O bigode e a técnica

08 de Julho de 2012

PLANETA DO EUROPEU (4)

Um bigode grande e farfalhudo num cabeludo baixinho que fazia o que queria da bola. Chalana. Era assim a nossa estrela há 28 anos quando, por fim, depois de 66 voltávamos a um grande Torneio. Éramos, aliás, a seleção mais forte nessa estética visual. No onze inicial, 6 jogadores de bigode altivo. Muita coisa mudou desde então. Igual, começar um Euro contra a Alemanha, em 84 ainda RFA. Diferente, os bigodes e o futebol a três dimensões:

Primeira dimensão: Nesse tempo, o poder físico germânico marcava mesmo a diferença. Sentíamo-nos pequenos à beira deles. A eclosão dos novos métodos de treino que dariam nova vida à técnica portuguesa ainda estava por nascer. Sem essa moldura, a geração de Oliveira, Humberto, Alves passou a carreira sem um Mundial ou Europeu. Custa a acreditar, recordando os craques que eram, mas a explicação é simples. Hoje, o argumento físico diluiu-se no saber táctico e no timing da técnica.

Segunda dimensão: Não é verdade que a inovação desta Alemanha moderna em relação aos seus clássicos onzes panzers que mais pareciam jogar de botas cardadas em vez de chuteiras, é ter jogadores, médios, mais criativos. Antes já existiram jogadores como Littbarsky, Hassler ou o próprio Matthaus, motor atlético robusto com técnica e remate. Dizia ele que "um alemão nunca se desconcentra". Nisso continuam iguais.

Terceira dimensão: A diferença é que só eles têm hoje esse criativo puro e de último passe: Ozil. Nós que sempre fomos um paraíso de médios tecnicistas não temos hoje um inventor descendente dessa espécie raçada de 10, mesmo que de rosto moderno mais operário, como é Ozil. É essa inversão histórico-estilística Alemanha-Portugal que mais me perturba antes deste novo confronto.

O nosso grande auto-desafio táctico é hoje conseguir recriar o meio-campo. Não perder a ocupação criativa desse espaço entre-linhas perto dos avançados. Não é fácil. Moutinho-Meireles são rotativos, mas dois 8 não produzem um 10. Porque isto não é questão de matemática táctica. São antes equações técnicas de futebol. Muito mais complicado. Ainda por cima, sem um único bigode no onze inicial.

O "livro" de Scharrs

Ter de adaptar um jogador a uma posição que não é a sua, é das situações mais delicadas para um treinador e sua equipa. É verdade que o futebol atual têm promovido os polivalentes, mas continuo a pensar que os grandes craques mesmo, em cada posição, são os seus especialistas. O segredo do bom jogador, mais do que fazer muitas posições, é saber fazer a mesma de formas diferentes, tendo como ponto de partida saber defender-se dos seus defeitos. Isto é, saber o que...não pode fazer. E, a partir dai, jogar.

Quando se faz uma adaptação, o previsível sucesso começa a imaginar-se pelas características (se é rápido, jogo aéreo, forte, etc) do jogador. É importante, mas o segredo do sucesso está num ponto subsequente, como explica Schaars, médio interior, falando sobre a opção de ser lateral-esquerdo na seleção. "Ou ocupo o lugar com velocidade e poder físico, ou com preocupação táctica, com posicionamento. Só o posso fazer desta maneira".

Ou seja, leu as suas características e em função disso imaginou-se naquele espaço, sua nova casa táctica imprevista. Em suma: é o jogador que faz a posição e não a posição que faz o jogador.