NOTAS INTERNACIONAIS 14/15 (26)

16 de Março de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (26)

1. TÉCNICA: QUATRO ESPÉCIES DE AVANÇADOS

Os avançados podem ser de vários tipos e o ideal para uma equipa seria ter no plantel um de cada espécie. Um possante fixo, um rápido, um habilidoso móvel e um falso, segundo-avançado.

Muito do que uma equipa é a atacar depende do tipo de avançados que maioritariamente tem. Por isso, rapidamente se cataloga como de contra-ataque uma que tenha avançados essencialmente rápidos. Nem sempre é assim.

Depois, há aqueles avançados que mesclam estas sensações. Raramente são grandes craques e até criam, com essa confusão de espécies, dúvidas quanto ao seu real valor.

Dois jogadores que me suscitaram essa sensação nesta grande de futebol foram Higuain e Lukaku. Já o tinham provocado noutras alturas. Não duvido quanto ao valor que têm mas sinto sempre duvidas em relação á utilidade que podem ter num ou noutro modelo (ou até simples sistema) de jogo.

Higuain tem desmarcação, dá profundidade e finaliza bem (com agilidade em passada larga). Podia ter sido mais coisas no Real Madrid mas em equipas tão grandes raramente esse lado transformador dum avançado consegue triunfar (senti o mesmo, em Madrid, com Huntelaar).

Lukaku tem técnica mas impressiona sobretudo pelo físico que, mesmo usando a... técnica, mete nas jogadas. O golo de Naysmith que ele inventou resulta de uma luta pela bola e choques/lances divididos com adversários que no fim termina com um grande passe.

Foi como se, de repente, ele condensasse todas as quatro espécies num só jogador, num espaço curto de poucos centímetros de relva. Um jogador multiplicado em quatro numa simples jogada!

2. ROCK: AOS 90 MINUTOS COMO NO PRIMEIRO

O futebol turco nunca foi famoso, mesmo nos melhores tempos áureos, pela sua beleza competitiva. A chave sempre foi a atitude (táctico-técnica, por esta ordem) dos seus jogadores e treinadores mais pensadores, como o imperador Terim.

O novo Besiktas é orientado por um técnico invulgar, saído do relvado da mesma forma que dum palco numa banda de heavy-metal. E o curioso é que neste caso isto é mesmo verdade, não é metáfora. Bilic fazia (ou faz, não sei) as duas coisas. Agora, no banco do Besiktas, como antes da Croácia, busca o compromisso entre carácter e técnica.

A equipa quer ter a bola no meio-campo e, em 4x3x3, tem bons médios para isso. Veli Kavlak é um pivot que sabe jogar e Ozyakup será, talvez, o único verdadeiro nº10, no presente e para o futuro, em que o futebol turco pode apostar. No resto, tem uma defesa bem posicionada e aguerrida, e avançados que querem resolver (como Tore-Sahan nas faixas).

O problema, depois, é dar a este onze a estabilidade emocional para perceber as diferentes coisas que um jogo pede. Ele joga, age (e reage) da mesma forma seja qual for o resultado. A ganhar ou perder. Sucedeu contra o Brugge, onde acabou a perder (2-1) depois de estar a ganhar.

Na frente de ataque, continuo a ver Demba Ba como uma peça de um puzzle diferente que, por vezes, encaixa sem se perceber muito bem taticamente porquê. É. no fundo, a personificação como nº9 de tantas sensações contraditórias que a equipa nos dá durante 90 minutos que parecem jogados desde o inicio como só faltassem cinco para acabar o jogo.

3. TÁTICA: O CASO DOS AVANÇADOS QUE NÃO AJUDAM A EQUIPA

Uma crise numa grande equipa nunca é vista da mesma forma que a crise numa pequena (ou média) equipa. Se nesta procura-se análises tácticas, na outa rapidamente se buscam culpados individuais.

Depois do natural apontar ao treinador, segue-se, quase simultaneamente, o ego dos jogadores. O Real Madrid caiu nesse fosso analítico. Nada de que não possa sair com a mesma naturalidade com que entrou. Mesmo que para isso tenha de recorrer ao raciocínio da equipa pequena e pensar que existe mais coisas antes do ego e jogadas dos seus craques.

Mesmo antes do sobrenatural jogo com o Schalke, já Ancelotti tinha dito a mais perturbante das frases: “a equipa não tem ajudado os avançados!”. Assim mesmo, quase como se fossem entidades distintas e os avançados (o sector do egos) vivesse num mundo à parte do resto dos mortais que vestem a mesma camisola.

Os avançados são Benzema, Ronaldo e Bale. Destes, só vejo problema em Bale que na direita faz de cada arranque a inversão da ordem natural do bom futebol. Quando um grande jogador se torna um problema na equipa é porque algo está mesmo errado dentro dela. E a melhor forma de o descobrir é pegando na frase de Ancelotti. Porque uma equipa não vive assim e os avançados nunca podem ser essa espécie de galáxia distante.

Existem sempre, claro, jogadores que defendem menos, mas a natureza inquebrantável do jogo (e equipa) é algo que nunca se pode perder. No Real, até faria mais sentido dizer que os avançados não estão a ajudar a equipa, mas mesmo assim o pensamento teria as mesmas bases erradas de separação.

Ao perder o seu cérebro de jogo, inicio de construção e equilíbrio, a equipa perdeu os elos de ligação entre as suas distintas formas e níveis de vida. Modric é esse grande educador da “classe operária táctica” que a equipa necessita para voltar a ser outra vez uma só. Nada disso começa nos avançados.