O “Astérix de cabelo curto”

29 de Junho de 2016

Para jogar bem no meio e descobrir espaços no centro, o segredo está muitas vezes em jogar bem... pelas faixas. É o poder de atração das dinâmicas interligadas das equipas. A França do futebol “engarrafado” pelo corredor central com um trio de médios suportado pelo trinco Kanté e dois interiores, Pogba-Matuidi, sobre “carris” meia-direita/meia-esquerda, sentiu isso frente à dura Rep. Irlanda montada num 4x5x1que fechava todos os caminhos à “invasão francesa” nos seus últimos 30 metros (fazendo cair o seu nº9 Long a cobrir a ala direita).

Mudou quando abriu com Coman na direita e tirou o tal trinco “táctico-burocrático” dispensável num jogo destes, Kanté. Nem foi por Coman ter feito uma grande exibição como extremo-direito mas porque dessa forma deu mais largura posicional ao jogo francês, arrastando e fazendo “dançar” as marcações irlandesas até abrir brechas no meio onde, por fim, Griezmann começou a ter espaços para se mover ou furar. Estava descoberta a fórmula para fazer crescer Griezmann pelo no centro da frente de ataque, o local onde a zona de pressão adversária o costuma sufocar mais. Fez dois golos e ia fazendo um terceiro que acabou numa expulsão do central irlandês Duffy.

Depois da revelação Payet a este nível, a França redescobria o seu “Asterix de cabelo curto”. É ele que tem o segredo da “poção mágica” do melhor futebol desta seleção gaulesa. Deschamps não o quer como um mero extremo pelo que o 4x3x3 francês é falso. Na mudança Kanté-Coman, assumiu desfazer o triângulo táctico de meio-campo e passar para um 4x2x3x1 que Griezmann faz variar quase para 4x4x2.

Deschamps tem um dilema: o que dá mais consistência (e força táctica) ao onze (o trio Kanté-Matuidi-Pogba) também é aquilo que mais prende a sua saída/profundidade de jogo. É um risco defensivo desfazer este triângulo, mas é quando ele se desintegra que Griezmann, com a anarquia (aparente ou real) nas movimentações atacantes, pode aparecer como “pequeno gaulês irredutível” que resolve jogos.

Nenhum jogador joga sozinho, mas muitos apenas necessitam que outros por perto “arrumem a casa tacticamente”, para ele se sentir confortável e andar à vontade pelo interior da equipa. É o caso do Griezmann

Shaqiri: O “golo-enigma”

Todos nós já marcamos um golo como o que Shaqiri fez à Polónia, num remate acrobático de bicicleta todo suspenso no ar. A maioria, porém, só o marcou em sonhos. A esmagadora maioria, claro. Não surpreendeu ser Shaqiri a marcar esse golo de sonho. Como também não surpreendeu vê-lo nos jogos anteriores quase passar despercebido.

No jogo em que apareceu melhor, a Suíça acabou derrotada nos penaltys. Tem bons médios mas acaba, na maioria dos jogos, refém do jogo excessivamente posicional deles na disciplina de cobertura.

De Shaqiri ficou a mesma ideia que tem deixado nesta sua fase da carreira. O seu talento desequilibrador presente-se sempre que pega na bola, mas são vezes demais as que deixa cair esses momentos que deviam de ser de “fazer a diferença” em momentos “vulgares” no jogo. Este jogo estava a ser a exceção.

Não sei em que parte do seu corpo se esconde a tecla certa a carregar para despertar o seu talento nesses momentos. Neste caso, não é um problema do resto da equipa. É dele mesmo. É, penso, um daqueles casos clássicos em que necessita ser “jogador do treinador”, para este trabalhar especificamente por ele, e assim tê-lo sempre “acordado” em campo.