Notas Internacionais 14/15 (21)

13 de Janeiro de 2015

Notas Internacionais 14 15 (21)

1. PUYOL: A MÃE ESTÁ AGORA MAIS TRANQUILA

Há jogadores que são exemplares únicos. Não os conseguimos comparar com ninguém. Nem no passado mais remoto. Puyol é um desses casos. Os colegas chamavam-lhe Tarzan mas eu acho que a única forma de encontrar alguém parecido será na banda desenhada mais pura e olhar para Asterix. O mesmo porte baixote, destemido, cabelo comprido, desgrenhado. Mas há uma diferença. Puyol não jogava com um cantil de poção mágica atado à cintura. Tudo aquilo era natural.

Acabou de pendurar as chuteiras. Existem, porém, coisas positivas nesta hora. Quais? “Desde que me retirei a minha mãe vive muito mais tranquila”, diz.

É que Puyol não sabia jogar de outra forma. Como defesa-central ou lateral, dava tudo. Apesar de ter 1,78 achava-se com 2 metros. Essa diferença entre a realidade e a ficção tornou-se por vezes no seu maior inimigo em muitos lances de choque em que entrava com tudo quando a diferença física para o adversário era enorme. Para um avançado baixinho é diferente, porque a sua missão é fintar e fugir do defesa. Para um defesa é o oposto - deve ir no lance dividido e tal acabou por resultar num acumular de lesões que foi decisivo para ter de parar, aos 36 anos, após algum tempo sem jogar. Vai continuar, diz, com o mesmo visual. Ainda bem.

O futebol animado perdeu o melhor habitante da sua aldeia irredutível de grandes apaixonados pelo jogo. Puyol, Asterix do Barça e da Espanha campeã do mundo. Era, por isso, que Osvaldo Soriano dizia que o “futebol é desenhos animados para adultos”. É a melhor definição (ou, talvez, a que mais gosto) para o (meu) futebol.

2. ODEGAARD CONTO DE FADAS GÉNIO POR DECRETO

Fico sempre mais assustado do que empolgado quando vejo toda esta loucura em torno dos chamados génios que ainda com a casca de ovo na cabeça muitos dizem logo ser grandes craques. Ás vezes até são. Na maioria, porém, não são e toda esta encenação só lhes turva a careira.

Desde o início irrealista até descobrir o seu real valor, o que, salvo com os tais génios raros, só se descobre calmamente no passar do tempo.

O novo fenómeno é um miúdo norueguês de 16 anos. Martin Odegaard, avançado inventor com a bola. Já é internacional pela sua seleção. Gosto, claro, do seu futebol, mas causa alucinações ver a loucura que o Real Madrid faz hoje com ele. Treina com o onze principal e é seguido por Zidane no Castilla. Fala-se em 1,5 milhões quando ele ainda nem pode assinar um contrato profissional.

Olho para tudo isto e só penso uma coisa: Odegaard deve escapar quanto antes deste milagre com que o rotulam.

Penso que é impossivel construir um grande jogador sem partir de determinada prexistência genética mas, mesmo com isso, não existe formula mágica dele depois o ser na vida real, nos relvados, na carreira senior.

É impossivel fabricá-los sem essa componente desde o berço mas até os predestinados devem obedecer a um processo: primeiro, lapidar o seu talento. Depois, insistir no mesmo. E, por fim, ter a recompensa por tudo isto (feito do berço aos relvados). O futebol atual, porém, não vive destes filmes. Como todo o espetáculo que é hoje o mundo, ou é ficção científica, conto de fadas ou drama. Cada vez menos conta a verdadeira realidade.

3. TÉCNICA: Podia ser o melhor lateral-esquerdo de todos os tempos

Gareth Bale. Cada vez me perturba mais vê-lo jogar. Pela simples razão de que o acho um fenómeno como jogador, mas cada vez mais penso que não faz falta à equipa onde joga, o Real Madrid. É isto uma contradição? Não, mas para não ser é porque algo não está mesmo a bater certo.

Tudo resulta da sua transformação posicional na carreira. Explodiu, no Tottenham, como lateral-esquerdo mas como o seu poder atacante era tanto, passou para quase extremo, na mesma ala. Depois, estatuto adquirido, passou a jogar solto, no meio, segundo avançado. Veio para o Real Madrid mas com Ronaldo na esquerda, teve de ir jogar para a... direita. E foi nesse ponto que começaram a mudar as coisas.

Como é muito veloz, continua a explodir nessa faixa, mas termina quase sempre de forma deficiente as jogadas porque lhe falta o melhor pé (o esquerdo) para o fazer. Ás vezes perde tempo à procura dele (nesse momento perde o timing e enquadramento com a jogada/bola), noutras finaliza mesmo com o direito sem igual eficácia.

Assim, o melhor Bale do Real aparece só em 4x4x2 e ele joga solto na dupla da frente. Ou, claro, quando Ronaldo não está, e joga na esquerda (como na Final da Taça da época passada onde fez um golo na jogada explosiva do ano, fintando em corrida um jogador do Barcelona contornando-o com uma volta fora do relvado até apanhar a bola muito à frente dele).

Por isso, como quase nunca joga onde melhor o faz, Bale não faz sentido na maioria dos jogos do Real. A solução? Sair para um clube que o deixe jogar na esquerda ou, no Real, no lugar em que ele não quer: lateral-esquerdo. Faria tudo o que fez de melhor na carreira, continuaria ofensivo e seria, muito provavelmente, o melhor de todos os tempos nessa posição. Assim é um bom jogador de picos quase sempre a partir de locais errados. Muito pouco (e desolador) para a qualidade que tem.