NOTAS INTERNACIONAIS (24)

27 de Fevereiro de 2015

NOTAS INTERNACIONAIS (24)

1. SEVILLA: O ATAQUE RÁPIDO ORGANIZADO

O Sevilla continua a defender o seu título da Liga Europa. A forma como ganhou em Monchengladbach revelou, mais uma vez, a matéria táctica de que é feita a equipa de Emery. Um onze que parte da forma como se estrutura e aguenta posições a defender para depois sair rápido no contra-ataque que, no fundo, se traduz mais num ataque rápido organizado. Coisas diferentes em termos de princípios e conceitos de jogo.

Nesse momento de recuperação/saída é interessante ver como aguenta bem a posição dos laterais. Não os deixa sair logo com receio de perder a bola em primeira instância. O segredo está na densidade do corredor central (com Kruchowiak-Iborra no duplo-pivot defensivo) e no soltar à frente deles de Banega para colocar ordem no jogo como “placa-giratória” de construção metendo a bola nas alas, para a velocidade em condução de Aleix e Vitolo, com Bacca referência nº9 que mobiliza os centrais adversários.

A prova da importância táctica dos laterais nestes termos, viu-se na primeira mão quando, para mexer na equipa, Emery trocou aos 54 minutos o extremo Reyes para meter um... lateral, Diogo, e assim adiantar Aleix Vidal que começara o jogo atrás.

O publico assobiou, mas em poucos minutos passou a aplaudir porque a equipa resgatara o equilíbrio para atacar melhor (algo que raramente passa pelo pensamento simplista de meter mais avançados).

Emery sabe isso, mexe bem na equipa, e, depois, tem um ala que parece deslizar tecnicamente pelo campo: Vitolo. Elegância pura. Prémio de estética (e eficácia) da semana europeia.

2. TORINO: A CERTEZA DO QUE SE ESTÁ A FAZER

NOTAS INTERNACIONAIS (24)Nesta espécie de “mini Liga Europa-italiana”, as cinco equipas da “bota da europa” passaram aos oitavos. A que causa me mais sensação atualmente, como tem provocado no campeonato, é o belo Torino do experiente Giampiero Ventura, treinador de velhas e duras batalhas do Calcio.

Este seu onze tem os genes transalpinos com a modernidade pressionante dos tempos modernos do ataque rápido. Seguindo a linha italiana, também monta um sistema preferencial de três centrais (Maksimovic-Glik-Moretti) que se torna a defender em cinco defesas (quando baixam os laterais Darmian-Molinaro que, depois, em posse, rapidamente se soltam no apoio ao ataque).

No meio-campo, um triângulo chefiado por Gazzi com dois interiores abertos à sua frente, que, sem Benassi, foi, em Bilbao, Vives na meia-direita, fechando bem, e o sábio El Kadouri, na esquerda, numa dinâmica inversa, abrindo bem na faixa em posse, transformando-se então quase num puro ala para os últimos 30 metros. Na dupla de ataque, o faro goleador do “trota-mundos” Maxi Lopez e Quagliarela (ou o esquivo Martinez).
A equipa tem a picada de veneno do contra-ataque mas a base está na cultura defensiva de toda a equipa (está em 9º no Scudetto mas tem a 4ª melhor defesa do campeonato) que, sem bola, organiza-se rapidamente, sem pestanejar.

Ganhou em Bilbao nessa estratégia, construindo o resultado em cima de uma estabilidade táctico-emocional que lhe permite respirar serenamente (e reagir) nos momentos mais difíceis do jogo. Só a cultura táctica de ter a certeza do que se está fazer pode permitir a uma equipa jogar assim.

3. TÉCNICA: A VIRTUDE COMEÇA EM SABER ENGANAR BEM

NOTAS INTERNACIONAIS (24)O crescimento de um jogador depende muito de algo invisível: o que tem verdadeiramente dentro dele. Porque o talento ou as características mais fortes são fáceis de identificar. O problema é saber o que ele vai fazer de tudo isso. E, claro, também os treinadores. Um caso que desde o primeiro momento me suscita esse pensamento é Morata, então no Real o miúdo da cantera no meio dos craques. Agora surge na Juventus ao lado de Tévez (4x3x1x2).

Após a exibição contra o Dortmund, arrisco dizer que é o melhor ponta-de-lança espanhol da atualidade. Tem técnica de execução na finalização como tem de recepção, é forte de cabeça e nunca foge das bolas divididas. Não lhe peçam é para driblar. A sua especialidade é a área.

Sempre achei que a primeira virtude de um ponta-de-lança é parecer... inofensivo. Pode parecer estranho, mas nessa primeira impressão ele, no fundo, engana pela primeira vez os defesas que olham para ele e pensam que ali está um nº9 que não vai chatear muito. O jogo, depois, é outra coisa. Quando ele revela o lado futebolístico dessa aparência dócil.
Seguindo o trilho do Real, faz-me recordar Santillana, ídolo com quem aprendi, nos anos 80, a gostar de ver os resumos na televisão espanhola com a imagem cheia de grão.

Santilla era um ponta-de-lança com apenas 1,75! Nunca vi, no entanto, ninguém a jogar tão bem de cabeça como ele. Os seus cabeceamentos eram notáveis de direção e execução, aliados a um timing de salto perfeito. E chegava mais alto ou primeiro do que centrais duros e muito maiores, porque, após o tal jogo das aparências, revelava a matéria de que verdadeiramente era feito o seu futebol.

Mas, calma. Morata não é Santillana. Só que ter-me provocado essa mesma sensação, neste seu inicio de carreira (22 anos) já é um começo que me faz gostar dele. Porque engana (enganou-me) bem.