Notas Internacionais 14/15 (19)

02 de Janeiro de 2015

Notas Internacionais 14 15 (19)

TORRES: ESPAÇO, TÉCNICA OU MENTE?

Um jogador nunca perde a sua essência ao longo da carreira mas os locais por onde passa podem mudar-lhe a forma de ser. Dentro do campo, no jogo, isso pode levar a concluir que ele se transformou mesmo. Fernando Torres é um desses casos.

Na altura em que, aos 30 anos, vai regressar ao seu At. Madrid, olhamos o seu trajeto por Liverpool, Chelsea e Milan, e fica no ar a pergunta: por que não teve a sua qualidade reconhecida mais continuidade? Quem pergunta é sobretudo quem não suporta os seus defeitos. Penso que a resposta é um pouco simples. Por que não se pode ser protagonista e ajudante (guerreiro e poeta) ao mesmo tempo.

O seu futebol (avançado-centro de vocação) foi encolhendo sempre que se encurtavam os espaços de terreno para se mover (e correr atrás da bola).

Nunca foi um n.º 9 muito forte na receção. Foi sempre mais de passada larga e bola metida na sua frente. Por isso, jogou bem no At. Madrid com espaços e pode renascer agora com o sistema-Simeone (no mesmo estilo em que jogava Diego Costa, pedindo-lhe coisas semelhantes).

O outro lado, é mental e passa por quem o treina (bem como adeptos e analistas que o seguem todas as semanas) saber aceitar a natureza do jogador e perceber que, no futebol, o segredo do sucesso é conseguir meter essa qualidade no que é distinto de clube para clube. Muitos jogadores não o sabem fazer sozinhos. Como Torres. Entristecia depressa, diziam os que se incomodam com a cara que tantas vezes que punha nos jogos. Este tipo de jogadores precisa de quem os leve nessa descoberta guiada.

Conclusão: o jogador pode ser grande, mas o futebol como jogo é maior.

TAYFUN AS EMOÇÕES PODEM GANHAR JOGOS?

É o segundo técnico turco da história a treinar uma equipa na Alemanha (o outro foi Ozcan Arkoc, nos anos 70/80). A forma atraente de jogar do seu Hannover 96, despertaram, porém, a atenção sobre o que esconde os pensamentos futebolísticos de Tayfun Korkut, que antes passara pelas camadas jovens de Stuttgat e Hoffenhaim (para além de adjunto da seleção turca). Como jogador, Tayfun foi um médio trabalhador da seleção da Turquia. Quando, porém, a Real Sociedad o convidou, em 2007, para treinar os seus Sub-19, percebeu-se logo que existia mais coisas na sua forma de pensar o jogo. Recentemente, ouvindo-o numa entrevista, foi fácil descobrir um homem que sente o futebol com o chamado primado da humanização da tática. Ou seja, para ele “as emoções também podem ganhar jogos”. A equipa como um estado de ânimo, um fator que faz muito (para o bem e para o mal) da personalidade futebolística turca. Depois de uma época difícil, mudou muito a equipa, era improvável que as novas peças encaixassem tão depressa. A chave esteve em perceber bem as características dos jogadores.

Nos últimos jogos, a equipa caiu um pouco na tabela (está em 8º) mas os princípios de jogo continuam presentes, com Joselu como n.º 9 de um 4x2x3x1 que mete Stindl solto nas costas, a entrar desde trás, e Kiyote a furar desde a esquerda (enquanto que, na direita, formando o duo japonês do onze, se destacam as subidas do lateral Sakai).

Veremos como será a segunda volta da Bundesliga mas, projetando o futuro, Tayfun Korkut, é hoje, com 40 anos, dos treinadores do cenário europeu que merece ser seguido com maior atenção.

MUNDIAL DE CLUBES: Como a Europa se distanciou da América do Sul

O Real Madrid venceu o Mundial de clubes mas ninguém, no fim do jogo ou em seu redor, ficou muito eufórico com isso. Desde que a FIFA decidiu acabar com a Taça Intercontinental a jogo único (no Japão) este Mundialito reúne equipas de todas as confederações. Para elas, da CONCACAF, África e Oceânia, é mágico, mas para os europeus retirou entusiasmo ao confronto direto com os rivais sul-americanos. Ele acaba por acontecer, mas já noutra atmosfera e, sobretudo, marcada pelos atuais ditames do futebol em que, cada vez mais, fica notório, mais do que questões desportivas, a diferença de poder entre Europa e América do Sul.

Este Real Madrid-San Lorenzo foi, nesse sentido, penoso de assistir para quem tem na memória aqueles duelos titânicos intercontinentais de outrora. Hoje, o poder financeiro europeu esmagou o confronto, sobretudo quando jogado tanto tempo depois das finais da Champions e da Libertadores. Desde essa data, o San Lorenzo para além de perder os seus defesas-centrais, vendeu a dupla atacante: Correa, para o At.Madrid (emprestado ao Rayo Vallecano) e Piatti (ao Montreal dos EUA). O Real Madrid para juntar ao seu onze, ainda adquiriu Kroos e James. O jogo tornou-se, assim, numa mera formalidade. Foi sempre o que o Real quis, mesmo quando o San Lorenzo, no fim, cresceu um pouco.

De Lisboa a Marraquexe, fica, porém, um nome: Sérgio Ramos. Numa equipa que brilha pelos avançados, foram dois cabeceamentos seus, bem no alto (mais épico o de Lisboa, claro) que abriram o caminho aos títulos. Junto com Pepe, ele forma uma dupla de raça. Ramos mais no corte, Pepe mais no posicionamento e sobretudo na velocidade de reação para ir buscar bolas nas costas o que permite a defesa/equipa jogar 40 metros subida no terreno.

Eles foram as figuras duma Final que mostrou como as duas faces do futebol (Europa-América do Sul) estão, na elite, cada vez mais afastadas.