NOTAS INTERNACIONAIS 14/15 (37)

25 de Junho de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS 14 15 (37)

1. LEICESTER: SENSACIONAL RECUPERAÇÃO DO ONZE DE VARDY

É a sensação da época em termos de recuperação para evitar a descida. O Leicester de Nigel Pearson. Afundado no último lugar, fez uma recta final alucinante e salvou-se mesmo antes do último jogo. Descobrir o segredo para esta transformação não é fácil num campeonato onde a alta intensidade de jogo é comum a todas as equipas.

Olhando a sua forma de jogar diria que a base foi a afinação defensiva e a ligação com o ataque do exigente sistema de três defesas (3x4x1x2, com três centrais) invulgar no futebol inglês. Steve Bruce não conseguiu esse equilíbrio no Hull (também com defesa a “3”) e desceu.

No Leicester, com o trio Wasilewski-Huth-Morgan atrás, o “cimento tático” foi dado a meio-campo por Cambiasso á frente da defesa, sem o mesmo fulgor do passado mas com noção perfeita do sentido posicional.

Nunca se meteu, em campo, em aventuras (subidas no terreno) que não podia controlar. Os cursores das faixas foram Albrighton (um extremo hoje mais responsável a defender) e Schlupp, enquanto nas costas da dupla ofensiva destacou-se Mahrez, esquivo argelino que mete repentismo no jogo.

Por vezes, o sistema na frente variava entre o “1x2” e o “2x1”, em face dos recuos e avanços dum segundo-avançado que foi a revelação do onze, Vardy, 28 anos, e que há três ainda jogava futebol amador no anónimo Fleetwood! Agora está às portas da seleção inglesa. Foi ele que esteve sempre no apoio ao gigante Ulloa (1,90 m), um “carro de assalto” em forma de nº9.

Uma equipa que empolgou ver jogar nesta parte final com a inspiração de Kasper Schmeichel, honrando o nome da família entre os postes.

2. ESCOLA: NOVO “PROJECTO DE XAVI” DA ESPANHA SUB-17

Criar uma escola e cultivar a formação de jogadores que saibam assegurar a linha sucessória desse estilo de jogo. Na última década, a Espanha (fazendo da qualidade técnica de passe a essência da sua táctica) tornou-se uma referência de como se constrói esse processo. Uma ideologia que trespassa todos os escalões. Claro que a melhor operacionalização da ideia depende da qualidade oscilante que, naturalmente, cada geração tem, mas em qualquer época existe a intenção de formar jogadores para esse estilo.

O principio da hereditariedade está em criar médios de toque, na linha de Xavi ou Iniesta. É algo quase tão difícil como criar pandas em cativeiro. Mas eles vão aparecendo, como pode ser Thiago no pós-Xavi.
O mais fascinante, porém, é detectar esses protótipos de jogadores já desde escalões de berço. É o que acontece na seleção Sub-17, que surgiu agora no seu Euro, com um interior nº6 que sobe alguns metros em posse com visão, toque e passe. Fixem o nome: Aleña, 17 anos e nasceu, claro, na escola do Barcelona.

No mesmo processo de criação de um novo estilo, a Alemanha mantem a sua potencia muscular como base mas busca continuar a incutir um traço mais técnico-apiado no seu jogo.

Vendo a sua seleção sub-17, essa mescla nota-se num jogador super-rotativo que deve esconder um motor dentro do corpo: Passlack, 16 anos, do Dortmund. Destro, pode jogar em qualquer lugar, faixas preferencialmente, da segunda linha do meio-campo. É muito rápido, com técnica de condução da bola, passando assim adversários com finta em progressão e remate. Um jogador que cansa só de ver. Se o conseguirem acompanhar em campo nessa dinâmica, não o percam de vista.

3. FRANÇA SUB-17: "BERÇO" DE SONHOS DE UMA FANTÁSTICA GERAÇÃO DE CRAQUES

Há equipas, expressão duma geração a nascer, que não nos deixam ficar só a admirá-las (na qualidade de jogo e magia individual) apenas no presente e torna-se irresistível projetar o que poderá ser o futuro de tanto talento. É o que sucede com a seleção da França sub-17 campeã europeia em 2015.

Uma equipa que é o novo sonho de futebol gaulês do momento. Expressão tradicional da miscigenação que faz o seu futebol, tem (em 4x3x3) vários jogadores para guardar num local especial de observação.

O ponta-de-lança Edouard, 17 anos (do PSG), nascido na Guyana francesa, técnica, passada larga e golo; o médio organizador-criativo nº10 Bilal Boutobba, 16 anos (do Marselha, onde se tornou com Bielsa no jogador mais jovem da sua história a jogar na I Liga), tem um pé esquerdo visionário no passe com capacidade desequilibradora, rasgando defesas; e o extremo Nanimato Ikone, 17 anos (do PSG), esguio e com uma ginga corporal alucinante no um-para-um, rápido a fugir e inventar lances para golo.

Eles são os trio encanta desta seleção, onde também há que reter o lateral esquerdo Maouasse (uma espécie de novo Evra em potência), 16 anos (do Nancy), robusto e muito resistente fisicamente a subir e recuar pela sua faixa, precisando de dosear melhor o esforço, e o nº8 Cognet, 17 anos (do Lyon) transportando jogo de trás para a frente e vendo bem a baliza quando chega à frente.

Em todos estes craques ainda em gestação nota-se, claro, a necessidade de limar ainda muitos fatores. Posicionamentos, timings de decisão, gestão física, etc. O essencial, porém, está lá e alucinou a todos neste Euro: muito talento.

Como moldura uma escola de futebol francês que, desde os anos 70, trabalha muito bem a cultura táctica sem nunca com isso comprometer a imaginação técnica (e características físicas, mesmo dos mais franzinos) dos seus “petit garçons” craques.