NOTAS INTERNACIONAIS 14/15 (23)

20 de Fevereiro de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (23)

1. POLÓNIA: AS PRISÕES DO ESPELHO

O campeão polaco, Legia de Varsóvia, que visitou o Ajax demonstrou como fica uma equipa quando duvida sobre a verdadeira força que tem.

Dominador no seu país, entrou num esquema de três centrais que fazia baixar Vrdoljak quando não tinha a bola (para o meio de Rzezniczak e Junior). A missão era marcar o ponta-de-lança adversário, por ironia, um dos melhores nº9 polacos da atualidade, Milik, promessa de 20 anos.

Depois, em posse, Vrdoljak dava uns passos em frente para ajudar a sair a jogar.

Um 5x4x1 sem bola que quando a recuperava queria ser um 3x4x3, sem desfazer o duplo-pivot mas soltando um lateral no apoio ao trio ofensivo onde vivia um ponta-de-lança, à espera da bola, o português Orlando Sá.

Após uma primeira parte esquecido na frente de ataque, viu “outra equipa” a apoia-lo após estar a perder (com um golaço de Milik).

Dinamizado pelas subidas do lateral-esquerdo brasileiro Guilherme (também ex-Braga) percebeu, por fim, que tinha mais capacidades do que as que pensava e o fez entrar tão encolhido. Zyro, 22 anos, é, na esquerda, um belo ala, tecnicista, esguio (1,89m) parece ir perder sempre a bolas mas ganha-as depois quase todas e finta bem, embora não seja rápido. Orlando Sá teve três bolas na área mas o golo não apareceu. Acabou 1-0.

O facto de, porém, ter aparecido a tal “outra equipa” na postura (mudando o “chip” tático-mental) prova como muito no jogo depende da forma como um onze se reconhece a si próprio. Quando mudou a forma de se olhar ao espelho, o Legia passou a mandar no jogo. Faltam as ultimas palavras (fintas, remates) de Varsóvia.

2. CELTIC: CORAÇÃO AO PÉ DA TÁCTICA

É a equipa mais sincera do futebol europeu. Na atmosfera mais arrepiante. Ver e sentir o Celtic no seu Estádio, com os adeptos (novos, velhos, mulheres, crianças, todos) a festejarem um empate no último minuto em comunhão com os jogadores como se tivessem ganho um titulo, lava a alma do futebol mais puro.

Este Celtic tem o código genético das equipas escocesas tradicionais mas sem a qualidade individual que possa fazer a diferença . Após várias épocas orientado por Neil Lennon (que procurava um estilo mais apoiado) tenta agora, com Ronny Deila, novo treinador norueguês, conciliar ambos os estilos mas no clássico 4x4x2 acaba sempre na procura rápida dos homens do ataque, a dupla Johansen-Griffiths, ficando Armstrong e Mackay-Steven nas faixas, com Brown a mandar na condução do meio-campo, que tem no trinco Biton o elemento mais posicional. Com laterais a subir (Matthews-Izaguirre) o onze empolga sempre que tem a bola embora, depois, nas transições defensivas sofra muito. Nada disso, incomoda as bancadas que vivem o jogo da mesma forma que antes aplaudiram os heróis campeões europeus de 67. É que este jogo tinha a carga histórica de defrontar o velho adversário desse tempo, o Inter. No último minuto, o golo de Guidetti (3-3) explodiu os corações.

Em locais onde a história se sente desta forma, o presente, mesmo longe desses tempos de glória, faz sempre sentido e educa gerações. Como aquelas todas, cruzadas e unidas, que víamos em cada imagem das bancadas do Celtic Park.

3. TÁCTICA: LUCAS: DE VOLANTE SUL-AMERICANO A PIVÔ EUROPEU

No último Brasileirão, foi um dos melhores volantes do torneio, chefiando o meio-campo do campeão Cruzeiro. De repente, a Europa olhava para este garoto de 21 anos: Lucas Silva. Com as lesões de Modric e as dúvidas sobre Khedira, o Real Madrid viu nele uma boa opção de futuro num espaço que após a saída de Xabi Alonso ficou órfão de referências indiscutíveis, apesar do poder de Kroos (a outra opção, no duplo-pivot é Illarramendi, que sente-se não ter a dimensão de jogo exigida para este nível).

Lucas, no entanto, não tem a mínima cultura de pivot europeu. Tem a de volante sul-americano como chefe inicial de elaboração de jogo mas avançando no terreno. São culturas tácticas muito diferentes a necessitar adaptação. A ajudar nesta percepção em torno do “transfer” do jogo de Lucas, estava a ideia do Cruzeiro de Marcelo Oliveira era, no estilo, talvez a equipa mais “europeia” do futebol brasileiro, com um jogo mais em profundidade e não tanto apoiado e de toque.

Foi essa base que permitiu a lucas entrar tão bem no onze do Real frente ao Schalke como interior direito ao lado de Kroos. Em suma: simplificou o jogo. Sai a jogar dando a bola em um-dois toques e também se coloca bem para a recuperação. Não foi, é verdade. um jogo muito exigente, mas as bases do posicionamento e ação-reação são visíveis desde logo em qualquer cenário. Não tentou passes longos para não errar. Jogou curto e bem. Depois, mais confiante, aventurou-se a ir ao meio-campo adversário.

E voltar. Quando Kroos subia, tinha a noção táctica de ficar e proteger-lhe as costas.

Acredito que pode fixar-se na equipa mais rapidamente do que se imaginava. O futebol vive de bons jogadores... inteligentes. Esta última palavra faz toda a diferença no sucesso dessa adaptação.