NOTAS 14/15 (6)

02 de Outubro de 2014

PENAFIEL JOGAR “MELHOR” OU JOGAR “MAIS”?

Uma equipa pequena a preparar-se para sofrer durante o campeonato. Existe fórmula ideal para este plano de fuga? Não é fácil, mas há noções de senso-comum tático que se deve ter desde o início. Não arriscar passes curtos junto à sua área e ter preferência por um passe mais longo, mesmo que lhe chamemos jogo direto, mantendo presença na frente que saiba lutar pela bola, para a segurar (o tal ponta-de-lança que, antes de jogar, entra nas jogadas para lutar) e pelo menos um extremo (móvel de preferência) rápido.

Penso nisso vendo como o Penafiel jogava, lutava e ganhava ao V. Setúbal na passada jornada. Não digo que uma equipa possa viver toda a época assim, mas para sobreviver é a forma mais segura para não meter os seus jogadores em problemas (um modelo de jogo mais ambicioso a nível de posse e construção apoiada desde trás) para o qual não estão vocacionados.

O Penafiel tem o tal n.º 9 lutador (Guedes) que já sabe de memória quando, no momento em que a bola anda por perto, deve lá ir ou ficar, tem o homem que pensa no meio-campo, Ferreira, e duas motas na frente Mbala e Aldair.

Parecem gémeos a jogar, mas são muito diferentes. Diria, numa definição sintética que Mbala joga melhor, mas Aldair joga mais. Releiam a frase e pensem. Qual é mais útil numa equipa destas? O que joga mais. O que a mantém sempre ligada à corrente elétrica. Naquela posição e espaço, a esta dimensão, o importante é saber fugir aos adversários com a bola da mesma forma que um carteirista corre na rua depois de a sacar do bolso do dono.

BELENENSES SUSSURRANDO (JOGANDO) COMO LITO FALA

NOTAS 14 15 6O quinto lugar dá para suspirar. O Belenenses entrou com qualidade de vida futebolística. Isto é, tem jogadores (e ideias) para tratar bem a bola. Sobretudo na frente. Fredy, Tiago Silva, Sturgeon, Miguel Rosa e Deyverson a ponta-de-lança. Dos quatro que falei primeiro, jogam sempre três (em 4x2x3x1) e todos sabem receber e tocar. Deyverson lembra-me a teoria da evolução das espécies de Darwin aplicada ao futebol. Ao princípio via-o como um n.º 9 desengonçado para chatear defesas (e jogar poucas vezes). Agora vejo-o como um n.º 9 inteligente para confundir defesas (e jogar muitas vezes, ou sempre). E, para além disso, joga bem de cabeça.

Onde a equipa treme um pouco é no duplo-pivot. Não porque ache que China, Dantas ou Pelé sem qualidade, mas porque querem fazer coisas demais das que se aconcelha naquele espaço e tendo à frente gente tão devota de bola no pé. Jogar em primeira instância, tão curto é um risco excessivo. A equipa deve esticar o jogo mais rapidamente, ou sair mais pelas faixas onde a perda da bola ou um passe errado não tenham efeitos tão drásticos como pode ter no meio.

Lito Vidigal continua a ser um treinador de quem mal se ouve o que diz quando fala. Não sei em que tom dará a palestra aos jogadores. Será de outra forma, acredito, mas uma coisa já se percebeu: é uma personagem. Ou seja, não diz coisas por dizer ou lugares-comuns. Quando os podia dizer, cala-se e ri-se. Quando quer dizer coisas, diz baixinho, mas que trazem sempre consigo verdades e consequências. Ele está a sussurrar o melhor futebol azul dos últimos anos.

FERNANDO SANTOS: NECESSIDADE DE ROMPER O MITO DO TREINADOR DE CONSENSO

NOTAS 14 15 6 1Fernando Santos é o novo selecionador apresentado como uma opção consensual. É uma comunhão de sentimentos mais do que uma comunhão de opiniões. Durante toda a carreira, o engenheiro sempre foi um senhor do futebol. Daquele de quem é fácil ser-se amigo. E ele é de verdade. Após o lado sentimental, surge o outro lado da questão. A opinião.

A seleção necessita de um líder. E a última coisa que acho que um líder tem de ser é um homem de consensos. Um líder tem de tomar decisões, de ruptura, de serenidade ou murro na mesa, mas o que nunca pode acontecer é ser consensual. Ele entrar na sala e tudo ficar como antes. Não. Nesse momento tudo tem de mudar porque chegou o homem. Não por medo. Por respeito. E isso raramente acontece com quem se é fácil ser amigo. É um desafio para Fernando Santos.

A sua competência é inquestionável. Agora é tempo das ideias. Da ação das ideias. Digo-lhe hoje o mesmo que disse ao Paulo Bento pouco depois de entrar: é verdade que os treinadores são todos, no fim, julgados pelos resultados, mas irá chegar o dia em que vais ter de dizer o que pensas de toda estas pessoas que te rodeiam no edifício da seleção (na altura a direção, ainda era a anterior). Porque antes dele, todos selecionadores (Humberto, Oliveira, Scolari, Queiróz...) tinham sido devorados por essa trituradora. Aconteceu o mesmo a Bento. A altura ideal para o dizer é quando se entra. É a única forma de se entrar forte. E acabar com o mito do treinador de consenso. A definição mais inócua que conheço.

Vai ter a seu lado um homem que é um peixe de águas profundas em termos de treinador de formação. Ilídio Vale. Perceber bem o seu papel naquilo que tenho defendido tanto ser necessário criar – a carreira/construção de jogador de elite dentro das seleções – será decisivo para entender qual o verdadeiro alcance desta alteração de comando técnico.