Notas Internacionais 14/15 (18)

24 de Dezembro de 2014

Notas Internacionais 14/15 (18)

1. BOLASIE: BOLA DE OURO DOS SONHOS IMPOSSÍVEIS

Ver uma equipa por causa de um jogador. Pode acontecer. Um exemplar que, confesso, me provoca esse efeito nem aparece nas primeiras páginas ou citado para grandes transferências. É Yannick Bolasie, extremo solto congolês (nascido em França, dupla-nacionalidade britânica) há três épocas no Crystal Palace (após Floriana de Malta, Plymouth, Barnet, Bristol City, entre outros). Está com 25 anos, a que chamam a idade da maturidade futebolística. O jogode Bolasie, porém, é dum miúdo da rua.

Empolga pela forma como recebe a bola, as fintas com truque que também mete nos passes, as bruscas mudanças de velocidade e invenções que faz, mas sem cair nos malabarismos individuais ou longas correrias. O futebol de Bolasie é artisticamente simples. Cada finta tem um objetivo. Joga desde a ala esquerda, é destro, tem África no corpo (internacional pelo Congo) e faz da bola, última geração ou de trapos, um brinquedo.

Porquê, então, estarão a questionar-se, se é esta maravilha toda, nunca saltou para um grande clube? O futebol tem desígnios insondáveis que a razão desconhece. O admirável mundo de Bolasie parece uma ironia dentro dele. Dentro das análises técnico-táticas, dificilmente cabem a resolução de enigmas deste tipo.

Procurem um jogo do Crystal Palace, sigam-no com descontração e depois digam qualquer coisa. Uma vez o imortal Armando Nogueira definiu fintar como revirar o vento, cata-vento nos pés. Adoro quando posso aplicar estes termos a jogadores meio desconhecidos que me fazem esquecer as amarguras do futebol. Ele é o meu Bola de Ouro do futebol feito de sonhos impossíveis.

2. ALLARDYCE: WEST HAM NA MÁQUINA DO TEMPO

É um dos treinadores mais fiéis à história estilística do futebol inglês. No jogo e no estilo. Sam Allardyce comete em todas as suas equipas a proeza de, primeiro, as meter na máquina do tempo (fazendo-as revisitar os idos anos 70, meados dos 80) e ver como antes no aéreo jogo inglês os pontas-de-lança e defesa raramente tinham os dentes todos, e, logo depois, as devolve, com esse ensinamento, ao tempo presente, onde a bola já desceu à relva. Assim procura conciliar duas épocas sem nunca hipotecar o seu estilo genuíno. Esta época, está a construir a sua equipa à navalha no West Ham, em quarto lugar à 16ª jornada.

Neste trilho, Big Sam pode mudar de sistema (como sucedeu nas ultimas jornadas, de 4x3x3 para 4x4x2) mas não muda de estilo. E, na frente, tem o atual ponta-de-lança inglês mais antigo no estilo: Andy Carrol. Cada bola metida nas alturas na área é meio-golo. Ele vai lá cima com uma potencia que impressiona e cabeceia para onde quer. Foi assim que destruiu o Swansea da cultura de posse, subitamente abanado pela cultura do jogo direto. Contra o Sunderland meteu a velocidade móvel de Sakho ao lado e contra-atacou melhor. Vendo esta alteração, Downing, ala puro, adapta-se para jogar mais no meio.

É improvável que a equipa termine num lugar tão alto na classificação. O triunfo do estilo-Allardyce está, porém, garantido. E os adeptos adoram.

Não acho que seja por entenderem de tática e a analisarem com calma. É porque os faz vibrar e aos mais velhos andar vinte anos para trás.

Haverá coisa na vida melhor do que essa?

3. Tática: O futebol russo e o futebol na Rússia

Notas Internacionais 14/15 (18)Zenit e CSKA caíram da Champions. Apesar dos investimentos faraónicos que fazem, as grandes equipas russas não descolam internacionalmente.

Seria um debate longo a busca das razões.

O Zenit ataca com os seus jogadores (o poder Hulk-Danny) e defende com o seu sistema. Nesta frase, encontram-se as diferentes sensações que a equipa me transmite. É difícil a Villas-Boas dar-lhe um conceito de posse quando a equipa atrás tem uma noção de jogo posicional diferente da dinâmica que metem os avançados. Por isso, perde tantas vezes o controlo do meio-campo. E, assim, sempre que vejo este Zenit recordo outro anterior que tinha um fantástico meio-campo na mecanização e interligação posicional com que jogava (Denisov-Zyryanov-Shirokov).

Ainda hoje quando entra Fayzulin sinto que a equipa melhora logo. E, reparem, só falei em jogadores russos. É fácil imaginar o que será um balneário no choque cultural entre russos e estrangeiros que, por mais valor que tenham, chegam impulsionados sobretudo pelos milhões do que pelo desafio desportivo. As, digamos, solicitações sociais da vida russa farão o resto nos efeitos dessa vida futebolística em sentido lato. Por isso, o título fala no futebol russo e no futebol na Rússia. Um é inimigo do outro. O treinador pode querer controlar a tática, mas não controla o que rodeia socialmente a cabeça dos jogadores.

O CSKA de Slutskiy é uma boa equipa também quando sai rápida para o ataque com Musa e Doumbia. Noutros espaços, também sofre para estabilizar o jogo e, na Champions, custa ver como Dzagoev joga tão descaído sobre a esquerda. O seu caso é, aliás, mais profundo e entrar na mesma equação-enigma. É um dos maiores talentos da sua geração mas encravou na evolução da carreira. Nada acontece por acaso. Para procurar o seu melhor futebol teria, primeiro, de se procurar o melhor habitat para ele.