NOTAS 14/15 (8)

13 de Outubro de 2014

TALISCA: SAUDAVELMENTE IRRRESPONSÁVEL. CHEGA?

É o tipo de jogador que imagino, há alguns (poucos) anos atrás a jogar descalço num qualquer baldio de terra brasileiro. Talisca tem esse cheiro de futebol de rua. Até nas insuficiências de cultura tática que revela. Até na irresponsabilidade, quase anarquia, com que faz algumas jogadas (muitas acabam em golos de encantar). Pode parecer estranho este início de texto (falar em ter de aprender taticamente, falar em irresponsabilidade com bola) quando o que pretendo é elogiar o jogador. Ou melhor, elogiar a sua natureza, o que está dentro dele. A posição onde pode (ou deve) jogar é, neste momento, pouco importante, porque a ideia que dá é que a 8, segundo-avançado, 10 ou até vindo da ala, ele vai tentar fazer sempre as mesmas coisas. Há muito de positivo nisto porque tem uma base de talento para trabalhar em cima. Há algo de negativo nisto porque não se sabe nunca como depois tal pode refletir-se taticamente na equipa (se a vai fazer perder equilíbrios sem bola).

A dimensão do nosso campeonato é diferente da internacional. Estoril e Arouca ficam muito longe de Leverkusen. E o tal futebol saudavelmente irresponsável de Talisca perdeu-se, naturalmente, nesse percurso em termos de intensidade competitiva e possibilidade de fazer as mesmas coisas. A exigência tática tinha subido e o jogador não estava preparado para isso. Tem a sua natureza, joga com ela, mas há momentos (adversários/jogos) que só isso não basta. O desafio de crescimento de Talisca é esse. Do futebol natural para o futebol fabricado sem perder a noção onde pode ser... irresponsável.

NACIONAL A EQUIPA EM BUSCA DE RUMO

O Nacional demora a arrancar na sua ideia de jogo. Machado tem sabido sempre reinventá-la mesmo com novos intérpretes. Este ano, porém, há um problema maior: tem pior meio-campo e perdeu o melhor avançado (Djaniny). Dirão que já sucedeu no passado e agora com o regressado Ghazal volta a ter a principal referência de equilíbrio no setor. É verdade, mas mais à frente há outra carência que o onze sente muitas vezes: um clássico médio de segunda linha com qualidade (como era Diego Barcellos e não pode ser Rondon, como jogou em Setúbal, quase em 4x4x2 partindo-se o onze ao meio).

Neste momento esse parece-me mesmo ser ponto-chave: evitar que a equipa se parta taticamente em duas no meio-campo e que não aproveite, por isso, os momentos de recuperarão, e sofra tanto nos momentos de perda, sobretudo quando sucede no corredor central. Por isso, na busca dos equilíbrios vejo João Aurélio (num triângulo) mais útil a meio-campo do que a lateral.
A evolução de Gomaa para outras fazes de jogo pode ser uma solução. Ou até mesmo uma necessidade, porque é o jogador com melhor toque de bola do sector. Rondon sair da faixa podia ser uma solução, mas este é o tipo de avançado que só rende mesmo se jogar solto a toda a largura.

Estas são apenas algumas notas que tiro vendo jogar o Nacional. Percebe-se intenções, mas o talento que falta não pode ser sempre colmatado pela organização coletiva. Nesta altura a equipa tem de se proteger. Nos jogos, evitar partir-se quando perder a bola. Prioridade: defender o melhor que sabe para, aos poucos, ir percebendo por onde pode crescer (jogo e cabeça).

PODE O RIO AVE SER ESTA ÉPOCA O INTRUSO NO TOPO DA TABELA?

NOTAS 14 15 8 1Ainda é cedo para se desenhar os diferentes campeonatos que se vão disputar dentro do mesmo campeonato. O do título é claro (Benfica, FC Porto, Sporting) mas o da Europa e da luta por fugir à descida ainda não está bem definida. Há equipas que ameaçam em cair numa zona ou noutra. Em geral são as que ficam no tal objetivo de fazer um campeonato tranquilo. Acredito na colagem das equipas da Madeira ao duo minhoto na luta pelos lugares europeus (com o Braga, claramente, como equipa mais forte nessa luta) mas depois dessas realidades especificas fica a dúvida se pode existir um intruso como foi o Paços Ferreira (em 12/13, até à Champions) ou o Estoril (em 13/14 até ao quarto lugar).

O Rio Ave é, neste arranque, a equipa que deixa mais forte essa promessa. É natural que esteja a sentir algum peso físico em função da acumulação sucessiva de jogos (pré-eliminatórias europeias e pré-época mais cedo) mas demonstra uma boa ideia de jogo.

Pedro Martins varia o meio-campo entre um dois pivots e com isso inverte ou não o triângulo. Tem Tarantini sempre taticamente disponível para as duas funções. Tenta fazer a rotatividade possível. Acho que Jebor pode ser um jogador para crescer e ser útil durante a época. Desviar Diego Lopes mais para uma ala dá movimentos diagonais interessantes, e o jogador a jogar da faixa para o meio pensa na mesma bem o jogo, mas muitas vezes fico com a ideia que isso é mais para encaixar Bressan mais no meio. Um espaço que sinto é uma zona de conforto por vezes excessiva em face da sua pouca intensidade (embora excelente tecnicamente) e que podia ser, mais vezes, ocupado de origem pelo 10 natural: Diego Lopes.

Voltando à pergunta inicial, permanece a dúvida e a questão final: pode este Rio Ave ser, nesta época, o intruso no topo da tabela? Tem condições para isso.