Notas 2007/08

27 de Maio de 2008

1. Regulando emoções

“A anatomia do comportamento na era da comunicação”. Tema de uma conferência do cientista António Damásio na Gulbenkian. Ao encontro a Espinoza. “Uma emoção que não está controlada deve ser dominada não pela razão mas por uma emoção mais forte do que a primeira”. Não pensava em futebol, claro, mas, se o pretendesse, não podia ser mais especifico.

Controlar emoções faz parte do jogo. Sobretudo de jogadores que caminham nos limites. Ronaldo ou Quaresma funcionam no jogo como no mundos dos afectos. Excessivos, carinhosos, insatisfeitos, realizados. O ponto de viragem, a cada momento, a cada emoção, é a regulação das emoções. Não sai a primeira finta, tentar a segunda. Não sai outra vez. Então despertar uma emoção maior. Embora essa emoção seja aplicada através da razão. Para comunicar em campo. Consigo e com o grupo que o rodeia. Nos comportamentos humanos há um ciclo de prazer que pode levar a uma ruptura de toda a espécie de autorregulação. É tudo a que o jogador, primeiro, e a equipa, depois, deve fugir. Ao encontro do “jogar bem”.

2. Pivot-defensivo? Não. Pivot apenas.

Notas 2007 08A bola vem-lhe ter aos pés. Corredor central do relvado, na saída da meia-lua. Um-dois passos. No principio, portanto, é o sentido posicional. E, agora, o lado sensorial do jogo cruzado com a visão periférica e, claro, a execução técnica. Pensar rápido. Vira o jogo para um lado. Recebe, outra vez. Vira o jogo para o outro. A bola ainda vem a caminho e esse passe já tem de estar desenhado na mente. No segundo instante, é a dinâmica posicional dada pela execução pensada. É o pivot-defensivo primeiro como âncora. Depois, como vaso comunicante do jogo circular. Fecho os olhos e imagino Miguel Veloso a fazer isto. Penso que inserido numa estrutura de 4x3x3 (com um pivot apenas) e apoios curtos, em vez do 4x4x2 com distância entre-linhas, tudo isto respira melhor. No fundo, o grande objectivo de um pivot-defensivo é…deixá-lo de ser. Ou seja, deixar de fazer sentido colocar a palavra defensivo na sua definição.

Pivot apenas, pura e simplesmente. Ou primeiro pivot. Porque nada do que referi tem a ver com defender. Tem a ver com “jogar bem”.

3. Quique: tendências emocionais.

Cada apresentação de um novo treinador tem sempre algo de Fellini. Anuncia-se quase um mundo novo. Quique Sanchez Flores chega ao Benfica envolto na mesma aura. Quando vai embora o treinador antigo, os directores pensam “lá vai embora o problema”. Quando chega o treinador novo pensam “chegou por fim a solução”. Mas em breve surge novo jogo e a necessidade de ganhar outra vez. E, então, o circulo da ansiedade volta a surgir. Fala-se em projectos sólidos. O único que conheço no futebol actual é…ganhar o próximo jogo.

As relações sociais são a tradução das tendências sociais. Damásio outra vez, entrando por dentro do nosso cérebro. O que um homem lúcido pode fazer por aquele que não tem acesso à lucidez? Questão difícil. As relações e tendências sociais traduzem-se em emoções sociais. A relação do treinador com o mundo que o rodeia (jogadores, directores, adeptos, imprensa) tem muito de tudo isto. Conceber o futebol sem conceber as emoções humanas é impossível. Para, fora do relvado, descobrir como “jogar bem”.