O Bloco de Notas de Van Gaal

10 de Janeiro de 2003

O Bloco de Notas de Van Gaal

Tacticamente, este Barcelona já testou vários sistemas, todos condicionados pelo perturbante dilema sistema-jogadores. No primeiro jogo da Liga (At.Madrid, E.1-1) actuou em 3x4x3, clássico sistema da escola holandesa, com Puyol como central, Mendieta e Cocu carrileros, doble pivot Gabri-Xavi, e Luis Henrique na esquerda do ataque. Á 7ª jornada (Alavés, V.6-1), alinhou em 4x3x3, sem doble pivot. Gabri foi médio ala direito, Mendieta defesa direito e Xavi trinco.

Na ronda seguinte, porém, em Santander (E.1-1), esquematizou um híbrido 3x4x1x2, com Puyol carrilero direito, Mendieta doble-pivot com Xavi, e Riquelme atrás de Saviola, na direita, e Kluivert. Na 12ª Jornada, contra a Real Sociedad, onde que era imperioso ganhar, optou por um rígido e cauteloso 4x2x3x1, Reiziger central, Mendieta no banco, Cocu doble pivot com Xavi, Mota ala-esquerdo, Saviola recuado e Kluivert sozinho na frente. No último jogo, contra o Huelva, regressou ao 4x4x2 com rombo, já testado com o Rayo Vallecano (D.1-0), com Riquelme, Mendieta e Saviola no banco, Rochemback na ala direita, Cocu na esquerda, Xavi trinco, Inesta enganche ofensivo, e, no ataque, nova dupla, brilhante em Mallorca (V. 4-0): Overmars, extremo-esquerdo típico, e Kluivet, ponta-de-lança. Um dilema táctico-existencial que sacrificou muitos jogadores, obrigados constantemente a mudar de posição, muitas vezes para postos quase contra-natura ou, por imperativos do colectivo, aprisionando-os em zonas do terreno que cortam as asas ao seu talento criativo. Um cenário desolador que levou á kafkiana dispensa de Rivaldo e hoje estanca a magia das suas estrelas.

Vejamos: Mendieta converteu-se em lateral direito, quase como um carrillero, sem liberdade para flectir para a zona central. Uma posição que inibe a sua maior especialidade: passes de morte para o golo. Neste cenário, onde até o mágico conejo Saviola se tornou em mais um operário, encostando aos flancos, quase como um extremo-direito e que coloca Riquelme a jogar numa posição que não é a sua, quase como um segundo avançado, quando sempre jogou mais recuado, partindo de trás para distribuir jogo e assim ter espaço para soltar a sua magia, salva-se a anarquia laranja de Kluivert.

Tácticas: Os sistemas de Van Gaal

O Bloco de Notas de Van GaalEm nome deste ideal colectivista muitos jogadores mudam contínuamente de posição, impedindo o criar de automatismos entre sectores, indispensáveis para a noção de equipa. Gabri, por exemplo, já jogou em quatro posições: Pivot, lateral direito, defesa-central e médio-ala direito. Puyol, o último símbolo do clube, alterna entre lateral direito e central, quer com defesa a «3» ou a «4».

Cocu, um esquerdino que sabe fechar os flancos como poucos no futebol europeu, alterna entre o centro e as alas. No último jogo, contra o Huelva, a nova experiência laboratorial passou por colocar Gérard, antigo trinco ou médio centro, a jogar como defesa central. Apesar desta desoladora primeira volta de Liga, ninguém tira o mérito, no entanto, ao excelente arranque do mesmo Barcelona na Liga dos Campeões: 10 jogos, 10 vitórias. Uma campanha vitoriosa, mas que foi lograda sobretudo frente a adversários da segunda linha do futebol europeu. Não se pode, portanto, falar num caso clássico de dupla personalidade, pois na Europa o Barcelona exibe as mesmas carências de jogo, só superadas pelo brilho das suas estrelas, responsáveis pela maioria das vitórias, conseguidas por entre o universo de contradições de Van Gaal.

Recorde-se, por exemplo, o jogo de Leverkussen, onde o Barcelona começou em 4x2x3x1 e passou 45 minutos sem interligar uma jogada, acabando a perder 1-0. No segundo tempo, com Riquelme e Saviola, passou a jogar em 4x3x1x2, chegou ao 1-1, e, no último quarto-de-hora, com Overmars, jogou num empolgante 4x3x3, virando para 1-2, golos de Saviola e Overmars, coroando 45 minutos de grande nível. Este Barcelona é, por isso, uma caso futebolístico de índole psiquiátrica. Apesar do pobre futebol apresentado, tem jogadores para construir uma grande equipa capaz de conquistar a Liga dos Campeões. Basta que joguem os melhores e nas posições certas. Uma combinação que faz do futebol o chamado The Simplet Game, o jogo simples, mas que não encontra espaço no bloco de notas quadriculado de Van Gaal.