NOTAS INTERNACIONAIS 14/15 (27)

26 de Março de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (27)

1. TÁCTICA: MARCHISIO, A VIDA DO Nº6 PÓS-PIRLO

A Juventus passeou taticamente em Dortmund (passando do 4x3x1x2 inicial para 3x5x2, com a lesão de Pogba, aos 25 minutos, metendo Barzagli) e assumiu a dimensão internacional que este onze pode ter. Allegri percebeu isso na questão do sistema preferencial (opção pela clássica defesa a “4”) mas onde a equipa impressiona mais é pela rotação táctica-física-técnica do seu meio-campo.

Neste ponto, há algo que pode ser uma heresia dizer, mas penso que, a este nível, o sector ganha outra rotação sem... Pirlo. Ou seja, não há dúvida da qualidade catedrática de Pirlo (que depois cima transforma livres quase em penáltis) mas em termos de ritmo de jogo e poder de recuperação, a equipa baixa de intensidade com ele. A equipa sente quase obrigatoriedade (mais do que necessidade) que a a bola passe por ele no inicio de construção.

Notou-se em Dortmund essa diferença. Um ritmo alto de posse e recuperação metendo a pivot outa referencia estilística: Marchisio. Não é, no entanto, uma inovação tão grande porque de 37 jogos que Marchisio fez esta época, 17 jogou exatamente nessa posição, como “regista recuado”, garantindo equilíbrios e também abrindo os horizontes da posse à equipa. Faz isso com um controlo de ritmos notável e maior aceleração do que Pirlo.

A compatibilidade entre os dois, faz com que Marchisio jogue muitas vezes a 8 (onde até sobe mais para rematar) mas projetando a sua evolução de carreira (e a evolução da equipa) penso que ela passa por criar mecânicas e leituras de jogo a partir da posição de “6 regista”. Visão de jogo com intensidade.

2. BRUGGE A TÁCTICA E BOLIGOLI

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (27)É a grande sensação da Liga Europa, saído da dócil campeonato belga, para mostrar como o bom futebol se faz de técnica e bom posicionamento táctico: é o Club Brugge de Preud`homme. Venceu na Turquia o Besiktas (1-3) mas sobretudo mostrou uma perfeita articulação entre os três sectores.

Desdobrando-se entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 com as entradas desde trás de Vormer nas costas do ponta-de-lança esguio e mais fixo De Sutter, mantem dois pivots atentos na cobertura (Simons-De Fauw) num esquema que, nestes jogos europeus, faz descair o israelita Rafaelov para uma ala, a esquerda, fechando mais quando o onze perde a bola, (a outra hipótese é o brasileiro Felipe Gedoz, que também dá largura e técnica o ataque) enquanto que no plano interno joga mais por dentro, permitindo uma postura mais solta e ofensiva da equipa, então na frente dois extremos mais puros, como Izquierdo ou Boligoli que, neste jogo com o Besiktas apareceu só na parte final (substituindo então o colombiano Izquierdo) fazendo dois golos.

Com apenas 19 anos, Boligoli-Mbombo é um miúdo de 19 anos, primo de Lukaku, crescido na formação do Brugge mais como ala mas que soube aproveitar os espaços livres na adiantada defesa turca. Ele é, no fundo, mais um exemplo de como o futebol belga de formação aproveita o viveiro africano, sobretudo do Congo, antiga colónia (outro exemplo é o guineense Obi Oularé, 19 anos, um nº9 com 1.96m!). Metendo conceitos tácticos e físicos no crescimento sustentado na sua natureza formam depois jogadores fantásticos na forma como olham para o jogo e se movem nele.

3. TÉCNICA: QUAIS AS RAZÕES PARA A CRISE DE JOGO DA ROMA?

É das crises mais intrigantes do futebol europeu. A queda da Roma de Rudi Garcia. Depois de ter seduzido a época passada, perde-se agora como uma sombra errante em campo. Encontrar as causas é buscar factos em locais diferentes. Desde longo, falhou no mercado de contratações. A ausência de um ponta-de-lança clássico e de qualidade indiscutível é um dos factores fundamentais. É impossível exigir a Totti (aos 38 anos) que seja um falso 9 com essa eficácia ao longo de toda a época.

A saída de Destro para o Milan agora em Janeiro intriga ainda mais, tal como a aposta em Doumbia, um nº9 de profundidade mas sem o nível alto que a equipa necessita nesta altura.

Passa, assim,, a ser uma equipa essencialmente de jogo exterior, com a velocidade de Gervinho a ser o principal catalisador mas sem poder de finalização no meio. As boas equipas a jogar pelos flancos são só, no fundo, um principio para uma... boa equipa. Falta depois relacionar esses espaços com as zonas interiores e esta Roma de Garcia tem essa dificuldade, acabando muito dependente dos impulsos individuais, de Gervinho ao talento instável de Ljajic. As boas exibições de Iturbe (lesionado) encaixavam nessa mesma linha de pensamento.

A meio-campo, a lesão grave de Strootman retirou o “tapete de controlo táctico” dos jogos debaixo dos pés da equipa. Quando é um jogador como Naigolan ou De Rossi (lutador mas sem o mesmo critério de circulação) a tomar conta desse espaço percebe-se como o conceito global de jogo muda, mesmo que o treinador não queira. A aposta em jovens talentos como Paredes ou Verde, um baixinho robusto que é um mistura de médio com avançado, é uma tentativa de encontra novos incentivos para o onze. Em cada jogo, porém, que se vê hoje jogar a Roma fica a pior sensação para o lugar do treinador: a impressão de estar a perder tempo (para reconstruir).