Notas 2007/2008

08 de Julho de 2008

Notas 2007 2008

1.A perfeição «imperfeita»

Leio uma reportagem com Penélope Cruz e fico intrigado quando, descrevendo o seu trajecto, fala-se de como se achava feia desde niña e pelo que passou até ao ícone de produtos de beleza que hoje se tornou.

Vendo bem, Penélope foge aos cânones de beleza mais tradicionais, seja lá isso o que for. Nariz meio grande, batata mesmo, a face desalinhada.

Acho que não existe, no entanto, beleza imperfeita mais… perfeita do que a de Penélope. Olhos, expressão, gestos, andar. É esta frase uma contradição? Talvez. Mas acho que faz sentido. Perguntarão o que tem isto a ver com futebol? A construção de beleza, bem como a sua noção e avaliação, não é uma questão natura, como que ditada pelo destino. Tem algo que não se explica. Sente-se. E faz-se sentir. Um jogador é um pouco assim também. Constrói a sua própria beleza particular a partir daquilo que os livros consideram imperfeições. Dá-lhes a volta, até elas fazerem parte de uma personagem sedutora. Gestos, andar, toques, passes. Juntem-lhe o rímel, no primeiro caso, a bola, no segundo. Chega a ser perfeita mesmo. Até nas imperfeições.

2. Equipa estilo «John Wayne»

Notas 2007 2008Numa das últimas madrugadas, fazendo zapping, deparei-me de repente com um velho western de John Wayne, talvez dos menos interessantes, O Álamo, e, quando já ia a mudar de canal, fixei-me na cena em que, destemido como sempre, Wayne preparava estrategicamente um conjunto de 500 texanos para enfrentar uma dura batalha contra… 5.000 mexicanos! Preparar uma equipa de futebol mais pequena, com menores e mais fracos argumentos para defrontar outra com mais e melhores soldados acaba por não ser muito diferente. Tudo se resume à estratégia. Criar ilusões no adversário, mostrar-lhe a pele sem descobrir todo o esqueleto.

É decisivo sabermos defendermo-nos dos nossos defeitos. Depois, definir planos de ataque específicos com escapatórias (transições defensivas) bem afinadas. Claro que John Wayne tinha a vantagem de em qualquer cena dominar todo o cenário. Qualquer batalha, mesmo a mais desigual, parecia uma mera formalidade. No futebol, não é assim. Por isso, a importância da estratégia. Quando inteligente, o futebol tem o dom do improviso e isso pode fazer toda a diferença.

3. O jogador vulgar

Notas 2007 2008Construir uma equipa pode ter muitos pontos de partida filosóficos. Penso nisso a propósito de uma frase de Oscar Wilde: “Sou um igualitário. Para mim, todas as classes são vulgares”. Quando começa a pensar na sua equipa e como ela deve jogar, o treinador pensa numa posição antes das outras? Se assim for, seja ela qual for, está desde logo a definir uma hierarquia táctica no seu onze. As definições futuras, mesmo que de forma inconsciente, vão ficar condicionadas por esse princípio. Começar por pensar em todos as posições (e seus jogadores) por igual torna o início da construção da equipa mais consistente. Estende os seus pilares por todos os sectores. Neste caso, em termos de corolário colectivo, o organizador de jogo é sempre aquele que…tiver a bola a cada momento. Sentir-se importante para ser capaz de ler todo o grupo. Esteja o jogo onde estiver, a equipa tem de sentir sempre os pés bem presos à relva. Começar por pensar na vulgaridade, para, depois, a igualdade de importância táctica ser feita pela excelência de cada posição, de cada jogador.