Notas 2007/08

13 de Maio de 2008

Notas 2007 08

1. Cajuda; refém de si próprio

Depois de várias qualificações para a UEFA, Cajuda cometeu o feito histórico de apurar o Guimarães para a Champions. Ninguém, porém, fala dele para treinar um grande. É estranho, dirão. Um pouco, mas há razões para tudo isto. Criou oestilo e a personagem ideal para ser a vanguarda dos clubes da chamada segunda linha (Braga, Guimarães ou Marítimo) que treinou sempre com sucesso. Em campo, a cada substituição, levanta-se e dá um abraço ao jogador que sai. Fala muito, conquista objectivos e até chega a conversar com o adepto que fica atrás do banco. Junto com as competências tácticas, foi essa personalidade que o fez ganhar. É ela, porém, que, paradoxalmente, o impede de crescer. Como se fosse refém de si próprio. Como fosse um treinador cartoon que só existe nos 90 minutos ou quando fala à imprensa. Deveria mudar de estilo? Talvez. Mas é impossível. Porque deixaria de ser Cajuda. Deixaria de ter a essência que o faz ganhar. Resta-lhe continuar com os seus pequenos milagres. E, depois, rir-se atrás das portas, das ilusões do nosso futebol.

2. O treinador no banco

Os adeptos criticam os que ficam sentados, sem falar para o campo. Adoram os que se levantam e gritam para os jogadores. Trata-se, no entanto, talvez do acto mais estéril do jogo. Tirando uma indicação mais precisa, numa paragem de jogo, no resto os jogadores nem ouvem. Mas este é um espectáculo que vende. As reacções do treinador no banco. Durante as transmissões televisivas o chamado repórter de pista passa quase 90 minutos com essa missão. “Fulano ainda não se levantou e continua sem falar para o campo”. E a reacção é logo de cepticismo. Mas como não fala? O homem já não sabe o que deve fazer, pensa-se logo. Noutras ocasiões “Fulano está de pé desde o primeiro minuto e não para de dar indicações”. E surge a reacção oposta. Isto sim, é um treinador. Tem mesmo é de gritar com eles.

No jogo de imagens que faz e desfaz um treinador, o melhor mesmo é optar pela opção que mais sossega adeptos e acalma os nervos. Quando uma atitude estéril e primitiva acaba por ser aconselhável, o futebol está a uma passo de entrar num colete de forças.

3. De Vítor Oliveira a Ulisses Morais

Ignorando debates entre velhas e novas escolas, ainda há técnicos que conseguem atravessar o tempo sem olhar para o lado. Vítor Oliveira, embora sem chegar à chamada primeira linha, tem passado ao lado dos choques geração. Nem me parece, aliás, que isso seja o mais importante.

O segredo para este lado intemporal da interpretação do jogo (e do treino) reside em não criar dogmas, evitar trincheiras de época e beber de todas as tendências. Depois, dar-lhe o cunho pessoal e criar uma filosofia própria.

Na fogueiras das competências, a Liga voltou a revelar, quase confidencialmente, outro treinador que, sem ter o jogo da imagem a seu favor, tem, na forma de jogar das suas equipas, o da competência do seu lado. Ulisses Morais. São onzes que sabem sempre como se colocarem e mover em campo. A Naval, embora mais forte pelos flancos (laterais e extremos) do que no corredor central (sem médios fortes de segunda linha) foi das equipas que melhor soube defender-se dos seus defeitos. A este nível, essa é a principal qualidade de um treinador.