NOTAS 14/15 (4)

06 de Setembro de 2014

BRAHIMI SER ALEGRE OU INTELIGENTE?

O que será melhor ter na equipa como protagonista: um jogador inteligente ou um jogador alegre? Poderão questionar-se mas porque não ter as duas coisas no mesmo elemento. Brahimi é uma boa forma de pensar nisso. Vendo como cresceu no decorrer do jogo com o Moreirense (até desbloquear o resuktado) vê-se como teve flexibilidade para, mudando de posição, adiantando-se (e jogar entre as linhas do adversário) mudar o seu impacto no jogo. Como teve percepção do que ia acontecer em cada jogada e um nível de visão de jogo superior. O jogador inteligente é, portanto, mais útil. É como passar da habilidade para a técnica. Em ambas as pates, Brahimi procurou a bola, fintou e coreu com ela. Nunca esteve triste. Mas só na segunda tomou as melhores opções. O cérebro inteligente (tecnicista) é mais útil numa equipa que um simples cérebro alegre (habilidoso).

Os jogadores são todos diferentes ao olhar para o jogo, mas o treinador tem de encontrar um forma comum a todos quando para jogarem como equipa. O FC Porto evolui nesse sentido. Lopetegui mais do que mexer no sistema, mexe no lugar dos jogadores que até podem ser os mesmos de jogo para jogo, mas que mudam de posição e, com isso, com características diferentes, mudam as dinâmicas de cada uma delas. Oliver-Brahimi é muito diferente de Ruben Neves-Herrera no meio-campo á frente do pivot. E aqui já entra outro conceito, entre a habilidade e a inteligência, que os distingue: a intensidade de jogo (e suas diferentes formas de rotatividade).
Uma equipa só está bem em campo quando está obcecada com o que faz.

PIVOT VIAGEM ATÉ AO CENTRO DA TERRA

NOTAS 14 15 4No fecho do mercado, os grandes portugueses resistiram às maiores ameaças (ou não receberam as melhores propostas) e seguraram as bases das equipas. A importância do médio-centro pivot, chamem-lhe trinco se quiserem, ou até do nº8 que é, por principio e na origem, um segundo homem de equilíbrios. Cristante no Benfica e Campaña no FC Porto chegam nessa perspectiva. Dois jogadores com a tal “casca de ovo” ainda na cabeça, mas ambos com escola táctica (a educação italiana e o novo decálogo espanhol).

A importância que este lugar está a adquirir no futebol merecia um debate longo. Porque não é só a questão da eterna importância o meio-campo. É a importância abrangente daquele espaço que submerge e conciona todos os movimentos da equipa. Ir num onze até ao nº6, é quase como fazer uma viagem até ao centro da terra futebolística que cada equipa pisa e descobrir-lhe os segredos mais profundos. Não é uma viagem fácil.

O FC Porto pós-Fernando é quem precisa definir melhor essa posição. Casemiro não tem essa cultura posicional. O jogo, quase sempre, fica-lhe demasiado curto, longo ou até lento nesse espaço quando basta uns metros mais à frente para parecer logo outro jogador. E fica de facto.

No Sporting, William Carvalho entrou na sua segunda fase de construção (individual de carreira e de jogo). Pegar na equipa sem sair do lugar, permitindo a Adrien que suba mais sem ficar tão preocupado com o que acontece nas costas, pode ser um bom ângulo de olhar para forma deste Sporting poder crescer esta época. O seu bloco, por natureza do modelo, dar, assim, alguns passos em frente.

O RIO AVE DE ISMAEL
JOGADORES DE “CARNE E OSSO”

NOTAS 14 15 4 1Gosto de jogadores que passem a imagem de serem de verdade mesmo, humanos no que fazem e dizem. O golo histórico do Rio Ave ao Elfsborgé incrível. Desde o pontapé longo de Cássio para a frente, o corte falhado para trás do jogador sueco até a bola sobrar para Ismael e o seu toque até a fazer subtilmente entrar. E escrevi mesmo toque porque ele não acertou em cheio no remate. Deu na orelha da bola. E isso é que leva ao tal jogador de carne-e-osso que humaniza o lance. Ismael podia ter fugido à questão. Não, falou, mesmo o que aconteceu: “Não acertei bem na bola, mas acabou por ser o falhanço mais acertado da minha carreira”, contou, divertido.

Esta sinceridade humano-futebolística com que Ismael falou é a mesma com que a equipa surge em campo. Táctica e atitude. Pedro Martins aproveitou a base de Nuno, mas deu um cunho diferente ao meio-campo na forma como ora joga com duplo-pivot e um 10 (Diego Lopes) ou só com um pivot e dois interiores. Perdeu Felipe Augusto mas, perdendo a qualidade do jogador, não acho que perca o equilíbrio.

Foi mais importante segurar Marcelo. Um central rápido, que corta no timing certo, sem osso e depois sai a jogar. Não percebo como as grandes equipas não investem nele. Por não ser um “jogador bonito” a jogar? É, futebolisticamente, o central que eu gostaria de ter na minha equipa. Sem hesitar.

No meio de tudo, outro herói discreto, que também passa anónimo pelo mercado. Tarantini. Segura atrás (inteligência táctica de não subir para não arriscar que a equipa perca o equilíbrio) e sobe (para surgir no último passe ou remate). Pelo meio, muitos quilómetros de futebol, de uma área à outra, alternadamente.

Tudo jogadores de verdade. Que deixam crescer a barba para se sentirem mais fortes ou falham um remate que dá golo histórico.