todas as jornadas para estar em lugares de subida, Vítor Oliveira gere o seu grupo. Alterna puxar mais ou menos por ele. O essencial é manter-se a distância pontual acessível desses lugares, para depois, nas ultimas cinco jornadas em que tudo se decide, ligar ao máximo os motores motivacionais e competitivos então frescos, enquanto as outras equipas já estão desgastados, em curva descendente e com receio. Ao invés, os grupos de Vítor Oliveira chegam em curva ascendente, a acreditar “enganar” todos na recta final .
É a cara de Vítor Oliveira, “peixe tático de águas profundas”.

APARIÇÕES :“TONI” PEREIRA, RAÍZ INVISIVEL DO NOSSO FUTEBOL

NOTAS 14 15 37O futebol tem muitos “heróis invisíveis”. Mas, mesmo nesse seu lugar, há os que sonham um dia tornarem-se visíveis e outros que habituaram-se a essa penumbra, mesmo nas horas em que aparece a sua fotografia no jornal. Nesses momentos, quando as vejo, sinto-as quase como fugazes vindas de seres de outro planeta futebolístico.

Eles são, porém, a raiz mais genuína do nosso futebol. O mais real e o mais escondido ao mesmo tempo. Contradição? Não, apenas a mais perfeita e perturbante imagem da realidade.

É o que sinto quando vejo as fotos de António “Toni” Oliveira após mais um dos seus “milagres” (eliminar grandes da Taça com equipas pequenas ou subidas de divisão).

Nesse momento, ele tora-se visível, como uma aparição que ameaça a alta burguesia (a verdadeira e a falsa) futebolística. O sucesso desta semana foi trazer o Mafra pela primeira vez na história aos campeonatos profissionais, a II Liga.

Um dia, alguém escreveu que ele era o “Mourinho dos pobres”. Não duvido que o fez com boa intenção, mas a personalidade, saber e postura do Toni Pereira é das mais genuínas do nosso futebol profundo, não admitindo ligações estratosféricas a outras realidades.

Porque, mesmo quando perde, não se esconde. Aparece igual, admitindo que não correu bem. Como quando ganha aparece com a alegria no rosto sem perder a naturalidade de tudo aquilo.

A derrota e a vitória são dois grandes impostores. No futebol, como na vida.
Quem nunca engana e serve sempre de refúgio para as emoções de futebol mais puras, são estes seres de “carne e osso” que surgem como “aparições” sobrenaturais nestes momentos. Mas, se virem bem, eles estiveram (e estão) sempre lá. E nunca falham.

Final da Taça: O “objectivo da época” contra o “objectivo da história”

Chegam à Final olhando para a Taça com dimensões diferentes. Para o Sporting, o objectivo de dar uma conquista á sua época. Para o Sp. Braga, o objectivo de dar uma conquista á sua história. Factores de motivação distintos, mas que se defrontam num final de época em que é natural o desgaste físico de ambos.

Nos bancos, dois treinadores que chegam ao Jamor após longos caminhos. Difíceis, mas diferentes. Sérgio Conceição gere uma equipa. Marco Silva gere uma equipa, um balneário e uma relação interna.

Apesar de marcadas por “polos de batalha” diferentes, é impossível dizer qual delas chega melhor. Acredito que, pelo sinteticamente exposto, a pressão que o Braga sente é mais positiva da que a do Sporting. Pela simples razão da do Sporting resultar de uma “pressão interna” de vitória, enquanto a do Braga vir de uma “pressão externa” da história.

As equipas cultivaram ao longo da época sistemas semelhantes (4x3x3 com extremos, um puro e outro mais de diagonais, e meio-campo com falso duplo-pivot e um médio mais ofensivo). No Sporting, porém, este terceiro homem do meio-campo costuma começar por ser um elemento que, nos jogos grandes, pressiona a saída de bola adversária, João Mário. Foi com esse principio que ganhou no Dragão. No Braga, nesse lugar, existe um nº10 puro, no posicionamento e ataque aos últimos 30 metros, Rúben Micael.

Acredito que ambas as equipas mantenham a identidade do seu modelo, mas talvez o “plano de jogo” de Sérgio Conceição seja mais estratégico (linhas mais baixas e saída rápida em ataque nos espaços vazios) enquanto o de Marco Silva queira impor a cultura de posse desde inicio, mesmo que nesses primeiros momentos seja essencialmente para olhar o jogo e o adversário. Ambos podem ganhar, mas um pode perder mais do que outro. Releia o texto e diga qual deles.