Notas 2007/08

15 de Abril de 2008

1. Ordenar para «desordenar»

O treinador define a equipa, prepara a táctica, coloca os jogadores em campo mas não é ele que depois decide quando este cruzam ou rematam. Há, portanto, um lado cientificável do jogo, espécie de grande plano, e um lado imprevisível, incontrolável, espécie de plano micro. Quer isto dizer que os jogos podem sempre a qualquer momento fugir ao controlo dos treinadores? Não necessariamente. É para isso que existe o modelo de jogo, os grandes princípios que fazem o plano macro e são como o escudo protector dos imponderáveis do plano micro. É por isso que é fundamental o posicionamento táctico em função do local da bola para que o onze (o colectivo) nunca se desposicionar quando um jogador (o individual) tome uma decisão errada no jogo. Ou seja, as equipas (organizações) precisam saber desordenar-se (estratégia que confunde o adversário) mas, para isso, é imperioso nunca perderem a ordem (o modelo que segura a equipa).

Portanto, só equipas com 100% de ordem podem promover a sua… desordem.

Em Portugal, nenhuma o consegue com total eficácia.

2. Marcar os «trincos»

O centro de gravidade em campo mudou muito nos últimos anos. Desapareceu o organizador clássico e agora busca-se noutras zonas para descobrir o centro do pensamento. O Marítimo de Mossoró e Felício ganhou na Naval, mas Ulisses Morais justificou a derrota pela sua equipa não ter conseguido anular Bruno e Olberdam, os médios defensivos de Lazaroni. A ideia era, por um lado, impedir o adversário de começar a pensar e, por outro, pressionar e roubar a bola nessa zona subida, colmatando a dificuldade da equipa em conduzir transições longas, pois não tem médios no corredor central com essa capacidade.

Quando a bola entra na segunda linha, também falta quem temporize em posse. Por isso, frente-a-frente duas equipas de perfil oposto. O Marítimo que tende a puxar sempre o jogo para as zonas interiores. A Naval que faz transições pelas faixas (com os laterais e os alas João Ribeiro-Marinho). Falhando a pressão, a Naval perdeu o controlo do corredor central (já que pelos traços dos jogadores em confronto nunca o iria dominar) e perdeu o jogo.

3. Trofense: Vendo a II Liga

Notas 2007 08Assisto ao Varzim-Trofense e vejo um jogo intenso entre duas equipas articuladas com losangos em sistemas diferentes. No 4x4x2 do Varzim, Tito, pelo inicio das transições, e Marco Cláudio, pelo passe, são, claramente, médios de I Liga. No Trofense, percebe-se que a equipa joga carregando o peso do sonho da subida, inédito em 78 anos de história.

Demora a soltar-se. O seu losango estende-se numa estrutura reciclada pelo técnico Toni nos últimos três jogos num 3x4x3 com tracção defensiva, pois em vez de alas puros, tem dois médios que só descaem sobre as faixas a defender (André Barreto e Pinheiro) ficando Zamorano encostado aos três centrais e Ricardo Nascimento, cuja lentidão por vezes trava o jogo mas acaba por ter o lado positivo de permitir à equipa organizar-se, atrás dos avançados, Reguila, no centro, e Rui Borges-Moukori nas faixas. A equipa tem sempre largura mas falta-lhes velocistas nas alas. Pela forma como controla os jogos, sem preocupações estéticas, o onze tem, no entanto, o perfil tradicional dos candidatos à subida.