O “caderno” de Capello

08 de Junho de 2010

A Inglaterra tem, aos poucos, mudado a face do seu jogo. A entrada de treinadores estrangeiros na selecção deu-lhe o upgrade táctico que muitas vezes lhe faltava. Após Eriksson, surge a era Capello. Subitamente, começa a falar-se na Inglaterra como um candidato a ganhar o Mundial. Mas, existem mesmo bases tácticas (jogo) e técnicas (jogadores) para sustentar esta ideia? Sim e não. Ou seja, por cada sector detectam-se jogadores de top mundial, mas olhando à mecânica do colectivo, subsistem muitos pontos que fazem recuar nessa ideia. Vejamos:

O particular contra o México (3-1) deu mais pistas para pensar. Em 4x4x2, o maior problema está na distribuição meio-campo. Existem Gerrard e Lampard, mas o jogador em relação ao qual Capello suspira pela recuperação é… Gareth Barry. Estranho? Nem por isso. Barry é um médio que, sem grande técnica, equilibra, com agressividade, as rédeas do meio-campo à frente da defesa. O chamado holdingrole, o papel de segurar a equipa, em tradução livre. Pressiona, recupera e empurra a equipa. Ninguém hoje faz tudo isto como ele no futebol inglês. As alternativas seriam Hudlestone, Parker ou juntar Milner e Carrick, como sucedeu contra o México, onde o onze inglês revelou grande debilidade defensiva no corredor central. Era a falta de Barry.

Todo este problema nasce de outra equação, a mais difícil dos últimos anos no futebol inglês: como conciliar Lampard e Gerrard, dois grandes jogadores, mas, na dinâmica posicional, demasiado parecidos. A solução para Capello passa por os colocar o mais distanciado possível dentro do meio-campo. Como joga num 4x4x2 clássico, pode ser com Gerrard sobre a esquerda (o que tem sucedido) e Lampard sobre a meia-direita ou mesmo sobre a outra ala, mas nesse caso retirava à equipa um extremo como Walcott (ou com o mesmo estilo) e a equipa perde logo profundidade. Juntar os dois no meio está afastado pois acabam por se sobrepor no mesmo espaço a avançar e recuar.

Sem Barry, a questão é ainda mais grave. Perde-se força a meio-campo e o mais provável será, então, puxar Gerrard para o meio. Teria então de outro lugar para Lampard. É este dilema que hoje atormenta Capello e trava o crescimento do jogo (sobretudo as transições defesa-ataque-defesa) da equipa.

No atraque, a duvida é saber qual o melhor ápio para Rooney. Será Crouch ou Heskey? Crouch é quem sabe sair mais da área para jogar mas a sua altura é uma atracção demasiado forte que leva a um jogo mais directo dos médios.

A possibilidade da Inglaterra poder lutar pelo Mundial estará na resolução destas equações tácticas. Local: meio-campo. Dupla a conciliar: Lampard-Gerrard. Principal protagonista: Barry

A vida sem Ballack

O “caderno” de CapelloO jogo estava quente e Boateng, médio aguerrido do Portsmouth já o tinha avisado de dedo em riste. Poucos instantes depois, a bola solta e eis a ameaça cumprida com uma dura entrada sobre Ballack. Os efeitos foram implacáveis: o alemão fora do Mundial. A Alemanha perde, claramente, o seu melhor jogador. Para o Low, o treinador, surge o problema: como o substituir? Não é fácil. Pelo valor de Ballack, mas também porque o futebol alemão já não gera médios possantes e com classe como antigamente.

Mantendo o habitual 4x2x3x1 surgem algumas hipóteses. O primeiro parecia ser Trasch, médio do Estugarda, mas uma lesão também o afastou. Nesse cenário, Low fica quase obrigado a uma opção mais ofensiva do lugar. Ozil ou Kroos são dois jogadores muito diferentes. São pensadores ofensivos. Ozil tem grande velocidade com bola. A sua entrada no onze dar-lhe-ia, desde logo, uma face mais ofensiva e empolgante. Kroos tem traços do velho Matthaus na forma como às vezes arranca com a bola e é aquele com maior qualidade de passe.

A solução mais consensual é, porém, Khedira. Tem experiência, cultura táctica e defende como ataca. Corta, transporta e remata. Não é um panzer como Ballack a queimar linhas mas lê bem o jogo nas suas diferentes fases. Se quiser seguir só o critério da força, então a opção de Low poderá ser puxar Schweinsteiger da ala para o meio.

Vendo a África do Sul

O “caderno” de CapelloJogar um Mundial em casa é uma questão de orgulho para a selecção que o recebe. Quando em nações da chamada segunda linha futebolística, se sonha mais alto do que seria noutras admissível. É o que sucede na África do Sul de Parreira. Vendo jogar o onze bafana-bafana esta semana contra a Bulgária (empate 1-1) foi, no entanto, evidente, a sua quase missão impossível.

Em 4x2x3x1, revelou uma presença física forte (é essencialmente uma equipa combativa) mas com muita dificuldade em meter imaginação e velocidade mecanizada no jogo. Os únicos traços de magia africana vieram dos pés de Tshabalala. A autoridade da equipa é, porém, o veterano Modise, partindo de um flanco. Trata bem a bola e a equipa sente-se mais serena quando ele a tem na sua posse. Khuboni é um trinco forte, mas a equipa demora muito a sair de trás. Moriri é o médio que melhor liga faixas e zonas interiores, mas Mphela, o ponta-de-lança, tem de mover-se mais para conseguir espaços para rematar.

Assim, ainda existirá espaço talvez para o velho Mccarthy.

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