NOTAS 14/15 (38)

17 de Junho de 2015

TRANSIÇÕES: ENTENDER O “LADO ESCURO” DA “PRESSÃO ALTA”

Se defensivamente (organização/transição) as equipas já entenderam que a superioridade táctico-moral de pressionar alto é algo que muitas vezes se torna numa “armadilha de falsas promessas de jogar bem”, pois ao subir o seu bloco (e jogar consequentemente também com defesa subida) dão logo, por princípio, aquilo que qualquer uma delas deve prioritariamente tirar ao adversário: profundidade. Penso aqui sobretudo em jogos nivelados ou do lado da equipa teoricamente mais fraca. Tudo muda (deve mudar), com esta análise a incidir nos grandes ou nas que dominam.

Atenção que gosto mais de ver uma transição defensiva pressionante e agressiva, mas percebo que em face das circunstâncias, é natural (e aconselhável) ficar pela transição defensiva expectante e de reorganização.

Penso, por isso, que o debate sobre as transições se deve colocar mais no lado ofensivo, pós recuperação da bola. Nesse aspecto, não vimos, em termos preferenciais, muitas equipas a procurar rapidamente a profundidade. O Braga de Sérgio Conceição foi, talvez, a equipa mais forte nesse aspecto, mas um aspecto curioso é ver como aquelas que jogaram pelos lugares europeus utilizaram mais uma transição de movimentação entrelinhas para distribuição mais na frente.

Foram os casos de Belenenses, Paços de Ferreira e até, embora essas mesclassem mais com a distribuição na profundidade a partir da posição, Rio Ave e Nacional. Jogando muitas vezes numa condução individual para o ataque, o V. Guimarães, ainda com um jogador (André André) também a emergir entre os médios que saltam numa pressão alta individualizada.

Em todos os casos, as mudanças não ficaram muito condicionadas ao adversário. Antes à carga emocional dos jogos.

ATACAR: O JOGO APOIADO PERDE-SE AO LONGO DO CAMPO

Em termos de organização ofensiva nota-se que as equipas começam a construir apoiado (construção curta desde os defesas tentando levar o adversário a subir e... partir o seu bloco) mas logo da primeira para a segunda fase de construção (estou a pensar numa saída organizada sem partir da transição) a maioria, que faz projectar os laterais para a linha dos médios, vai perdendo à medida que avança no terreno essa noção de jogo apoiado para começar a esticar, o que se torna evidente na entrada dos últimos 30 metros. É o receio de perder a bola nesse momento e estar desposicionada defensivamente pois nessa subida deixou “campo grande” atrás que é o oposto para se defender bem, em que tem de se fazer “campo pequeno”.

Falando da perda de qualidade do jogo apoiado, podia-se falar na baixa qualidade técnica dos jogadores (recepção-passe), mas prefiro antes uma questão táctica, porque o que nesses momentos falta é a cultura de “jogo posicional” para desenhar linhas de passe em distribuição. Gostei, neste campo, do jogo do Paços de Ferreira, que buscava contrariar essa ideia mantendo o jogo apoiado nos últimos 30 metros, mesmo correndo altos riscos por, assim, não pensar muito no que lhe podia acontecer no momento da perda.

O Sporting constrói muito bem curto desde trás mas sente dificuldade em esticar essa linha de passe no meio-campo adversário, acabando sempre a buscar os extemos. Uma opção que espelha, afinal, como muitas destas divergências de organização está directamente dependente da criatividade, qualidade e experiência dos jogadores, que fazem esse jogo posicional ofensivo entrelinhas atrás do ponta-de-lança.

MODELOS: O BOM CAMPEONATO DOS... TRÊS CAMPEONATOS"

Pode parecer estranho em face das assimetrias que existem entre diferentes as equipas dizer que este foi um campeonato competitivo, mas penso que isso é mesmo possível de dizer-se entendendo o que é “ser competitivo” no nosso futebol.
Para além do chamado “direito táctico dos mais pequenos” de baixar linhas (bloco-baixo assumido) com sectores muitos juntos perto da sua baliza (os autocarros podem parar em qualquer lado) o que se detecta a nível global é existirem… “três campeonatos” dentro do mesmo.

O “campeonato do título” (com Benfica, FC Porto, e o Sporting a descolar cedo), o “campeonato da Europa” (com o Braga a destacar-se na segunda volta, embora perdendo contacto com o último elo acima, mas com boas equipas, V. Guimarães, Belenenses, Paços Ferreira, Nacional, Rio Ave e até Marítimo) e o “campeonato da luta por evitar a descida” (liderado pelo Boavista no limiar do chamado “campeonato tranquilo” e os sofredores V. Setúbal, Académica, Arouca, até aos despromovidos Gil Vicente e Penafiel).

A maior parte das equipas baseou a sua organização num bloco médio-baixo, mas com pouca distância entrelinhas, o que permitiu às equipas do “campeonato da europa” jogarem muitas vezez (também dependendo da ideia do seu modelo e concessões permitidas a ele) num bloco já mais médio-alto.

A prioridade de reduzir vulnerabilidade nas costas é que a base desse bloco não passe mais vezes de médio-baixo para médio-alto. É tacticamente natural em face dos equilíbrios que assim são mais fáceis de manter nos jogos, sobretudo em face da menor cultura táctica dos médios nessa dupla missão de organização ofensiva e, sobretudo, transição defensiva. Também por isso praticamente não existiu o 4x4x2, por ser posicionalmente (nas dinâmicas defensivas), muito mais exigente do que o desde logo mais racional posicionamento/ocupação dos espaços do 4x3x3.