O “castelo de fantasmas”

10 de Junho de 2016

Quando abri os olhos foi num tempo futebolístico em que a Inglaterra não ia às fases finais dos Mundiais. Era a coisa mais estranha que havia.

Porque ao mesmo tempo as suas equipas demoliam nas competições europeias jogando num ritmo que parecia em “projeção acelerada”, quase um filme de Chaplin com bola. onde os jogadores iam a todas as bolas as bolas e saltavam sem medo de ficar sem dentes. E muitos ficavam mesmo. Depois apareceu um pequenino no meio, Mickey Mouse Kevin Keegan, foi eleito o melhor da Europa e por fim eles reapareceram (mas sem nunca brilhar)

A verdade é que esta atração pelo futebol inglês e enigma da ausência nas fases finais tinha explicação. A sua abordagem ao jogo tinha parado no tempo, desde os anos 60, quando surgiram com um inovador 4x4x2 “wingless” sem alas. Existia uma cristalização de estilo “kick and rush” que, aliada ao nariz no ar de quem não tinha nada a aprender com os tacticistas continentais, como que isolaram, no discurso e no método, a “Velha Albion”.

Ainda hoje é comum acusar os jogadores ingleses de falta de criatividade. Não é, na essência deles, verdade. É, no pensamento do jogo. Os seus treinadores abriram-se pouco e quando o fizeram foi atrás da maior técnica dos jogadores que apareceram, desde Gascoigne a Waddle, até, depois, à geração-Beckham. Com treinadores estrangeiros (Eriksson, Capello).

A atual Inglaterra, como todas essas passadas, são produto de uma história genética secular que lhe condiciona muitos comportamentos. Até numa finta de Sterling sente-se algo estranho. O losango de Hodgson já vem desde o tempo de Eriksson. Tem mais de 12 anos na seleção inglesa. E ainda bem, mas o que hoje os faz mais jogar assim é meter os pontas-de-lança na frente. A tentação de meter o herói Vardy no onze, ao lado do indiscutível Kane, fá-los voltar a cair no 4x4x2 quando todos os seus jogadores (bons médios e até com Rooney já vocacionado para jogar mais atrás ou descaído) pediam o 4x3x3.

Vejo esta Inglaterra-2016 como via as primeiras que descobria em miúdo. Prisioneiras do tempo. Do seu e do dos antepassados. Jogam (ganham ou perdem) como num “castelo de fantasmas”.

O estilo pode voltar a ganhar?                                                                                                                                    

Mudou muito a Europa do futebol a partir da geopolítica. Transformou países, seleções e escolas, alterou correlação de forças, mas no topo das potências permanecem os mesmos (quase todos) que a história ergueu.

Entre eles, o poder anglo-saxónico alemão que entretanto também descobriu o futebol mais técnico/apoiado mas no qual os seus jogadores continuam sem saber rir-se no jogo (metafórica e literalmente). O “futebol-força” puro já não existe. As “novas babilónias” crescem na relva em terreno fértil. Vê-se em muitas seleções mas os alemães foram quem melhor as entenderam. No “derby estilístico da Europa”, do lado latino vive-se hoje a dificuldade de voltar a “cruzar os cabos dos estilos” como revela a atual indefinição, jogo e referencias de valor, da Itália, Espanha e até França.

Por isso, espero um Euro para confirmar tendências. Sem ambição de revoluções. Existirá, no fim, algum estilo de jogo que ganhe? Ou só uma seleção e o nome do país? Parece a mesma coisa, mas são muito diferentes. É a primeira, o triunfo do estilo (como conseguiu a Espanha com a sua forma de jogar entre 2008-2012) que faz um Torneio destes ficar mais na memória do que outros.