NOTAS 14/15 (5)

18 de Setembro de 2014

DESCODIFICAR UM JOGADOR

Manual para perceber o futebol de André Martins

André Martins é um bom jogador que parece viciado num movimento: o descair, diagonal, de dentro para fora, do centro (meia-direita) para a faixa, à espera da troca posicional com o extremo que nesse momento faz o movimento contrário e vai para zonas interiores. Começou no tempo de Jardim (no inicio muito bem, de surpresa, com Wilson Eduardo), continua agora com Marco Silva (contra o Belenenses com Nani ou Carrillo).

É, sem duvida, um movimento, interessante no plano de provocar arrastamentos de marcação adversários mas, por tão repetido, a ideia com que fico é que está, literalmente, a “comer” a espontaneidade do jogo de André Martins. Ao cair neste “alçapão de rotina” o jogador torna-se em campo, jogada após jogada, uma sucessão de fotocópias dele próprio. Um fator que está a abrir a porta para as criticas que lhe fazem e que se cruzam com a necessidade do onze necessitar por vezes de um médio mais criativo nesse espaço.

Continuo a achar que, embora ele não sendo por natureza um, criativo, que, no cenário atual, esse jogador pode ser, pela boa expressão do passe e da capacidade de ruptura em mudança de velocidade, o próprio André Martins. Tem é de jogar mais verticalmente (o treinador pedir-lhe isso), mais por “dentro”, de frente para o jogo e não a olhar para as laterais.

Recordem os melhores lances e de maior perigo do Sporting na primeira parte frente ao Belenenses e vejam onde eles nasceram. Foi quando o jogo de André Martins se tornou mais vertical. O segredo é mete-lo a jogar por “dentro”. Insistir nisso.

Mané é outro tipo de jogador. Um repentista que corre com a bola (e ri-se para o jogo) mas não tem, nem vindo desde trás, a cultura potencial de jogo de André Martins, o jogador que vejo mais mal avaliado nas últimas épocas dentro das várias vozes do futebol português.

Deem-lhe a bola, a táctica e os espaços no sitio certo e depois falem dele outra vez. Neste momento ele é uma rotina de jogo em vez de um jogador espontâneo.

AROUCA A “CLAREZA” DO JOGO DE ANDRÉ CLARO

NOTAS 14 15 5Não é um jogador que seja muito destacado, mas é dos elementos que mais gosto de ver jogar no nível das equipas médias-baixas, em termos de movimentação qualitativa de jogo. Falo de André Claro do Arouca. Lembro-me de o ver nos escalões jovens do FC Porto mais como avançado-centro, mas é como ala (ou partindo de uma ala) que tem feito a sua carreira sénior (primeiro anónimo no Famalicão, depois mais visível no Arouca).

Pedro Emanuel pegou tacticamente nele onde Vítor Oliveira o tinha deixado e, por isso, essa dinâmica de jogo a partir da faixa permanece. Sabe conduzir a bola, procura tabelas, desmarcações curtas dando-se ao jogo (para devolver a bola) e tem remate (como no belo golo que marcou ao Braga). Com 23 anos tem muito para dar ao futebol e saltar na sua carreira.

É natural que a equipa lute até ao fim pela permanência, algo que também deve acontecer com o Boavista, que após a “travessia do deserto” voltou a ganhar na I Liga.

Petit sabe que a equipa tem limitações. Por vezes parece-me que para as disfarçar a quer construir demasiado à sua imagem em termos de agressividade de jogo (entenda-se capacidade de luta a meio-campo). Tem sido isso que lhe tem garantido competitividade na maioria dos jogos mas para crescer no sector atacante (o mais preocupante do onze) necessita de mais. Miguel Cid pode ajudar nessa ligação pelo que constrói a meio-campo.

O 4x2x3x1 da equipa tem intensidade e Beckeles é um jogador que pode dar mas à equipa se, talvez, jogar mais por dentro, tal a sua capacidade de ler o jogo.

De Arouca ao Bessa, duas equipas em busca do seu melhor futebol.

GIL VICENTE: EXISTIRÁ A “MOTATIZAÇÃO” DA EQUIPA?

NOTAS 14 15 5 1Quatro jornadas e dois treinadores já sentiram o estalar do chicote. João de Deus no Gil e Ricardo Cheú em Penafiel. Na ultima ronda, José Mota, no trilho dessa chicotada, estreou-se no banco do Gil. O problema da equipa não é, claramente, uma questão desta época. É algo que já se via desde a anterior e pressentia poder continuar nesta. A direção manteve a aposta mas sentia-se a vulnerabilidade. E, naturalmente, João de Deus acabou por cair.
O onze não mudou muito em relação à época anterior. A equipa sempre soube organizar-se bem atrás da linha da bola mas a pouca intensidade do meio-campo em pressão e ligação ao contra-ataque (os momentos de transição rápida defesa-ataque) acabaram por lhe retirar poder competitivo em muitos jogos. Uma questão de intensidade de jogo a esse nível.

Zé Mota é um treinador que, para além do 4x3x3, tem a imagem do chamado “treinador do grito”, daqueles que nunca deixa os seus jogadores adormecer. A indicações tácticas passam ou têm de entrar com um “martelo” na cabeça dos jogadores. Pode-se duvidar se as suas equipas vão jogar melhor ou pior. Nunca se duvida que vão lutar até cair para o lado.

Neste momento, não sei se será só isso que o onze necessita. Há mais futebol pra além da alma. A “motatização” do futebol do Gil pode ser, no entanto, um bom principio para Luan, Luís Silva e o “chefe” César Peixoto voltarem a pegar nos jogos pelo pescoço e apoiarem o ataque mais de perro onde caetano e Diogo Valente são dois alas que podem garantir velocidade/profundidade nas faixas. Sinto que mais do que um estilo, é uma equipa em busca de um carácter.