NOTAS INTERNACIONAIS 14/15 (30)

13 de Abril de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (30)

1. KRUL-DEFOE: PODE O GUARDA-REDES SAUDAR O ADVERSÁRIO PELO GOLO?

No último derby mais escaldante do norte de Inglaterra, o Sunderland venceu o Newcastle no último minuto da primeira parte com um golo fabuloso de Jermain Defoe, recentemente regressado ao futebol inglês vindo de Toronto, Canadá. O golo emocionou o jogador que chorou no relvado embora no fim confessasse que não sabia porquê: “não, não houve razão especial, nada tem a ver com regresso ou ser no fim. Foi mais forte do que, não sei explicar, não consegui controlar o que senti sem saber porque o estava a sentir”.

O subconsciente de um grande jogador pode às vezes ser mais forte do que tudo nas reações em campo. Bem dentro dele, Defoe sentia esse golo como um grito e forma de dar sentido a tudo a que antes (nem sempre bem valorizado) já fizera.

O maior debate viria, porém, em torno do guarda-redes que sofreu o golo.

Quando iam no túnel, a caminho do balneário, Defoe passou por ele e Krul não hesitou em sorrir-lhe e tocar-lhe com a mão na cabeça. Os adeptos do Newcastle viram as imagens na TV e ficaram furiosos.

Pode um jogador felicitar o adversário que lhe marcou um golo, mesmo dramático, num derby, no último minuto. Pode, mas nunca nenhum adepto (que não existem para ter pensamentos estruturados, só emocionais) o irá entender. Krull já disse que não tem nada que pedir desculpa e o faria outra vez. Neste gesto fez como que uma “outra espécie de grande defesa” ao remate de Defoe.

Em tudo, ambos expressaram emoções (o choro e a felicitação) que não conseguem explicar porque as tiveram. E o futebol é mesmo isso: uma emoção com a qual se joga. Não procurem explicações.

2. MENÉZ: O ESTRANHO RENASCIMENTO NO MILAN DE INZAGHI

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (30)Um jogador nunca é um “livro fechado”. O renascimento de Menéz, um talento insolente que se autodestrói por quase todas equipas por onde passa, acaba por ressurgir no local mais improvável, uma equipa em crise de identidade, o Milan de Inzaghi. Tornou-se no segundo melhor marcador da Liga italiana, com 16 golos (só Tevez marcou mais um).

É difícil encontrar as razões por questões tácticas. Em 4x3x3, joga com liberdade desde a esquerda, ou mesmo como ponta-de-lança, como acabou em Palermo, indo para o lugar de Destro, e marcando numa arrancada fantástica de 30 metros e remate. A explicação vem mais de descodificar mentalmente no que é este jogador “por dentro”.

Não tem as características de um grande jogador, mas tem os... conceitos de um grande jogador. Ou seja, o tal factor estranho de acontecer numa equipa em crise de identidade até será, afinal, um factor de enquadramento ideal para um jogador de contrastes que cresce melhor nesse caos, onde o seu talento se sente em casa, do que numa equipa bem estruturada colectivamente em que o lado insolente do jogo o sufocava.

Desta vez, aparece para o fazer sobressair. Porque Menéz também se tornou num jogador/talento sem identidade. Só de circunstâncias.

No meio de tudo, outra questão: pode Inzaghi vir a dar mesmo um grande treinador? Penso que sim. Tem conhecimentos e paixão para isso. Falta-lhe crescer noutro tipo de contexto. No atual, corre o risco de cair na “fogueira de competências” em que se tornaram Milan e Inter nos últimas épocas. E nunca ser o que é, mas sim o que outros pensam que ele é.

3. A NOVA CULTURA DE “CONTROLO TÁCTICO” DO ZENIT

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (30)O Zenit vai ganhar a Liga russa e agora coloca-se o desafio internacional da Liga Europa onde vai defrontar o Sevilha nos quartos/final (e sem Hulk, suspenso, na primeira mão). Nos relvados russos esta equipa manda claramente.

É uma autoridade imposta de forma taticamente cada vez mais “latina”. O “jogo do titulo” provou isso. Em casa, contra o CSKA, não quis dominar o jogo nem assumir um bloco muito alto. Optou pelo primado da organização defensiva, meio-campo em contenção/pressão com Javi Garcia a pivot posicional (trinco puro) e Witsel-Ryazantsev como interiores gerindo muito bem o timing de avanço no terreno em função do que podiam deixar nas costas. Por isso, a transição era feita essencialmente quase sempre em segurança, procurando depois esticar na frente para Hulk (que jogou a nº9, com Rondon, habitual ponta-de-lança titular no banco) ficando Shatov e Danny (mas sempre jogando “por dentro”) a partir das faixas.

Desta forma, retirou a ideia de aplicação do contra-ataque ao CSKA e Musa, o nigeriano veloz que joga a nº9, nunca encontrou profundidade para a meter devido ao bloco recuado do Zenit. Foi, tacticamente, uma lição de “como roubar espaços”.

Esta opção mostra, também, uma transformação (não lhe chamo evolução) de André Villas-Boas, antes dogmático da cultura de posse. A bola pode no entanto ser controlada de outras formas. Este Zenit mostrou evoluir nessa cultura estratégica, a ideal para o tal “transfer” de identidade para o nível europeu. Colocar o futebol russo (e, mais difícil, os jogadores estrangeiros a jogar na Rússia) nessa dimensão é o verdadeiro grande desafio de Villas-Boas no Zenit. Se o conseguir, ganha pela táctica e pelo talento das “explosões e bombas” de Hulk. O principio está, porém, na nova ordem da.... organização.