Notas 2007/08

06 de Maio de 2008

1. O mistério da segunda bola

Custa-me ver equipas que iniciam a saída de bola com um pontapé longo para o meio-campo do adversário em vez de o fazer desde trás de forma apoiada. Parece que não confiam nos seus jogadores. Não é bem assim. No fundo, preferem saltar essa zona de risco onde perder a bola pode ser fatal e optam antes por tentar ganhar um ressalto, a chamada segunda bola, mais à frente. Há jogadores especialistas nisto. E com isso a equipa ganha personalidade na mesma.

Cajuda gosta de dizer que não sabe o que é uma segunda bola. Pode, no entanto, estar descansado. Os seus jogadores sabem-no. Uma noção com nome e duas pernas: Flávio Meireles. Não é, sem dúvida, um jogador de requintes técnicos. Joga no limite, mas na capacidade de ganhar duelos divididos está o elixir do futebol actual: intensidade de jogo e capacidade de suportar o seu aumento. É algo que vive para lá da técnica, mas que também cruza a táctica no sentido posicional para estar no local certo para atacar e ganhar a tal segunda bola. Porque, ok, em rigor, só há mesmo uma bola em campo….

2. O destino da Académica

Ser da Académica é quase um acto de cultura mas há vários anos que não é um clube fácil para os treinadores. Vemos a lista dos últimos 15 anos (Alves, Vítor Oliveira, Nelo Vingada, Machado, etc) e nenhum saiu do Calhabé com o ego muito em alta. Também depende, claro, da qualidade da equipa, mas pressente-se que há algo mais nos subterrâneos do clube.

Esta época, dois jogadores foram chaves para o salto da qualidade de jogo da equipa na fase decisiva da época: Nuno Piloto, a pivot-defensivo, e Luís Aguiar, a pivot-ofensivo. Em 4x1x3x2, eles foram, na dinâmica das transições, primeiro o princípio do equilíbrio, e, depois, o factor de desequilíbrio. Isto é, por ordem de avanço no terreno, o sentido da posição (primeiro passe) e o lado móvel criativo (último passe). A equipa uniu o bloco, pode subi-lo com mais segurança e, com o labor de Cris e a versatilidade de Miguel Pedro, passou a estender-se melhor. Domingos conseguiu a permanência e vai continuar. O desafio de marcar uma era na Académica é um dos mais difíceis do futebol português.

3. Edson, o horizonte da Mata Real

Notas 2007 08Há jogadas que parecem o espelho de uma época. A Mata Real via o jogo com o coração nas mãos, a lutar por fugir à descida. Olhava para o José Mota e parecia que ele sentia estar a orientar a equipa sobre areias movediças. E era um pouco assim. Até que Edson pegou bem na bola sobre a direita, aproveitou o escorregar de Polga e arrancou para a baliza, entra na área, outra finta para dentro passa o guarda-redes, entrada da pequena área, baliza aberta, remate meio em queda, olhares estáticos, promessa de golo e, sobre a linha, Tonel tira e alivia para longe. Edson levanta-se olhando para o banco. Há neste momento quase como uma comunidade de sofrimento entre todo o grupo. Sente-se o carácter da equipa, mas falta-lhe o lado técnico do jogo. Como dizem os poetas sul-americanos, “o horizonte está sempre um pouco mais além”. Para o Paços esta época também foi sempre um pouco assim. O jogador não é mais que um projecto de atingir esse horizonte. Edson percebeu, nesse lance, como por cada passo que damos, ele afasta-se na mesma distância.