O cérebro e a girafa

11 de Dezembro de 2007

Olha-se para o jogar do 4x4x2 losango de Bento e a primeira tentação é pensar nas faixas (pela falta de extremos e laterais de verdadeira classe) como a principal causa d crise de jogo. Observando com atenção, porém, os problemas estarão mais no corredor central, o espaço onde, por excelência, se pensa o jogo, em qualquer sistema. E o Sporting pensa hoje mal o jogo. Por isso, a crise exibicional. A defender e a atacar.

Porque o seu melhor pensador, Moutinho, joga quase sempre sobre uma ala.

Porque Miguel Veloso inicia a transição com um passe longo para a faixa ou de forma lenta sem progressão. Porque o vértice ofensivo central Romagnoli tende, por principio de jogo, a descair para uma faixa quando na conclusão do momento ofensivo, abrindo espaço para a entrada em diagonal dos alas, como forma preferencial de ocupar a zona central de construção entre-linhas nas imediações da área. Falta, portanto, profundidade apoiada no início da transição e organização construtiva vertical no centro da fase de conclusão ofensiva. No primeiro caso, a solução é redimensionar tacticamente os movimentos de Veloso, no segundo a solução tem nome e duas pernas, João Moutinho.

O cérebro e a girafa

O cérebro e a girafaPensamos num ponta-de-lança alto e logo imaginamos uma equipa a cruzar bolas para a área. Mas, será que um nº9 de perfil girafa, menos móvel e, mais ou menos possante, só pode “encaixar” neste tipo de jogo? Claro que não. É óbvio que, pelas usuais características futebolísticas deste tipo morfológico de jogador, o mais natural será através desse jogo que as suas qualidades, jogo aéreo e maior presença na área, se evidenciem melhor, mas uma equipa nunca pode ficar refém do estilo de um jogador. O caso de Purovic no Sporting é um bom exemplo. Fala-se nele como o avançado ideal para o tal sistema alternativo (4x2x3x1) pensando nos tais cruzamentos e jogo aéreo. Ou seja, os restantes dez jogadores teriam, então, que quase só jogar em função do estilo de um jogador. Não faz sentido.

É na definição prévia de que forma a equipa vai procurar chegar ao golo que reside a sua filosofia. É o chamado modelo de jogo que engloba sistema e jogadores. Se o atraiçoar perde a razão de existir. Paulo Bento tem tentado encaixar Purovic no seu 4x4x2. É o caminho certo mas algo “contra-natura” para as características do jogador. Para o encaixar no onze só alterando algumas coordenadas de como atacar. Sem, no entanto, mexer no modelo, porque isso é como “tirar o tapete táctico” a toda a equipa. Deve-se apenas limar movimentos no último terço do terreno. Uma ultima instância diferente para chegar ao golo. O médio centro ofensivo jogar mais perto da área e os alas do losango não flectirem tanto e procurarem mais movimentos de profundidade e cruzamento.

O jogo contra o Dinamo, com Moutinho de regresso ao centro, no vértice ofensivo, foi o “toque de midas” para devolver à vida o losango. Como isto funciona melhor com exemplos revejam os vídeos do Sporting de Boloni e olhem para como jogavam Jardel (o tipo de nº9 cabeceador que “só” fazia golos) e João Pinto. Tacticamente andava entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1. Exactamente o meio-caminho onde devia hoje estar o Sporting de Bento. Um local onde se cruzam ideias do treinador com características dos jogadores.