Notas sobre a Bundesliga

23 de Setembro de 2010

Notas sobre a Bundesliga

O inicío da época é o tempo ideal para a aparição dos chamados pequenos heróis. Será o que está acontecer, esta época, no arranque da Bundesliga. Cinco jogos e o Mainz (cinco vitórias) na frente, isolado. É improvável manter a posição, mas olhando o estilo de jogo e as tendências tácticas que dominam o actual futebol alemão (pontos fortes e fracos) este Mainz tem aquilo que basta para marcar a diferença táctica nos relvados da Bundesliga: é uma equipa bem organizada que não se desposiciona a defender.

Na Alemanha, quem tiver esta capacidade, tem mais de metade do trabalho táctico feito, em contraste com a maioria das equipas, mesmo os tradicionais gigantes. Porque, estruturalmente, continua a defender-se mal no futebol alemão, sobretudo nas transições defensivas, muito lentas, que depois expõem demasiado as linhas defensivas das equipas, quase todas elas constituídas por centrais lentos.

Diferente com os laterais, onde penso morarem actualmente os melhores da Europa, sobretudo em quantidade. Exemplos: Bastians e Schmelzer, laterais-esquerdos do Freiburg e Dortmund, respectivamente, Trasch, direito do Stuttgart e, claro, o motorzinho Lahm do Bayern. É também o caso do Mainz, estendido num 4x4x2 losango que ganha vida com o criativo Holtby, e sobe, na esquerda, com a passada larga do lateral Fuchs.

Dos clássicos grandes, destaca-se o renascimento do Dortmund (segundo a dois pontos). Estendido num equilibrado 4x2x3x1, construiu uma conexão de ordem e talento muito interessante em campo. Parte, no papel de um duplo-pivot, mas, depois, solta no corredor central desde trás (fugindo a marcações) o turco tecnicista organizador Sahin que, ao subir no terreno, conecta no centro da segunda linha do meio-campo com o dinâmico japonês Kagawa (belo jogador, rápido e com baliza). Esta conexão turco-nipónica, ligada com a verticalidade dos alas Grosskreutz, à esquerda (embora sendo destro) e o Blaszczykowski, polaco à direita, servindo o perigoso ponta-de-lança paraguaio Barrios (com processos simples de recepção e remate) fazem a força deste onze de Klopp.

O Bayern alterna entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2, variando a posição de Muller (entre ala e segundo avançado no centro) mas é só quando Ribery arranca desde a esquerda que o onze (muito pesado com Van Bommel e Schweinsteiger a tentar sair com a bola no corredor central) levanta voo. No último jogo (em Hoffenheim) virou o resultado quando passou para 4x4x2 (Olic-Klose na frente) e Pranjic-Lahm laterais ofensivos. O mais certo, cumprindo o destino, é acabar no topo, mas tal, no fundo, só revela a pouca versatilidade do actual melhor futebol da Bundesliga.

Schalke, Raul e Arnautovic

Notas sobre a BundesligaPor fim, após quatro derrotas, o Schalke ganhou em Freiburg. A equipa arrancou a Bundesliga sem o ritmo certo de jogo. Tacticamente, joga em 4x2x3x1, mas sem dinâmica nas transições, sobretudo ofensiva. Tenta jogar com alas, mas nem Farfan ou Edu, robustos mas pouco ágeis, dão profundidade. Raul surge como segundo avançado (atrás de Huntellar) mas, dessa forma, fica enjaulado entre os trincos e centrais adversários. Raramente recebe a bola com espaço. Em Freiburg, porém, Magath mudou para 4x3x1x2 (com Jurado médio ofensivo atrás de Raul-Huntellar, ficando atrás médios a marcar, Jones-Matip-Rakitic). Defendeu melhor mas o simples facto de ver o criativo Rakitic preso a missões essencialmente defensivas diz muito dos desvios conceptuais do onze.

O caso individual mais enigmático mora, porém, em Bremen: Arnautovic. Um talento de técnica e imaginação que, embora médio ofensivo por vocação, está jogar como avançado puro. Pelo talento que tem, joga bem (ou melhor, faz grandes jogadas) mas, com esta opção, o técnico Schaff dá um nó no onze e acaba por colocar no banco Hugo Almeida ou Pizarro. O meio-campo fica, então, algo vazio de organização, espaço que é ocupado por Hunt, outro rematador. O melhor lugar para Arnautovic é mais recuado, vindo de trás, mas como ele joga bem em qualquer posição, poucos notam que está fora do seu habitat…

De Diego a Ballack
23Viajando pela Bundesliga ficam na retina muitos jogadores. Por exemplo, gosto bastante de ver o Hannover pela sua dupla atacante, muito imaginativa: o norueguês Abdellaoue (origens marroquinas) e o marfinense Ya Konan. Também fantásticos, no Kaiserlautern, os rasgos de Ilicevic a apoiar o avançado-centro Lakic. O Wolfsburg muda de sistema e mantém Diego. Esta frase faz sentido, porque, no início, pode dizer-se que jogava numa espécie de «4x4xDiegox1», tal a importância do 10 brasileiro. Agora, McClaren monta um 4x4x2 losango, com Dzeko-Grafite na frente e Diego atrás. Chega mais depressa à baliza mas elabora menos a meio-campo.

Em Leverkusen, Ballack, aos 33 anos, regressou à origem, mas é impossível ser o mesmo jogador de outrora. Está, claro, mais lento, agravado com o facto de partir desde muito atrás (duplo-pivot do 4x4x2 ou 4x2x3x1). Sem velocidade, trava o jogo de onze que tem na frente uma bela dupla (Kissling-Derdiyok) forte e rematadora, bem apoiada pelos falsos alas que jogam por dentro, como Renato Augusto.